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Mundo

Na fronteira, um retrato da tensão entre Turquia e Armênia

Turcos e armênios reafirmam desejo de paz e amizade, mas defendem versões opostas do ocorrido há cem anos. Controvérsia sobre termo genocídio afeta economia e vida de moradores dos dois lados da fronteira.

Os moradores de Yerazgavors, no oeste da Armênia, têm vista para os minaretes das mesquitas na Turquia, do outro lado da represa de Akhuryan (Arpaçay em turco), a cerca de dois quilômetros de distância. A extensão artificial de água foi criada por um projeto turco-soviético de barragens na década de 1970.

Hoje as relações são bem mais tensas do que na Guerra Fria, com a fronteira totalmente fechada e patrulhada por soldados russos e turcos. A Federação Russa mantém guarnições na Armênia e vigia os limites nacionais, segundo um acordo que assegura presença militar constante até 2045.

"Aquela fronteira precisava ser aberta. Entre vizinhos não deve haver barreiras", comenta Artashes Mkhitaryan, prefeito do município, conversando na empoeirada praça central de Yerazgavors.

O único negócio existente é uma agência de compra de passagens aéreas, provavelmente para possibilitar aos habitantes encontrar trabalho no exterior. "A fronteira não está aberta no momento, porque não temos relações diplomáticas com a Turquia", explica Mkhitaryan.

Uma das muitas razões para tal é a controvérsia sobre o genocídio de 1915, em que, segundo estimativas, os turcos otomanos assassinaram até 1,5 milhão de armênios da Anatólia. Os massacres são reconhecidos como genocídio por mais de 20 países.

A Armênia lembra o centenário dos massacres nesta sexta-feira (24/04), enquanto Ancara segue negando que as execuções em massa tenham sido orquestradas pelo Estado. Além disso, líderes políticos reclamam que a matança de muçulmanos por nacionalistas armênios é minimizada nas discussões sobre os eventos de 1915.

Bildergalerie Armenien hundertster Jahrestag Völkermord

Rússia se comprometeu por acordo a guardar fronteira até 2045

Ruim para os negócios

Oficialmente, a Turquia fechou a fronteira com o país vizinho em resposta à guerra e à ocupação, pela Armênia, de território no Azerbaijão, aliado próximo da Turquia e seu fornecedor de gás natural e energia.

Apesar dos esforços de mediadores internacionais em 2009, que resultaram num acordo básico entre Yerevan e Ancara, a fronteira militarizada segue trancada desde 1993. E as tensões se acumulam às vésperas do aniversário do genocídio.

Embora a cidade turca Akyaka se situe a apenas dez quilômetros de Yerazgavors, atualmente o trajeto até ela exige um desvio de 220 quilômetros, pela Geórgia. Da mesma forma que na vizinha armênia do outro lado do lago artificial, aqui toda promessa de investimento se esvaiu, do momento em que as fronteiras foram cerradas.

"Muitos homens de negócios vieram para este território, compraram muita terra; eles planejavam construir restaurantes, hotéis e lojas para o comércio transfronteiriço", conta Celil Ersoglu, guia turístico da capital provinciana Kars. "Depois que fecharam a fronteira, todo o mundo foi embora e nada aconteceu. E agora a geração mais jovem está fugindo."

Isolamento

O prefeito de Akyaka, Muhammet Toptas, conta à DW que até 1993 uma linha ferroviária internacional, construída pela Rússia imperial no século 19, transportava bens e pessoas.

"Naquele tempo, quando a fronteira estava aberta, havia uma conexão por trem entre os dois países e troca de mercadorias. Mas agora há menos trabalho, maior desemprego. E isso afeta ambos os países", explica.

Bildergalerie Türkisch-Armenische Grenze

Prefeito turco Toptas lamenta evasão de população jovem

Enquanto floresce o comércio entre a Geórgia e a Turquia, ao longo da fronteira turco-armênia localidades como Akyaka e Yerazgavors encontram dificuldade para manter sua população jovem.

Um dos que ainda vai ficando é o azerbaijanês Miray Karabag, de 21 anos, que trabalha na padaria local. Sua família se estabeleceu na Turquia para escapar dos conflitos violentos entre seu país e a Armênia.

Ele recorda tempos passados, em que "as pessoas viviam perto uma das outras, não havia discriminação entre as nacionalidades, como agora". "Os turcos e os demais viviam uns nos países dos outros", lembra.

Diferentes versões

Na região fronteiriça, os habitantes turcos e armênios reafirmam seu desejo de paz e amizade, mesmo defendendo versões totalmente opostas do ocorrido um século atrás, durante as sangrentas horas finais do Império Otomano.

"A respeito do que aconteceu em 1915, de acordo com o que nós sabemos, foram, de verdade mesmo, só massacres cometidos por armênios contra muçulmanos", assegura o dono de restaurante de Akyaka Cengiz Erben, de 40 anos, crescido numa cidadezinha de fronteira.

Essa é a versão ensinada nas escolas turcas. Placas ao longo da autoestrada relembram cidades evacuadas pelos nacionalistas armênios, os quais, com apoio russo, se insurgiram contra o domínio otomano na região.

Embora não se discuta esse fato, o pomo da discórdia continua sendo a omissão da reação otomana, que foi uma limpeza étnica visando os armênios de todo o império. Esse ponto é excluído do discurso oficial, e em consequência as autoridades turcas se recusam a admitir qualquer culpa.

"Em primeiro lugar, esse genocídio, ou sei lá o quê, nós não cometemos", reforça Toptas. "Segundo, nós não temos hoje nenhum problema com os nossos vizinhos, desde que a fronteira foi fechada. Tudo vai estar bem, assim que entrarmos num acordo, e vamos viver em paz e harmonia", completa o prefeito turco.

O armênio Artashes Mkhitaryan, prefeito do outro lado da fronteira, diz ter esperanças que a controvertida questão do massacre de 1915 sirva para finalmente trazer luz às tensas relações entre os dois países e proporcionar mudanças.

"Com este centésimo aniversário do genocídio armênio, vamos torcer para que o mundo inteiro preste atenção em nossa relação com a Turquia. Vamos ver como as coisas vão se desenrolar."

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