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Cultura

O comércio lucrativo com bens culturais da Antiguidade

Escavações ilegais destroem o patrimônio cultural da humanidade. Não somente gangues de ladrões, mas também terroristas ganham com esse negócio. Colecionadores muitas vezes desconhecem a origem das peças.

No meio do deserto, o cenário parece mais o de um massacre: partes de crânio, fêmur e costelas estão espalhados pelo entorno; ossos humanos estão sobrepostos descuidadamente uns sobre os outros. Entre eles, um pequeno pedaço de madeira pintada, um caco de cerâmica, restos de bandagens.

Abu Sir al-Malaq, a cerca de 90 quilômetros do Cairo: aqui, os arqueólogos alemães Otto Rubensohn e Georg Möller escavaram uma necrópole no início do século 20. Os trabalhos de escavação terminaram em 1908. Posteriormente, as tumbas foram encobertas novamente pela areia. Hoje são os ladrões de sepulturas que aqui tentam a sua sorte. Por toda parte, veem-se cascalho e buracos cavados na areia; muitos deles adentram as profundezas.

"A região de Abu Sir era famosa por seus sarcófagos pintados", explica a arqueóloga egípcia Monica Hanna. Ela documenta as escavações ilegais e sabe que mais de 90% da necrópole já foi saqueada. Com a venda dos objetos, os ladrões esperam obter um alto lucro.

Mercado de antiguidades em expansão

O negócio com bens culturais roubados já floresce há 25 anos. Escavações ilegais já havia em muitos países, mas elas estão aumentando desde o início dos tumultos políticos no Oriente Médio e no Norte da África. Desde 2011, o número de artefatos escavados ilegalmente ou roubados dobrou no Egito, e esse não é um caso isolado. Também o Iraque vem sendo sistematicamente saqueado nos últimos 25 anos, afirma Markus Hilgert, diretor do Museu do Oriente Próximo (Vorderasiatisches Museum) em Berlim.

Os saqueadores atendem a um mercado ganancioso, que vem aumentando vertiginosamente desde os anos 1990. Naquela época, ações de empresas perderam valor, e muitas pessoas procuraram novas possibilidades de investimento. Muitos aplicaram o seu dinheiro na arte – e em antiguidades. Atualmente, pagam-se preços elevados por objetos antigos.

Raubgrabungen bei Abu Sir in Ägypten

Escavação ilegal em Abu Sir, no Egito

Por exemplo, em agosto de 2014, uma estátua egípcia de 75 centímetros de tamanho foi vendida por 14 milhões de libras (cerca de 85 milhões de reais) num leilão em Londres.

Em dezembro de 2007, uma escultura de arenito de oito centímetros, proveniente do atual Iraque, alcançou num leilão da Sotheby's em Nova York a soma de 57 milhões de dólares (por volta de 228 milhões de reais).

Gangues e terroristas organizados

Montantes tão elevados atraem quadrilhas organizadas. Se antes o roubo era praticado somente por agricultores de vilarejos, hoje essa tarefa é executada por gangues organizadas que têm especialistas à sua disposição e sabem exatamente onde escavar, afirma a arqueóloga Monica Hanna. "Elas utilizam equipamentos de ultrassom para encontrar os dutos subterrâneos das sepulturas, e empregam máquinas pesadas", relata. Os saqueadores não se deixam intimidar por nada. Hanna conta que já foi vítima de ataque a tiros.

Além das gangues, grupos terroristas também se financiam com a venda de peças escavadas ilegalmente. Está mais do que provado que o "Estado Islâmico" não somente destrói o patrimônio cultural, mas também saqueia e obtém altos lucros com a venda dos bens culturais roubados.

Colecionadores sem noção

O colecionador que compra uma antiguidade numa casa de leilões ou numa galeria quase nunca tem conhecimento dessas práticas, pois os artefatos muitas vezes são oferecidos com falsas identificações de origem. Foi o que aconteceu, em meados de 2015, numa galeria da cidade alemã de Oberhausen: uma estatueta de marfim de cinco centímetros do período tardio do Egito faraônico (664 a 332 a.C.) fora escavada, de acordo com o seu certificado de origem, supostamente por volta de 1900, indo então para Nova York e, desde 1960, integrava uma coleção particular. Na verdade, a escultura fora roubada em 2013 de uma escavação na ilha egípcia de Elefantina.

Confrontados com tais exemplos, os negociantes tentam minimizar a situação e falam de casos isolados. Segundo eles, a maioria das antiguidades no mercado provém de antigas coleções. Friederike Fless, presidente do Instituto Arqueológico Alemão, discorda: "Não existem tantas coleções antigas que justifiquem a grande quantidade de objetos ofertados." Os colecionadores devem estar cientes, assinala Fless, que a maioria dos artefatos entrou na Alemanha de forma ilegal e vem de escavações ilícitas.

Venda de arte roubada não é delito trivial

Raubgrabungen bei Abu Sir in Ägypten

Ladrões deixam somente buracos para trás

O contrabando de objetos roubados ou escavados ilegalmente não é nenhum delito trivial, esclarece Sylvelie Karfeld, do Departamento Federal de Investigações da Alemanha (BKA). Segundo Karfeld, a receita proveniente do comércio ilegal de antiguidades varia anualmente entre seis bilhões e oito bilhões de dólares (por volta de 24 bilhões a 32 bilhões de reais). Isso coloca o comércio de bens roubados numa das primeiras posições na lista dos negócios ilegais mais lucrativos.

Para os arqueólogos, no entanto, não é o valor das antiguidades que está em primeiro plano. Eles enfatizam sobretudo que as escavações ilegais destroem o passado de um povo: pois, fora do contexto da escavação, um objeto isolado não conta história nenhuma – eles são como páginas soltas de uma biblioteca incendiada.

Lei de proteção cultural é insuficiente

O papel da Alemanha nesse negócio ilegal é inglório. A ministra alemã da Cultura, Monika Grütters, admite a existência de "regras de importação relativamente frouxas na Alemanha". Ela pretende mudar isso com a prevista alteração da Lei de Defesa da Propriedade Cultural, mas muitos arqueólogos afirmam que as mudanças são insuficientes.

A Sociedade Alemã de Pré e Proto-história adverte que "muitas das planejadas disposições do projeto de lei são imprecisas em determinados pontos, além de ineficazes."

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