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Cultura

"O Brasil está isolado do mundo desde a ditadura"

Uma mostra de arte indígena marca o Ano Brasil na França. Será que os brasileiros se fecharam em sua própria reserva? O jornalista e artista francês Gilles de Staal analisa a mostra e a relação do Brasil com o exterior.

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'Objetos esplêndidos, mas nenhuma descoberta para os brasileiros'

DW-WORLD – A exposição "Brésil Indien" marcou o início do Ano Brasil na França. Que aspectos da cultura indígena brasileira estão expostos no Grand Palais?

Gilles de Staal, französicher Publizist und Künstler

Gilles de Staal, artista e jornalista francês

Gilles de Staal – A exposição se divide em duas partes principais. A parte arqueológica tem sobretudo objetos de barro, urnas funerárias das civilizações do Marajó, do Baixo Amazonas, do Rio Negro, entre outras regiões, chegando à época da Conquista. A parte contemporânea inclui os mais variados objetos de produção atual, objetos trançados e cocares esplêndidos – coisas que também se encontram nas sedes da Funai. Objetos esplêndidos, mas nenhuma grande descoberta para os brasileiros.

E para os europeus?

Para os europeus, sim. Principalmente os filmes antropológicos projetados no centro das salas, mostrando cenas cotidianas, pessoas pintando o corpo, festas, cerimônias... Com estes filmes, as peças da exposição ganham sentido. Eles deixam claro que as nações indígenas vivem no Neolítico, mesmo que os índios não pareçam o Homem de Neanderthal ou de Cromagnon. Para o europeu, isso talvez lembre a civilização micênica, a Grécia arcaica, as eras das grandes descobertas...

Pelo que você está dizendo, a exposição veicula uma imagem purista ou prototípica da cultura indígena. Ela também dá alguma pista sobre o processo de aculturação do índio brasileiro?

Não. Este é um dos problemas, pois a exposição é completamente idealizada. É uma mostra feita para o grande público, um público que não tem a menor idéia da realidade indígena no Brasil, dos problemas de demarcação de territórios e de muito mais coisas que não podem ser expostas num mostruário. Os filmes revelam que estas sociedades podem viver muito bem como estão, no estado natural.

Statuette aus Brasilien

Estatueta antropomórfica de Santarém (900–1600 da nossa era). Peça exposta na mostra 'Brésil Indien', no Grand Palais de Paris

A exposição não tem nenhum contexto político ou histórico. É claro que seria completamente diferente mostrar uma exposição dessas na França ou no Brasil. No Brasil, esta falta de contextualização consagraria o extermínio indígena. Afinal, antes do índio idealizado, existe o índio real. E o índio real existe e está prometido ao extermínio. Ele é o único alvo do ódio racista do tipo europeu. No Brasil, o racismo não tem a mesma conotação que na Europa. O único paralelo que conheço disso no Brasil é em relação ao índio. Depois se coletam as relíquias e se inventa um índio idealizado, condizente com a idéia do Pindorama...

Na Europa, a exposição permite descobrir que o homem selvagem não é um solitário fugitivo no meio da floresta, mas membro de uma sociedade que existe e pode viver feliz, se tiver condições básicas. Este é um recado extremamente importante.

"A percepção brasileira da Europa é estereotipada"

Esta imagem idealizada também exclui os índios aculturados que não têm nem sequer uma causa coletiva a defender, por terem perdido completamente o vínculo com suas origens. Agora começa a ocorrer um fenômeno interessante de redescoberta da identidade indígena a posteriori ...

Sim, toda pessoa que sofre discriminação por aquilo que é interioriza a renegação da identidade. A perda de uma identidade confirmada pela sociedade como inexistente e morta é uma ferida incurável. É para sair desta dor interiorizada que se resgata esta identidade posteriormente.

Você não acha que este aspecto "etnológico" e pitoresco também se aplica à recepção européia da cultura brasileira de maneira geral?

A sociedade brasileira não é conhecida aqui, seus problemas são extremamente simplificados, sua imagem é estereotipada. Mas esta não é uma visão antropológica. O que eu acho é que esta recepção reflete a percepção que o Brasil tem do mundo exterior. A percepção brasileira da Europa é completamente estereotipada.

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