Não há substituto para o diálogo, diz ex-presidente português Jorge Sampaio | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 27.05.2010
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Mundo

Não há substituto para o diálogo, diz ex-presidente português Jorge Sampaio

Líder da Aliança das Civilizações diz que diálogo é indispensável para a paz e vê como "significativo" acordo alcançado entre Brasil, Turquia e Irã: "A sociedade internacional busca atualizar seus mecanismos de solução".

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Sampaio: 'Objetivo é construir pontes entre as culturas'

O surgimento de novos países no cenário internacional não é um problema, mas uma oportunidade, afirmou o ex-presidente de Portugal e alto representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, Jorge Sampaio, em entrevista à Deutsche Welle.

"Há novos protagonistas, e eles trazem o seu aporte. Vamos ver como faremos todos um mundo melhor, sem excluir ninguém", afirmou.

"Hoje a diversidade mundial é muito mais séria, os problemas requerem um tratamento multilateral, é natural que haja novos atores. Não há, ainda, um sistema de relação internacional que tenha em conta essa diversidade", declarou Sampaio, que presidiu Portugal de 1996 a 2006 e foi nomeado alto representante da ONU em 2007.

É nesta função que o ex-presidente português chegou nesta segunda-feira (24/05) ao Rio de Janeiro, onde participará do 3º Fórum Mundial da Aliança das Civilizações.

Com o tema "Unindo as culturas, construindo a paz", o evento tem nesta quinta-feira uma espécie de fórum preliminar. A abertura oficial será na sexta-feira, com a presença do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e dos chefes de estado da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.

O presidente do governo espanhol, José Luis Zapatero, cancelou nesta quinta-feira sua presença devido à crise econômica no seu país.

Tayyip Erdogan

Erdogan estará no Rio

A Aliança das Civilizações, criada pela ONU em 2005, é uma resposta a uma das principais questões da sociedade moderna: a diversidade cultural.

Na entrevista, Sampaio fala também sobre a importância de fatores como educação, comunicação e políticas governamentais para fazer com que culturas diferentes não se estranhem e sim se conheçam, respeitem e possam desfrutar da riqueza de um mundo multicultural.

DW-WORLD : O Fórum da Aliança das Civilizações é um evento bastante jovem: esta é apenas a terceira edição. Por que a ONU decidiu criá-lo, e quais são as principais metas?

Jorge Sampaio : O fórum é apenas uma decorrência da existência da Aliança das Civilizações, que foi criada em 2005 pelo então secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, com apoio da Espanha e da Turquia, como resposta às dificuldades crescentes de relacionamento entre culturas e religiões. Depois dos eventos que tiveram lugar em Nova York, Madri e depois em vários outros lugares, sentiu-se a necessidade de responder com uma iniciativa que pudesse agrupar países, ONGs e a sociedade civil. Todos se unem numa resposta diversificada para avançar no relacionamento entre as culturas e estimular a boa governança da diversidade cultural, que se mostrou uma questão fundamental do nosso tempo.

Por isso, a aliança tem vindo a crescer. Hoje são 100 países e 20 organizações internacionais, com o objetivo de desenvolver atividades e parcerias nos âmbitos da educação, das mídias, da juventude e das migrações. Essas são as quatro principais áreas de influência nas relações com o outro e na apreciação da diversidade. O fórum tem realização anual, e depois de Madri o segundo foi em Istambul, e agora no Brasil, com o que se quis reforçar o âmbito global da aliança e não localizá-la sempre em torno das questões do Mediterrâneo ou do Oriente Médio.

Esse foi um dos motivos para que essa terceira edição do evento fosse realizada no Brasil?

Foi uma oferta do governo brasileiro, significativa, aprovada por consenso. Foi considerada uma forma de, por um lado, recolher mais experiências e travar contato com a maneira como os povos e os governos lidam com a diversidade. Além disso, o fato de ser na América Latina também é significativo, e reforçou o âmbito geral da Aliança.

A crise na Europa estourou na Grécia e agora reverbera em outros países europeus. Isso também está na pauta? E torna mais difícil alcançar as metas da Aliança?

Isso não está na pauta porque a aliança tem como objetivo fundamental construir pontes e entendimentos entre culturas diversas. É uma iniciativa política dedicada às grandes questões do diálogo das civilizações, da governança da sociedade e da diversidade cultural como elemento indispensável na agenda política para uma sociedade sustentável. Isto é, não é só a economia, não é só o social, não é só o ambiente – é também a diversidade cultural.

A Aliança pretende colocar na agenda política a diversidade cultural. Não é nosso objetivo discutir a crise europeia, mas é evidente que as dificuldades econômicas, e a crise que se tem vivido no mundo – não apenas na Europa, mas no mundo todo, desde 2008 – obviamente tornam todas as questões mais difíceis.

