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Cultura

O cidadão Günter Grass

Um mito alemão comemora 75 anos de idade: sua biografia é a história – ou, pelo menos, uma delas – da Alemanha desde a Segunda Guerra.

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Em Aus dem Tagebuch einer Schnecke (Diário de uma lesma), Günter Grass afirma: "Não formo nenhuma imagem. Inútil querer reduzir-me a um denominador". Nessa frase talvez esteja a chave para o mal-estar que o camaleônico artista alemão por vezes provoca. Grass recebeu o dom do ecletismo: ele consegue, ao mesmo tempo, exercer as atividades de poeta, romancista, desenhista, escultor, cabo eleitoral, crítico social, cozinheiro, patriarca e patrono da literatura.

Como não formar uma imagem dele? Todo mundo tem o seu próprio Günter Grass, embora muitas dessas imagens não sejam incompatíveis entre si: para alguns, ele continua sendo o terror da burguesia e libertino dos tempos de O tambor, para outros, a consciência da nação, ou ainda o maçante pregador moral. Todos sabem quem é Grass, mas quem o conhece, realmente?

Abençoado por todas as musas

Nascido em 16 de outubro de 1927 em Danzig (hoje Gdansk, Polônia), de uma família de comerciantes, Günter Grass serviu a Luftwaffe (Aeronáutica) durante a Segunda Guerra Mundial, ficando prisioneiro dos norte-americanos até 1946. De início, dedicou-se exclusivamente ao estudo da escultura e gravura, e só em 1956 produziu os primeiros contos, poemas e obras cênicas, que ele próprio classifica dentro do teatro do absurdo.

Em 1958 o manuscrito de O tambor foi premiado pelo Grupo 47. De 1947 a 1967, esse clube de escritores constituiu um fórum de discussão literária e reflexão social na Alemanha pós-guerra. A meta de seus fundadores, Alfred Andersch e Walter Kolbenhoff, fora esclarecer e educar para a democracia o povo alemão, que acabava de atravessar o regime nazista. A premiação pelo Grupo 47 foi o trampolim para a carreira literária de Grass: O tambor, primeira parte da Trilogia de Danzig, foi publicado no ano seguinte. Sua filmagem, em 1979, por Volker Schloendorff, recebeu o Oscar e a Palma de Ouro em Cannes.

Um intelectual bom de briga

A partir de 1965, Grass empenhou-se nas campanhas eleitorais do Partido Social-Democrático (SPD), a cujos quadros pertenceu de 1982 a 1993. O escritor-político abraçou publicamente causas que iam desde as leis de asilo na Alemanha e a indenização aos trabalhadores forçados do nazismo, ao direito de guerra na Polônia e à política dos Estados Unidos na América Central.

Uma parte representativa de sua rica biografia é ocupada por inumeráveis polêmicas, políticas ou literárias, quer na primeira pessoa, quer não. A começar com as acusações de perniciosidade contra os romances da Trilogia de Danzig. Recentemente Grass ajudou a rebater as acusações de anti-semitismo contra o colega Martin Walser. Em 1995, a campanha do crítico superstar Marcel Ranicki contra seu romance Ein weites Feld (Um campo vasto) ocupou durante semanas a cena intelectual européia.

"Cozer para não ser cozido"

O jubileu de Günter Grass é acompanhado por diversas publicações e eventos. Michael Jürgs, Claudia Mayer-Iswandy e Fritz J. Raddatz lançaram três novas biografias, tão diversas quanto as facetas do mestre: Bürger Grass (Cidadão Grass), de Jürgs, enfatiza a personagem política, enquanto Mayer-Iswandy preferiu uma abordagem quase multimídia, ricamente ilustrada, criando um fascinante mosaico do artista, seus contemporâneos e seu universo intelectual.

No domingo (13), amigos e colegas de Grass reuniram-se na Academia das Artes, em Berlim, para homenageá-lo. Entre muitos outros, o diretor Volker Schloendorff e a escritora Christa Wolf revelaram deliciosas anedotas, além de prestarem a merecida homenagem a sua(s) arte(s). Entre estas, está a culinária: assim, enquanto o colega Peter Härtling relembrou uma inesquecível sopa de lentilhas, o crítico polonês Andrzej Wirth pôde citar uma jóia da sabedoria grassiana: "É preciso cozinhar, e não se deixar cozinhar".

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