1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Alemanha

Narrador épico do Holocausto ganha Prêmio da Paz

Historiador Saul Friedländer recebe distinção do comércio livreiro alemão. Após perder a família no Holocausto, israelense de 74 anos quis contrapor a "memória mítica" judaica à "objetividade" da história alemã.

default

Saul Friedländer recebe a premiação

O Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão vai, em 2007, para o historiador israelense Saul Friedländer (74). Ele recebe a distinção neste domingo (14/10), na Feira do Livro de Frankfurt. Dotado com 25 mil euros, o Prêmio da Paz é concedido desde 1950 a personalidades da literatura, ciência e arte, que contribuem para a "concretização da idéia da paz".

Salvação aleatória

Certa vez, Saul Friedländer comentou que escolhera o pior momento possível para um judeu nascer: quatro meses antes da ascensão nacional-socialista, em outubro de 1932, em Praga. Quando contava apenas 6 anos e meio de idade, seus pais emigraram. Como ficaria constatado, para o país errado.

"Meus pais acreditavam que Hitler não chegaria à França. Outros membros da família foram para a Suécia e para a Palestina. Eles se salvaram."

A cadeia de más decisões dos Friedländer – trágicas, por serem sempre tomadas com as melhores intenções – teria continuação três anos mais tarde. Quando os alemães começaram a deportar os judeus residentes na França, o casal colocou o filho num internato católico, tentando escapar para a segura Suíça.

Eles haviam calculado mal, acreditando que, sem o menino, a fuga seria mais fácil. Porém os suíços os enviaram de volta à morte certa, justo por, supostamente, se tratar de um casal sem filhos. As famílias com crianças, ao contrário, as autoridades deixaram passar.

"Isto demonstra quão aleatória era a salvação. O que eles encaravam como decisão correta era, com freqüência, a errada", comenta o escritor.

Mito judaico x história alemã?

Deutschland Friedenspreis des Deutschen Buchhandels an Saul Friedländer

Friedländer (d) ao lado do presidente Horst Köhler e esposa

Como ocorre com grande parte dos sobreviventes do Holocausto, a bagagem do destino pessoal jamais abandonou Saul Friedländer. Após estudar Ciências Políticas e História, começou, na década de 1960, a pesquisar as circunstâncias sociais do genocídio dos judeus europeus.

Iniciou com o papel da Igreja Católica, o que, nos anos 60, lhe acarretou acusações de ingratidão perante a instituição que, afinal, salvara sua vida durante a guerra. Mais tarde foi uma declaração de Martin Broszat, o nestor da pesquisa histórica alemã, que o impulsionou a redigir sua obra principal.

"Ele me deu o último empurrão para começar este trabalho, ao afirmar que nós – portanto, as vítimas – temos uma espécie de memória mítica desse passado, o qual se opõe à historiografia alemã, mais racional."

Para rebater esta afirmativa depreciativa de Broszat, Friedländer lançou na década de 1990 O Terceiro Reich e os judeus.

Falta de solidariedade

O estudo em dois volumes recebeu elogios, pela forma como justapõe a perspectiva da comunidade judaica àquela dos criminosos alemães, dos coniventes e colaboradores, além de colocá-la no contexto internacional da época.

Tal opção resulta numa narrativa certamente dramática e empática, sem, contudo, torná-la apologética. Friedländer tampouco recua diante das verdades desagradáveis sobre as comunidades judaicas da época: faltou solidariedade com os companheiros de fé perseguidos.

Tome-se o exemplo da França. "Há uma linha divisória, que se estende até à tentativa dos judeus franceses de circunscrever a política de perseguição aos judeus estrangeiros. Há cartas do líder judeu Hellbronner a Pétain, o cabeça do governo Vichy: é preciso diferenciar, nós somos franceses, eles não", lembra o historiador.

Anti-semitismo obsessivo

Em um ponto, porém, Saul Friedländer é inflexível. Ele não aceita que pesquisadores de orientação social-histórica, como Götz Aly, tratem a perseguição anti-semita como mera variável, dependente de outras metas políticas. Na teoria de Aly, a meta principal é a suposta intenção dos nazistas de acalmar o próprio povo, através de boas ações sociopolíticas, às custas dos bens dos judeus.

"Aqui se coloca uma questão bem elementar: se a finalidade era roubar os judeus, por que assassiná-los?", argumenta Friedländer. Sua tese: o alvo final de Hitler não era dominar o mundo, mas sim a intenção, tornada obsessão, de exterminar os judeus. Este anti-semitismo obsessivo o perseguiu até as suas últimas anotações, no porão da Chancelaria do Reich, em 1945.

Ao lado da produção científica, Saul Friedländer é também conhecido por suas memórias: Wenn die Erinnerung kommt (Quando a lembrança vem). Na Alemanha, é editado pela C.H. Beck.

Leia mais