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Cultura

"O Brasil tem muito mais do que favelas e traficantes"

Fernando Meirelles ('Cidade de Deus') e Marcelo Machado falam em entrevista à DW-WORLD sobre 'Ginga', documentário que expõe a biografia de dez jogadores de futebol no Brasil.

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Fernando Meirelles: produtor do documentário 'Ginga'

DW-WORLD: Uma das características da ginga, citada inclusive no filme, é a de "ser mais esperto que o outro" – um aspecto decisivo na cultura brasileira. Neste sentido, é possível dizer que a ginga e a "cultura do drible" são também responsáveis pela mazelas do país?

Marcelo Machado: Driblar as dificuldades com flexibilidade e mobilidade pessoal pode ser uma virtude. Já enganar os adversários de forma ilícita me parece um grande defeito.

Fernando Meirelles: No sentido de "driblar a lei", poderia fazer sentido, mas o fato é que na relação dos mais corruptos o Brasil vem melhorando sua posição nos últimos anos. Hoje somos uma democracia muito mais transparente. Mas a ginga, no sentido de criatividade, é responsável por grandes acertos do país, como a idéia de se produzir biocombustível. Grande parte da frota do Brasil é movida a álcool feito de cana de açúcar e não gasolina. Esse combustível polui menos, gera empregos e tira o país da dependência da flutuação internacional do barril de petróleo. É uma solução brasileira, cheia de ginga. Neste ano, o Brasil está começando a implantar o biodiesel, um diesel feito de mamona, soja ou resíduos de vários tipos de vegetais. Igualmente menos poluente, mais barato. Isso é ginga. Uma solução única e criativa para um dos principais problemas atuais no mundo, a energia.

Machado: No filme, procuramos mostrar da forma mais real possível o que é a vida dos meninos que sonham em ser craques e se tornar ricos e famosos com o futebol. Procuramos mostrar aspectos que não sejam conhecidos pelos que só vêem Ronaldos nas telas. Procuramos lembrar que o talento vem das ruas, dos campinhos, dos times amadores e da soma de toda nossa paixão pelo esporte.

Meirelles: A idéia dos diretores foi mesmo captar um certo "espírito" do país, tanto que o filme tem funcionado muito bem para platéias brasileiras.

Com exceção do Robinho, vocês se atêm a jogadores "anônimos" para mostrar o que é a ginga. Os nomes conhecidos (Ronaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos) ficaram apenas no bônus do DVD lançado na Alemanha. Por quê?

Machado: A proposição original do documentário é mostrar por que os brasileiros são tão bons no futebol e não fazer uma tese sobre a ginga. Nesse sentido, mostrar de onde vêm os talentos e a paixão dos meninos pelo futebol no Brasil sempre foi mais interessante do que abordar jogadores famosos, que são muito exibidos pelas mídias tradicionais.

No caso do Robinho, pudemos mostrar aspectos de sua infância e o prazer que ele tem em jogar, não apenas profissionalmente. E o Falcão, que também é famoso, mas no futsal – um celeiro de craques e grande escola para a habilidade.

Por que a escolha do grafite como fio condutor de um filme sobre futebol?

Machado: Porque assim como o futebol brasileiro, ele é uma expressão que vem das ruas.

Ginga tem uma certa afinidade com a linguagem publicitária. Cortes rápidos, a música. Por que a escolha desse formato?

Machado: Somos de uma geração que começou no vídeo e na televisão. Essa é a nossa cultura audiovisual. E todos já trabalhamos com publicidade e videoclips. Nos expressamos naturalmente assim.

Ginga. Regie: Marcelo Machado, Hank Levine, Tocha Alves. Szenenfoto

Ginga com a bola: também feminina

Vocês procuram, através de duas entrevistadas, incluir a mulher no universo do futebol brasileiro. Essa inclusão corresponde à realidade do país?

Machado: O futebol no Brasil é essencialmente masculino. As meninas mais novas, as novas gerações estão começando a jogar também. Mas ainda não temos a mesma paixão, a profissionalização e um volume expressivo de mulheres envolvidas com o futebol no país.

Ginga revela pouco da miséria do país, embora os personagens sejam quase todos de classe baixa. Há sinais da pobreza e referências em um ou outro depoimento, mas a violência é praticamente ausente. A imagem que fica é a de um Brasil "feliz". Um dado interessante, principalmente quando se lembra de Cidade de Deus , também produzido pela O2. Por que essa escolha?

Machado: Porque nosso país não se resume à violência. Porque não podemos esquecer de buscar nossas virtudes para superar as dificuldades. Porque os brasileiros mais pobres são muitas vezes os mais generosos, alegres e dispostos a buscar caminhos. Porque temos que superar o estereótipo de país pobre e violento. E definitivamente porque o Brasil tem muito mais a mostrar do que apenas favelas e traficantes.

Meirelles: Creio que o Brasil seja mesmo um país feliz. Vale lembrar que estima-se em 15 mil o número de garotos ligados ao tráfico no Rio de Janeiro, uma cidade com 13 milhões de habitantes, dos quais um milhão moram em favelas. Ou seja, a violência é enorme mas é exceção. Por isso esta escolha. A Europa prefere ver apenas nossa pobreza ou violência por ser diferente, mas o fato é que somos a décima primeira economia mundial. Os bolsões de pobreza, altamente condenáveis, não são a regra no Brasil. Cidade de Deus fala justamente deste lado sombrio do país, mas isso não significa que represente o país como um todo. Seria como achar que nos EUA só existem bandidos, pois em quase todos filmes vemos perseguições de carros com policiais dando tiros no meio da rua. Ginga definitivamente capta o espírito do país.



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