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Mundo

"Não se combatem ideias com armas"

O escritor argelino Boualem Sansal é um crítico do mundo islâmico. Ele reconhece que valores europeus estão em crise, que a democracia deve se redefinir. Mas acredita que a guerra não é a resposta certa ao extremismo.

Boualem Sansal (foto), nascido em 1949, é um dos mais famosos escritores da Argélia. Há anos ele adverte em seus romances e ensaios sobre os perigos do islamismo radical. Em 2011, ganhou o Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão. No final de outubro, seu novo romance, 2084, foi premiado com o Grand Prix du Roman de l'Académie Française.

Ele falou à DW sobre o que atrai jovens para o jihadismo e sobre as responsabilidades do Ocidente na radicalização dos jovens muçulmanos.

DW: Há um longo tempo o senhor observa o islamismo – não apenas no mundo muçulmano, mas também na Europa. A dimensão dos atentados em Paris o surpreendeu?

Boualem Sansal: Não, de jeito nenhum. Eu fiquei surpreso que tenha demorado tanto. O islamismo internacional declarou guerra contra a Europa. Sobretudo a França está na mira, desde a intervenção na Síria. Agora a guerra começou e vai continuar.

Em agosto, o senhor publicou o seu novo romance, 2084, que retrata o cenário de pesadelo de um regime religioso, totalitário e cruel, com características fundamentalistas islâmicas. Acredito que a maioria dos ocidentais não consegue imaginar que um cenário desses pudesse acontecer aqui. Agora, talvez muitos mudem de opinião. O senhor realmente acha que um regime islâmico assim seja possível na Europa?

Buchcover Boualem Sansal 2084 La fin du monde

Novo livro de Sansal, "2084"

Vontade para isso é o que não falta, seguramente. E o fundamento também já está estabelecido: redes ativas e dormentes, e toda uma infraestrutura de mesquitas, bancos, comércio e até instituições de ensino. Eles estão desenvolvendo uma estratégia, e eu acredito que agora irá cada vez mais rápido e ficará cada vez mais forte. Mas também depende de como os europeus vão reagir. No momento, eles reagem bastante mal.

Então a guerra não é uma boa resposta?

Não, de forma nenhuma. Não se combatem ideias com canhões. Muito pelo contrário, assim elas são fortalecidas. É preciso combater ideias com ideias, com uma filosofia de vida, com uma nova ideia de democracia, com novas reflexões sobre o secularismo e regulamentando bem o processo de integração da comunidade islâmica à sociedade europeia.

O Ocidente contribuiu, com sua negligência, para que essa grande violência se desenvolvesse?

Sim, eu acho que a sociedade ocidental minimizou o problema da integração das comunidades muçulmanas na Europa. Ela pensou que seria um processo simples, que aconteceria de maneira quase automática. Afinal, as pessoas no Ocidente vivem em uma democracia e desfrutam de certo conforto, os muçulmanos querem participar disso.

Mas as sociedades muçulmanas têm necessidades específicas, que não receberam a menor atenção, necessidades associadas ao mundo muçulmano em seus países de origem. Tudo isso tem sido negligenciado. E, sinceramente, o Ocidente tem se comportado mal ao apoiar ditaduras nos países do Hemisfério Sul e, até mesmo, os partidos muçulmanos. E hoje ele tem que arcar com as consequências dessa política ruim.

O senhor observou de perto o islamismo radical que vem se desenvolvendo em determinados subúrbios na França. O que faz um jovem se tornar um jihadista?

Eles vivem em uma sociedade isolada. Essa é uma das principais causas. Esses jovens têm dificuldades, sentem-se desconfortáveis, estão desempregados e não tiveram uma boa educação. Eles vivem num ambiente cheio de contradições. Por um lado, vivem na Europa, mas, por outro, estão ligados a seus países de origem, através dos pais. Nós temos que lutar contra esse isolamento. Não sei exatamente como, mas temos, que fazer algo, de qualquer jeito.

Alguns dizem que os valores europeus se encontram em crise, o que possivelmente inflamaria a violência islâmica. O que pensa a respeito?

Sim, eu estou convencido disso. Em minha opinião, o Ocidente chegou a um estado de exaustão com a sua filosofia do Iluminismo, que o definiu nos últimos séculos. Por um lado, o Ocidente não respeitou seus próprios valores, sua própria filosofia. Por outro, a globalização simplesmente apaga as especificidades de cada país e substitui os valores universais da vida pelas leis do mercado – através do consumo, da diversão, da satisfação dessas necessidades puramente materiais.

A propósito do Iluminismo: o senhor acredita que a ideia de liberdade perdeu força?

Sim, definitivamente. Não há mais liberdade. Nós estamos presos em Estados rigorosamente organizados, que colocaram os princípios da precaução no centro de suas políticas. A globalização nos impõe as leis do mercado. Publicidade e marketing nos condicionam. Não há mais liberdade. Uma lei onipresente e onipotente restringe a liberdade dos cidadãos. A única liberdade que temos é de seguir as determinações de um ou de outro. Os muçulmanos dizem isso: em vez de obedecermos ao mercado e à lei, preferimos seguir os comandos de religião, porque ela nos promete o paraíso – tem algo de poético nisso. E depois há também a aventura da jihad.

Especialmente depois dos atentados de Paris, muitos falam de liberdade e do estilo de vida ocidental. Podemos restabelecê-los?

Sim, claro. No mundo muçulmano, há uma palavra que todos repetem diariamente e que lhes dá muita força: Ennahda– renascimento. Eles desejam que o grande império árabe ressuscite, que a sociedade árabe-muçulmana, o islamismo e os grandes valores combativos acordem.

Eu acho que o Ocidente deveria iniciar um processo, que poderia ser chamado de Renascimento, como o que aconteceu na Europa nos séculos 15 e 16. Renascimento: reconstruir, reviver, renovar os valores do Iluminismo, a arte e a cultura. Para isso acontecer, seria preciso limitar as leis de mercado e a globalização a um certo nível. Esse é o problema. Talvez pudessem criar uma Europa federal, que respeitasse as idiossincrasias de cada país e não padronizasse tudo.

Esse trabalho precisa ser feito, mas, aparentemente, ninguém o assume. Alguns intelectuais e universidades se ocupam isso, mas não os políticos. No mundo muçulmano, esse trabalho já está em andamento. Os muçulmanos talvez o façam mal, os jihadistas o fazem de forma deplorável. Mas o Ocidente dorme, repousando sobre os louros de sua glória passada. Ele precisar cuidar do futuro – já.

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