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Ciência e Saúde

Na conferência do clima, Recife quer dar exemplo de como cortar emissões de CO2

Único município brasileiro na reunião da ONU em Varsóvia, Recife é uma das cidades mais vulneráveis ao impacto das mudanças climáticas no mundo. Capital pernambucana investe em sistema de transporte público e fluvial.

Recife precisa convencer seus moradores a deixar o carro em casa e usar o transporte público. Só com essa troca de comportamento é que a cidade vai conseguir diminuir suas emissões de dióxido de carbono, já que o transporte é a principal fonte de poluição do local, segundo afirma o prefeito Geraldo Julio.

Mais do que uma meta municipal, o corte de emissões faz parte de um compromisso que Recife assumiu com a comunidade internacional: ela é uma das oito cidades selecionadas no mundo para integrar o projeto Urban-LEDs, financiado pela Comissão Europeia, órgão executivo da UE. O objetivo é promover a transição de cidades de países emergentes para um modelo de desenvolvimento urbano com baixas emissões de gases poluentes, para amenizar o impacto das mudanças climáticas nesses locais.

A iniciativa levou Geraldo Julio à Conferência do Clima, em Varsóvia: "Recife poderá servir como exemplo para outras cidades", disse em entrevista à DW Brasil. Desde 2012, a capital de Pernambuco é membro do Iclei, ou Governos Locais pela Sustentabilidade.

A associação internacional de governos locais que assumiram um compromisso com o desenvolvimento sustentável escolheu Recife e Fortaleza como cidades-modelo no Brasil para implantar o projeto Urban-LEDs, que tem apoio da ONU- Habitat (Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos).

O trabalho em Recife acabou de começar – a capital está fazendo um inventário de emissões de CO2, que deve ser finalizado em março de 2014. O próximo passo será criar um plano para cortar a poluição oriunda do transporte. Segundo o prefeito Geraldo Julio, a frota da cidade ultrapassa 600 mil veículos, o meio de transporte preferido dos 1,5 milhão de habitantes da capital pernambucana. Leia abaixo a íntegra da entrevista.

DW Brasil: Por que Recife decidiu se voltar ao tema da sustentabilidade e redução das emissões?

Geraldo Julio: Recife é uma das vinte cidades mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas no mundo, segundo dados do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas). É uma cidade litorânea e, com o aumento do nível do mar, a cidade teria uma grande parte do seu território antigida. Foi daí que surgiu a preocupação.

Além disso, a gente tem uma necessidade muito grande de criar no Recife ações inovadoras e diferenciais globais. A cidade vive praticamente da prestação de serviço, nós temos um polo tecnológico importante e estamos cercados de indústrias multinacionais que se instalaram em Pernambuco nos últimos cinco, dez anos. Precisamos estar muito desenvolvidos em termos de prestação de serviços, tecnologia e inovação.

O tema da sustentabilidade é muito ligado à inovação. Nós temos todo o interesse de criar diferenciais globais nesse aspecto. Fazendo isso, a gente torna Recife conhecida – e com um tema importante. Isso para nós é crucial.

O inventário só vai ficar pronto em março. Mas a cidade já começou a agir para cortas as emissões de CO2?

Estamos fazendo as ações tradicionais para reduzir as emissões. No transporte público, vamos priorizar a mobilidade urbana – o pedestre, sobretudo – e depois o transporte coletivo. A gente está construindo corredores de BRT (Bus Rapid Transit) na cidade, junto com o governo do estado, para que Recife tenha um transporte público de mais qualidade e para que as pessoas abandonem o transporte individual e adotem o coletivo. Isso vai reduzir as emissões.

A partir do próximo ano, vai começar a funcionar na cidade vai ganhar um corredor de transporte a partir da navegabilidade do rio Capibaribe. É um transporte bastante eficiente do ponto de vista da redução do consumo de energia, já que os barcos terão capacidade de carregar bastante gente.

A ideia é oferecer um transporte mais confortável, com mais qualidade, que a pessoa não precise enfrentar o trânsito, para que as pessoas saiam do carro.

