Não se pode separar vida e obra de Modigliani, afirma curadora | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 17.06.2009
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Cultura

Não se pode separar vida e obra de Modigliani, afirma curadora

Talentoso, bonito, vida dissipada, morte prematura: o pintor italiano preenche todos os requisitos para um mito do século 20. Entrevista com Susanne Kleine, organizadora de grande retrospectiva em Bonn.

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Amedeo Modigliani

Deutsche Welle: Susanne Kleine, sua mostra Modigliani na Bundeskunsthalle de Bonn é a primeira na Alemanha após quase 20 anos. Por que toda essa demora? Amedeo Modigliani (1884-1920) foi negligenciado na Alemanha?

Amedeo Modigliani Ausstellungsplakat Bonn 2009

Cartaz da retrospectiva na Bundeskunsthalle

Susanne Kleine: Bem, o tema Modigliani pode ser delicado, porém negligenciado ele certamente não foi. Escreveu-se muito sobre o pintor. Acho que é mais a questão de alguém ousar abordar o tema. É sabido que ele teve suas obras copiadas, ainda em vida. Quer dizer, ainda resta um certo ceticismo: trata-se de um Modigliani verdadeiro, ou não? Desde cedo houve quem se propusesse a compilar um catálogo de obras, o qual, no entanto, não é completo. Atualmente há dois partidos que disputam qual dos dois é autor de um catálogo válido. Não há garantia, portanto.

Isso significa que cada um dos quadros expostos pode ser uma falsificação?

Não, de forma alguma. Claro que pesquisamos a fundo de onde vêm as nossas obras. Mais há dois, três quadros na mostra para os quais não está cem por cento provado se tratarem de originais, embora constem dos catálogos.

Na restrospectiva, a senhora classifica o pintor como "mito". O que o coloca nessa categoria?

Acho que o mito se baseia em diversos detalhes. Ele morreu bem jovem e teve uma vida muito dissipada, era doente, entregou-se ao álcool e às drogas. E aí a morte de sua companheira, Jeanne Hébuterne, atirando-se de uma janela, grávida de nove meses, um dia após a morte do artista. Todas essas histórias se prestam à criação de um mito e o posicionam junto a outros astros da arte, como James Dean, cuja morte foi igualmente prematura.

E era, ainda por cima, bonitão. Quer dizer, Modigliani preenche o clichê do artista como nenhum outro.

Sim, melhor do que isso, impossível!

É por esse motivo que sua vida foi filmada três vezes?

Com certeza. Os filmes são maravilhosos, mas totalmente errados, é claro, e preenchem todos os clichês imagináveis. Há outros grandes artistas nessa época. Mas eles levaram uma vida relativamente normal, sendo, por isso, desinteressantes.

Amedeo Modigliani Mädchen in schwarzer Schürze

Jovem de avental negro (1918)

O que destaca esta mostra Modigliani de outras anteriores?

Werner Schmalenbach o viu, há quase 20 anos, sobretudo como personalidade da história da arte, ele enfocou apenas o artista – o que é compreensível. Agora combinamos isso com sua vida, porque, em minha opinião, não há como separar vida e obra, especialmente no caso de Modigliani. Também incluímos muitas citações, pois acho importante a forma como seus colegas e amigos o viam na época. E isso oferece ao visitante as informações de fundo para se aproximar da pessoa de Modigliani.

Então, o que caracteriza a personalidade dele?

Não sou psicóloga, mas é certo que Modigliani assumiu uma posição singular, num tempo pleno de rupturas sociais, a Primeira Guerra Mundial. Nessa época também ocorreu muito do ponto de vista da história da arte; basta pensar no fauvismo e no cubismo. Numerosas correntes se desenvolveram, amadureceram. Nesse ambiente turbulento, Modigliani é alguém que percorre com bastante tranquilidade e clareza o próprio caminho. Ele se concentra de forma absoluta na redução do formal.

Beleza resplandecente contra a feiúra da guerra, simplicidade contra o caos externo e interno?

Minha explicação é que ele tenta encontrar um equilíbrio através de sua pintura, dedica-se exclusivamente a essa forma clara e tangível. Daí pode-se deduzir que ele tenta, dessa maneira, estabelecer um pólo oposto à vida turbulenta e contraditória.

É possível definir o estilo de Modigliani em poucas palavras?

Bem no início, ele pintava ainda de forma muito clássica, orientando-se por modelos como, por exemplo, Cézanne. Então dedicou-se às cariátides dos templos gregos. Através do envolvimento com a linguagem formal dessas estátuas de sustentação e de figuras de outros meios culturais, começou, a partir de 1915, a transpô-las para sua própria linguagem formal. Mais para o fim da vida, encontramos em sua obra os pescoços alongados, os rostos compridos, os olhos esquematizados, o nariz, a boca. Tudo é reduzido a uma forma expressiva bem clara, "simples".

Amedeo Modigliani

Cariátide vermelha (1913)

Sabe-se como ele chegou à ideia de pintar as pessoas assim?

Ele era um bom estudante, ocupou-se muito com as épocas anteriores, entusiasmou-se com a pintura do Renascimento, o alongamento do Gótico. Nas representações de Nossa Senhora ou em Botticelli observa-se também esse fenômeno, esse pescoço espichado, sinal de engrandecimento e exacerbação, essa tendência ao divino. E estes foram elementos que o fascinaram. Ele não os adotou simplesmente, mas sim transformou-os.

No que toca o aspecto prático: lê-se com frequência que Modigliani não foi particularmente apreciado, que só conseguia vender poucas pinturas. De que ele vivia?

Falar em "não-apreciado" é um engano total. Ele era extremamente admirado por seus companheiros e por numerosos artistas da época, era bem integrado na cena artística. Havia marchands e galeristas que vendiam os seus quadros. Aqui, a imagem de Modigliani é um pouco distorcida. Ele não era miserável. No início certamente recebeu uma certa fortuna da casa paterna, com a qual pôde partir para Paris, embora o dinheiro tenha sido logo gasto. Mas sempre teve o apoio de marchands e amigos, que lhe davam dinheiro ou material. E trocou – confirmando plenamente o clichê – desenhos por comida. Não vivia com conforto, mas conseguia viver e trabalhar.

A exposição de obras de Modigliani pode ser visitada até 30 de agosto no museu Bundeskunsthalle, em Bonn.

Autor: Günther Birkenstock
Revisão: Alexandre Schossler

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