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Cultura

Nefertiti é alemã? E o Louvre é francês?

O crescente trânsito das obras de arte e a demanda pela globalização dos acervos nacionais despertam os museus europeus para uma maior mobilidade. Uma tendência que não deixa de gerar conflitos.

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Busto da rainha egípcia Nefertiti, objeto de desejo

Gemäldegalerie Alte Meister in Dresden

Visitantes da Gemäldegalerie de Dresden em frente a uma tela de Peter Paul Rubens

A galeria de pintura européia de Dresden – Gemäldegalerie Alter Meister – é a primeira coleção de arte deste porte que se dispôs a ser clonada na internet. O portal Second Life incorporou este museu à sua paisagem virtual, permitindo ao usuário percorrer todas as salas de exposição e apreciar as 750 obras do acervo permanente. Além de se entreter com jogos e erotismo, algo dominante na paisagem do SL, os avatares que circulam por este mundo paralelo já têm acesso à arte como forma alternativa de diversão.

Apesar da dinâmica circulação de imagens via internet, os museus ainda protegem seus acervos da incontrolável reprodutibilidade. Mas mesmo que se todas as obras de arte pudessem ser vistas em um grande museu virtual, isso certamente não diminuiria o interesse em ver de perto a imagem original.

Preciosidade do que está longe

Deutschland Berlin Ausstellung Die Schönsten Franzosen Neue Nationalgalerie

Cartaz da exposição 'Os franceses mais bonitos vêm de Nova York'

Isso é o que indica, por exemplo, a imensa atratividade de exposições com obras emprestadas de museus estrangeiros. Os Franceses Mais Bonitos vêm de Nova York é o título da exposição recém-inaugurada na Neue Nationalgalerie de Berlim, com pinturas francesas do século 19 pertencentes ao acervo do Metropolitan Museum. E por mais que o visitante passe mais tempo na fila para entrar na exposição do que passaria num vôo barato da Easyjet para ir de Berlim a Paris ver o Musée d'Orsay, a mostra dos belos franceses já atraiu massas de interessados em torno do edifício de Mies van der Rohe no Kulturforum de Berlim, mesmo antes da inauguração.

Em 2004, uma exposição com obras emprestadas do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) levou à Neue Nationalgalerie 1 milhão e 200 mil de pessoas em sete meses. Interessante seria saber quantos dos visitantes já estiveram na Gemäldegalerie berlinense, um dos acervos de pintura mais importantes da Europa, a cinco minutos a pé dali.

Louvre fora de Paris

O trânsito de obras de arte pelo mundo está gerando novos moldes institucionais de intercâmbio. O projeto de criar uma espécie de filial do Louvre em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes, gerou grande polêmica na França recentemente. O Louvre Abu Dhabi, a ser inaugurado em 2012, deverá organizar exposições temporárias com empréstimos da "matriz" em Paris e de diversos outros museus franceses, entre os quais o Centro Georges Pompidou – um projeto programado para durar 20 anos.

Louvre Abu Dhabi Kunst Museum Modell

Maquete do Louvre Abu Dhabi, projetado pelo arquiteto francês Jean Nouvel

Os defensores se entusiasmam com uma nova era da cooperação cultural e consideram o projeto uma iniciativa pioneira na globalização dos acervos de arte. Os críticos reclamam da "liquidação" da cultura francesa, da comercialização dos museus e da destruição de uma rede estável de empréstimos recíprocos entre as instituições. Afinal, as 200 ou 300 obras a serem expostas em Abu Dhabi num sistema de rotação não poderão mais ser emprestadas por outros museus durante o período em questão.

"A Bela Chegou" nem vai partir

Se levada às últimas conseqüências, a circulação dos acervos mundiais poderia transformar a obra de arte em bem móvel de fato. E possivelmente resolver muitos dilemas sobre a posse de patrimônios culturais deslocados de um país para o outro ao longo da história, talvez até apaziguando a reivindicação de que os museus arqueológicos europeus, por exemplo, devolvam definitivamente suas peças aos países de onde foram retiradas.

Nofretete - Umzug auf Museumsinsel

Busto da rainha egípcia Nefertiti é uma obra inacabada, datada de 1340 a.C.

No entanto, a recente disputa pelo famoso busto da rainha egípcia Nefertiti, encontrado pelo arqueólogo alemão Ludwig Borchardt em Amarna, em 1912, e transferido para Berlim no ano seguinte, mostra que as coisas não são tão simples assim. A recusa das autoridades alemãs em emprestar o busto de Nefertiti ao Egito por três meses, por ocasião da inauguração de um novo museu antigo próximo às pirâmides, em 2012, gerou uma discussão internacional.

O Museu Egípcio de Berlim justificou que, além do risco de a peça ser danificada no transporte, as instabilidades de ordem política na região proibiriam definitivamente o empréstimo do busto. Fato, no entanto, é que o Egito já exigiu reiteradas vezes o retorno da peça ao país e as instituições alemãs temem que a breve visita de Nefertiti (um nome que significa "a bela chegou") ao seu país de origem possa se transformar numa viagem sem retorno.

O crescente interesse pela mobilidade das obras de arte ainda deverá gerar muitos conflitos semelhantes, levando a se pensar no forte vínculo cultural e afetivo com patrimônios artísticos.

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