Estamos fazendo um trabalho no lixão da cidade, que recebeu os resíduos de Recife durante décadas. Ele está desativado, mas continua emitindo resíduos, que estamos tratando.

Os ônibus que irão circular no BRT serã movidos a qual combustível?

Serão movidos a diesel. Mas esse é só o primeiro passo. Em seguida, a gente quer implantar ônibus movidos a eletricidade. No Brasil, isso é uma grande vantagem, já que temos fontes limpas na geração de eletricidade. No primeiro momento, os ônibus serão a diesel, infelizmente.

Quais são os setores que mais poluem a cidade de Recife?

A principal fonte é o transporte. Recife é uma cidade territorialmente pequena e a indústria está concentrada na região metropolitana, fora de Recife. A cidade só representa um terço dessa região metropolitana. A gente sofre uma pressão muito grande dessa região e, por isso, a questão do transporte é muito sofrida e a principal fonte de emissão.

A gente não tem indústria dentro de Recife com essa capacidade de geração de emissões. O transporte individual é o maior problema. No Brasil, houve um investimento e incentivo muito forte para o transporte individual, e todas as metrópoles brasileiras estão carregadas de automóveis e só agora que se iniciam os investimentos para o transporte público.

Qual a receptividade da população? As pessoas também querem esse desenvolvimento sustentável?

É um tema ainda muito distante das pessoas. Precisamos trabalhar muito ainda, convencer o recifense. Estamos fazendo campanhas de educação ambiental e trabalhando principalmente o tema dos resíduos sólidos. Esse é o ponto de partida. O próximo passo é fazer uma campanha para diminuir as emissões.

Hoje, a principal dificuldade é a educação ambiental. Isso está muito longe de virar um tema que seja visto pelas pessoas como um dos causadores da má qualidade de vida nos centros urbanos. Todo centro urbano hoje em dia está com uma vida muito carregada, apertada, insustentável.

Acho, inclusive, que a sustentabilidade virou uma pauta global quando alcançou os centros urbanos. Porque, antes, quando se falava em sustentabilidade, pensava-se no desmatamento, que é lá longe da gente, uma seca lá longe, desertificação longe dos centros urbanos. As pessoas não discutiam isso com tanta força.

No Recife, precisamos fazer a população entender qual o papel dela para que a cidade se torne mais sustentável. Precisamos mudar o nosso comportamento.

Além do transporte, quais outras áreas precisam de melhorias para que Recife fique mais sustentável?

Temos um problema e uma oportunidade na área dos resíduos sólidos. A gente tem como formar uma cadeia muito eficiente, com inclusão social e aumento da reciclagem e reutilização de materiais. Recife poderia influenciar toda a região metropolitana na qual está inserida a criar uma cadeia eficiente. Hoje a gente só recicla 2% dos resíduos da cidade. É muito pouco.

Além disso, o Recife pode sair sair na frente de muitas outras cidades na questão da iluminação pública. A tecnologia dos LEDs é disponível no mundo, mas ainda não existem cidades que tenham avançado para um percentual muito alto de iluminação pública com essas lâmpadas. Nós temos a oportunidade de fazer isso. Quem sabe a gente saia na frente.

O senhor está satisfeito com as negociações dessa Conferência do Clima aí em Varsóvia?

Eu esperava que nessa COP a gente pudesse avançar para um reconhecimento mais forte da importância dos governos locais nesse enfrentamento das mudanças climáticas.

Acho que é o governo local que vive com a população as consequências, os impactos das mudanças climáticas. E é o governo local que tem capacidade de realizar políticas públicas na questão urbana, ou seja, a gente tem condições de pactuar metas ambiciosas com governos locais, monitorar a execução dessas metas e entregar resultados mais rapidamente. Com isso, a gente pode gerar bons exemplos que sirvam de modelo para outras cidades no mundo inteiro.

Os municípios não vão ter dinheiro e tecnologia suficientes para fazer isso sozinhos. Os organismos internacionais e governos nacionais precisam apoiar os municípios para que eles possam realizar essa políticas – seja com recursos financeiros, com pesquisa ou com tecnologia. E isso não significa substituir a responsabilidade dos governos nacionais pelos locais, mas complementar.

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