No Senado, Dilma tenta reforçar narrativa do ″golpe″ | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 29.08.2016
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Brasil

No Senado, Dilma tenta reforçar narrativa do "golpe"

Em discurso mais voltado para militância, presidente afastada ataca governo interino e faz paralelos entre sua situação e a de ex-líderes como Getúlio e João Goulart. Fala não deve ter efeito prático na votação.

Dilma durante o discurso no Senado: Um golpe que resultará na eleição indireta de um governo usurpador”

Dilma durante o discurso no Senado: "Um golpe que resultará na eleição indireta de um governo usurpador”

Ao discursar no Senado nesta segunda-feira (29/08), a presidente afastada Dilma Rousseff denunciou o governo do interino Michel Temer como "usurpador", atacou adversários como o deputado Eduardo Cunha e fez uma espécie de compilação de argumentos da narrativa do “golpe”, que já vinham sendo usados em plateias de apoiadores nos últimos meses.

Para especialistas, apesar da presença dos senadores, a fala de Dilma foi voltada mais uma vez para a militância e não deve ter algum efeito prático na votação do processo de impeachment, cujo placar já sinaliza uma derrota da petista.

Dilma usou a palavra golpe em cinco oportunidades para descrever o processo de impeachment contra ela e ainda fez paralelos entre a sua situação política e a de ex-presidentes brasileiros que foram derrubados ou sofreram com conspirações, como Getúlio Vargas, João Goulart e Juscelino Kubitschek.

“Estamos a um passo da consumação de uma grave ruptura institucional, a um passo da consumação de um golpe de Estado”, disse Dilma. A frase deu o tom da maior parte do discurso. Em outra ocasião, ela disse que o processo é "um golpe que, se consumado, resultará na eleição indireta de um governo usurpador”.

“Foi um discurso bem escrito, mas sem nenhuma novidade. Ela reafirmou a sua vitimização e alegou inocência. No fundo é um discurso para a militância que ainda não a abandonou. É algo que o PT e a esquerda brasileira podem fazer uso no futuro, mas que no fundo não deve ter impacto na votação do Senado. O discurso não foi para os senadores. O jogo aqui já está definido”, afirma o cientista político Carlos Pereira, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio.

O cientista político Ricardo Ismael, da PUC-Rio, concorda. “O discurso provavelmente vai ser usado em 2018 pelo PT. Antes ela não conseguia nem fazer um discurso na TV sem ser alvo de um panelaço. Essa é a primeira vez em meses em que ela teve a oportunidade de falar para uma plateia nacional, ainda que os argumentos só sejam digeridos pela militância. Tudo isso foi muito estudado para a posteridade”, opina.

Ao longo do discurso, a presidente evitou admitir diretamente erros do seu governo

Ao longo do discurso, a presidente evitou admitir diretamente erros do seu governo

Discurso fica na "zona de conforto"

Ao longo do discurso, a presidente evitou admitir diretamente erros do seu governo. Quando o fez, disse rapidamente que “cometeu erros como todo mundo” e logo partiu para os ataques contra o governo interino. Ela se emocionou em duas ocasiões, quando falou das torturas que sofreu durante a prisão no período do regime militar e da luta contra o câncer.

Dilma com Chico Buarque antes do discurso no Senado

Dilma com Chico Buarque antes do discurso no Senado

Entre outros trechos similares aos que já haviam aparecido em discursos anteriores, Dilma também afirmou que está sendo apeada do poder por ter contrariado as elites. “Como é próprio das elites autoritárias, não viam na vontade do povo o elemento legitimador. Queriam o poder a qualquer preço."

Ela também atacou a “grande mídia” e lembrou que o processo teve início quando o PT resolveu apoiar a cassação do deputado Eduardo Cunha, em dezembro de 2015. Ao atacar o governo Temer, Dilma disse que o interino pretende reverter os avanços sociais que ocorreram no país nos últimos anos.

“O que está em jogo aqui são as conquistas sociais dos últimos 13 anos. O que está em jogo é o pré-sal, a inserção soberana de nosso país. O que está em jogo aqui é a conquista da estabilidade”, disse Dilma.

Após passar mais de 20 minutos relembrando sua trajetória e denunciando o “golpe”, Dilma finalmente se concentrou em se defender das acusações que servem como base do processo de impeachment: as pedaladas fiscais e publicação de decretos sem autorização do Congresso.

Ela afirmou, entre outras coisas, que o Tribunal de Contas da União já aprovou contas de outros presidentes que tomaram as mesmas medidas. "Querem me condenar por decretos que atendiam as demandas da população?”, disse.

Segundo o cientista político Ricardo Ismael, o discurso de Dilma ficou em uma “zona de conforto”. “Dilma mostra que não pretende se afastar da narrativa escolhida por ela e pelo PT. Nesta narrativa, ela não cometeu nenhum erro, nem como ministra nem como presidente. É uma zona de conforto.”

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