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Poder irresistível

Klaus Gehrke (av)5 de setembro de 2008

A "Nona sinfonia" está no centro do Beethovenfest 2008. De Mao aos kamikazes japoneses, de Hitler à Rodésia: exemplo marcante da relação entre arte e política. Uma entrevista com a diretora do Festival, Ilona Schmiel.

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O compositor entre a arte e o poderFoto: DW

A melodia com que Ludwig van Beethoven musicou a Ode à Alegria do poeta Schiller é singela, quase uma canção popular. Este é, sem dúvida, um dos motivos por que a Nona sinfonia alcançou tão grande popularidade e é hoje uma das peças mais conhecidas do compositor nascido em Bonn.

Entretanto poucas composições já estiveram tão na mira dos poderosos, também graças aos ideais humanistas contidos em seu texto. A Nona é um dos focos do Beethovenfest de Bonn em 2008. A DW-RADIO conversou com Ilona Schmiel, a diretora do festival.

DW-RADIO: Sra. Schmiel, como chegou ao slogan "Poder.Música" (Macht.Musik)?

„Musik ist ein probates Mittel für Kulturtransfer“: Ilona Schmiel
Ilona Schmiel

Ilona Schmiel: A Nona sinfonia é naturalmente o estímulo para se perguntar: Como lidar com esta obra de forma representativa para todo um conteúdo programático? E esta foi a razão para colocar o festival deste ano sob o tema "Poder.Música" e perseguir os caminhos da Nona sinfonia, desde sua estréia, em 1824, até hoje. A profissão de fé política de Beethoven, essa utopia – a Ode à Alegria de Friedrich Schiller que ele musicou é, afinal, uma utopia –, ela não perdeu nada da atualidade. Ainda vivemos numa época de guerras, de repressão, de fome e muitas outras injustiças. Sem dúvida, em seu tempo, Beethoven sonhou que isso poderia melhorar. E somente este fato já é motivo para se colocar a Nona em foco.

A questão "como é possível acompanhar até 2008 o histórico de recepção" sempre me ocupou. Até porque, até onde eu sei, não há no mundo nenhuma obra que, por um lado, seja tão executada, selecionada especificamente para tantas ocasiões; e que, por outro lado, paralelo aos caminhos do triunfo, haja traçado todos os descaminhos de governos, de detentores do poder e do comando. Isso levou a uma confiscação total pela política e a um abuso dessa sinfonia para interesses políticos próprios e para statements ditatoriais.

Beethoven tinha relativamente bastante contato com os poderosos e, examinando sua obra – a sinfonia Heróica, A vitória de Wellington ou Egmont –, há uma série de peças em que ele se expressou politicamente através da música, mas de formas bem diferentes.

Essa questão – como ele se cercava de poderosos, mas ao mesmo tempo repetidamente se desvencilhava deles – foi um tema da sua vida, acho. E se coloca a pergunta: para onde leva o desenvolvimento de Beethoven através das sinfonias, através da rejeição dos governantes para uma sociedade burguesa. É um caminho que, por um lado, passa pelo incensamento dos poderosos – a exemplo de Napoleão –; por outro, ele também utilizava a sociedade burguesa, que justamente financiava suas obras e cuidava da subsistência do próprio compositor.

Por isso, creio, a atualidade dessa música é ainda hoje tão próxima e tão tocante. Pois precisamente essas questões – como lidar com as obras hoje em dia, como a música é utilizada, que pressões sofre, quão "oficial" deve ser, de modo a ser executada em certas ocasiões; mas também como ela é recrutada para, por exemplo, com um texto apropriado, ser aceita por um regime – tudo isso a Nona sinfonia já atravessou.

Quem instrumentalizou a música de Beethoven para seus fins?

South African National Youth Orchestra Quelle: Beethovenfest
A South African National Youth Orchestra no Beethovenfest 2006Foto: presse

Goebbels [ministro nazista da Propaganda] sempre mandava executar a Nona sinfonia nos aniversários de Hitler. E também a República Democrática Alemã [antiga Alemanha Oriental] a escolheu como seu hino. Ela foi, portanto, permanentemente executada no Leste e no Oeste, tornou-se o hino da Europa. E, a propósito dos Jogos Olímpicos, não deixemos de mencionar que Mao utilizava essa sinfonia para motivar os trabalhadores nos campos. Os aviadores kamikaze escutavam essa música – estou pulando um pouco de uma época para a outra – e ela também foi hino nacional da Rodésia. É difícil que haja uma obra mais globalizada, creio. Entretanto ela contém essa mensagem humana, esse comprometimento com o amor ao ser humano e quase se poderia dizer: esta mensagem não é passível de ser destruída.

De que forma avalia a música de Beethoven hoje em dia, em que pé está o "poder da música"?

Para mim pessoalmente, o poder da música permanece em primeiro plano, pois quero continuar acreditando nessa utopia de que através da música se possa mudar muitas coisas. Em 2006 tivemos como convidada uma orquestra nacional de jovens da África do Sul [SANYO], na qual gente de diferentes meios pode tocar junta. A música é, portanto, também um instrumento social. E esse momento é impossível gravar em CD. Reproduzir em concerto, isso é algo exclusivo. Aí você percebe o poder musical. E acho que não há como se furtar a esse poder.