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Cultura

O cronista da interseção entre Ocidente e Oriente

Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão vai para o romancista turco Orhan Pamuk, cuja obra expõe as feridas políticas de seu país, transitando entre a tradição narrativa local e os rastros ocidentais no Oriente.

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Orhan Pamuk: traduzido para 34 idiomas

O prêmio concedido pelas editoras alemãs a cada ano, desde 1950, carrega sempre uma conotação política. Por alguns chega a ser considerado um "gesto de reconciliação", oficializado sempre em outubro, numa cerimônia solene durante a Feira do Livro de Frankfurt.

Susan Sontag e Péter Ésterházy

Friedenspreis für Susan Sontag

Susan Sontag, ao receber o prêmio em outubro de 2003

Em 2003, por exemplo, pouco depois das divergências que abalaram as relações transatlânticas entre a Alemanha e os EUA, Susan Sontag – a "representante" da cultura européia no país governado por George W. Bush – foi a escolhida.

Em 2004, pouco depois do ingresso de vários países do Leste Europeu na UE, o prêmio foi para as mãos do húngaro Péter Ésterházy, cuja obra resgata a história de seu país, tendo como pano de fundo tanto a herança das discrepâncias sociais sob a monarquia quanto as durezas do regime comunista.

Gesto simbólico

Türkei - Istanbul

Bandeira turca. Ao fundo, ponte sobre o Estreiro de Bósforo

Neste momento em que a União Européia passa por uma série crise e parece estar desiludida consigo mesma, o gesto simbólico de (como insistem alguns) "reconciliação" através do Prêmio da Paz tem como destinatário o romancista turco Orhan Pamuk.

"Um escritor", escrevem os editores alemães, "que como nenhum outro poeta vai atrás dos rastros do Ocidente no Oriente e do Oriente no Ocidente, prestando seu tributo a uma cultura que se baseia no saber e no respeito pelo Outro". E cujas obras foram traduzidas para 34 idiomas em mais de cem países.

Retórica à parte, o autor de Meu Nome é Vermelho (publicado no Brasil pela Companhia das Letras), entre outros, é conhecido por sua habilidade em buscar alegorias no passado de seu país para apontar as feridas do presente. Da gama de personagens de seus romances fazem parte minorias étnicas como os curdos, policiais autoritários, extremistas islâmicos, separatistas e até mulheres em prol do uso do véu muçulmano.

Armênios e curdos

Talvez por isso Pamuk – que nasceu em uma rica família de Istambul, formou-se em Arquitetura e Jornalismo e passou anos em Nova York – seja um nome polêmico em seu próprio país.

Em entrevista a um diário suíço, o autor fez recentemente declarações sobre a história turca que lhe custaram o ódio de milhares de opositores: "É preciso falar sobre o assunto e todo mundo deveria fazer isso. Mataram-se aqui 30 mil curdos. E um milhão de armênios. E quase ninguém tem coragem de mencionar isso. Eu falo e me odeiam por isso".

A culpa da Turquia pelo extermínio dos armênios em 1915 foi, diga-se de passagem, recentemente lembrada pelo Parlamento alemão. Num debate que causou um sério descontentamento em relação a Berlim nos bastidores políticos de Ancara. Mais um "acaso" que certamente endossou a escolha de Pamuk pelo Comércio Livreiro Alemão .

Narrações "em sépia"

Mesmo tocando em assuntos tão delicados e quase explosivos, o romancista não se vê como um escritor "político". A forma escolhida por ele para tatear a história e a identidade de seu país busca, antes de tudo, narrar o mal-estar de uma cultura que transita entre tradições orientais e dogmas ocidentais.

Em Istambul, por exemplo, um passeio autobiográfico por sua cidade natal, Pamuk opta por uma espécie de narração "em sépia", colando lembranças que vão e vêm no tempo. "Não é rara a atmosfera de uma história fantasmagórica, a história do declínio do Império Otomano, do qual o Estado turco moderno se originou", comenta o diário Süddeutsche Zeitung.

Identidade em questão

Buscar o passado é para Pamuk uma forma de expor que "os turcos têm, por um lado, a necessidade legítima de defender sua dignidade nacional – e isso inclui o reconhecimento do país como parte do Ocidente e da Europa. Por outro lado, há também o medo de se perder a própria identidade, no bonde da ocidentalização", observa o escritor em entrevista ao semanário Die Zeit. Com uma diferença: a Turquia enfrenta este tipo de conflito a partir da perspectiva de um país que nunca foi colônia de potências ocidentais, mas sim potência colonizadora.

Mesmo assim a herança simbólica pós-colonial não passa despercebida, como ilustra o escritor no conto autobiográfico O Apartamento de Pamuk, publicado pelo The New Yorker e citado pelo diário berlinense taz. Aqui, o escritor conta como os ricos e burgueses de Istambul tinham em suas casas salas de visita decoradas de acordo com os modelos europeus: cristaleiras, sofás e um piano. A diferença é que ninguém tinha vontade de permanecer naquele ambiente. O espaço ficava ali, destinado a ser exposto a algum visitante ocasional, como símbolo da própria modernidade. Ou melhor, da própria "modernidade". Entre aspas.

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