No Flash Erdogan Lula da Silva und Ahmadinedschad in Teheran

Líderes de Brasil, Irã e Turquia em Teerã

No mês passado aconteceu a conferência da Academia da Latinidade em Córdoba, a reunião preparatória para o fórum. Lá, participantes falaram que é preciso entender que a razão ocidental não é mais um paradigma da civilização. O Ocidente está preparado para aceitar outros paradigmas?

Em toda parte se procuram novos paradigmas. Não há soluções feitas para a complexidade do mundo moderno. Tudo isso que veio na sequência da globalização, as questões climáticas graves, a pobreza, a diversidade cultural, as questões de política monetária por resolver: tudo isso significa pesquisas. Não acho que ninguém tenha uma receita.

Não há dúvida nenhuma, por outro lado, de que há países aparecendo na cena internacional com nova força. Eu vejo isso não como um problema, mas como uma oportunidade. Alguns parâmetros básicos, como a democracia e os direitos humanos, continuam a ser, a meu ver, questões essenciais. Mas há novos protagonistas, e eles trazem o seu aporte. Vamos ver como faremos todos um mundo melhor, sem excluir ninguém.

O fórum do ano passado foi na Turquia, este está sendo no Brasil. Foram justamente os dois países que procuraram fazer um acordo nuclear com o Irã neste mês, num passo que simbolizava, para esses dois países, uma vontade de ter também uma representatividade política internacional. Porém, esse acordo foi recebido com ceticismo pelos Estados Unidos. O senhor vislumbra um mundo multipolar?

Eu prefiro não me pronunciar sobre o conteúdo do acordo, porque não conheço os elementos concretos. Mas é algo que a meu ver foi significativo. A sociedade internacional busca fazer uma atualização de seus mecanismos de solução, que não podem ser apenas aqueles criados no pós-Guerra.

Hoje a diversidade mundial é muito mais séria, os problemas requerem um tratamento multilateral, é natural que haja novos atores. Não há, ainda, um sistema de relação internacional que tenha em conta essa diversidade. Acho que isso são novas exigências.

Viu-se agora na crise financeira que o que acontece num sítio propaga-se para outro. Há uma dificuldade da sociedade internacional na sua diversidade, com os novos atores e os antigos, de ter respostas coerentes e entender como se organiza este poder internacional – seja ele multipolar ou outra coisa qualquer. Sem dúvida que há os vários focos intervenientes na cena internacional que têm que ser valorizados.

O senhor poderia dar alguns exemplos concretos de como se pode unir as culturas e promover um diálogo maior com o outro?

A questão da educação é central. Quanto maior for o conhecimento da diversidade, mais é possível explicar que nós pertencemos ao mesmo mundo, nós temos que viver neste mundo, e que a diversidade não é algo negativo, e sim uma oportunidade, um enriquecimento possível. As mídias, por exemplo, podem ser mobilizadas para a apreciação dessas diferenças, e ensinar como elas produzem algo de muito positivo. Pode ser um trabalho de décadas para mudar mentalidades, e habituar as pessoas a pensar diferente. Mas a verdade é que, quando se conhecem, as pessoas dão-se melhor.

E a comunicação também é um elemento forte hoje, com potencial para aproximar populações...

É decisivo. A educação e a comunicação são elementos decisivos. Se eu conheço apenas os lados difíceis e negativos de uma cultura, nunca conseguirei compreender que há um lado positivo. Ao mesmo tempo, tenho que me preparar para uma cultura de direitos humanos, uma cultura democrática, uma cultura plural. São passos muito importantes, e que uma democracia como a brasileira entende melhor do que outros, não é?

O fórum marca o lançamento do Dialogue Café, o café dos diálogos, um projeto abraçado pela Aliança das Civilizações. O senhor poderia contar como vai funcionar?

O projeto é uma parceria público-privada que vai aproveitar novas capacidades tecnológicas desenvolvidas pela Cisco para estrear, no Rio e em Lisboa, a possibilidade de ter um café onde pessoas das duas cidades podem se ver e discutir determinados temas. Espera-se que a partir desta experiência se forme uma rede de Dialogue Cafés em cidades do mundo todo, promovendo a troca de experiências. Vai ser um instrumento de compreensão e de aprofundamento do lado positivo da diversidade cultural.

O senhor acredita que o diálogo tem poder pacificador?

Eu não só acredito, como acho que não há substituto, não há alternativa. É um instrumento indispensável para a paz, e é nesta medida que devemos fazer tudo quanto seja possível para aumentar, para enraizar, para termos mais participantes e a sociedade civil ativa neste conjunto de iniciativas.

Autora: Júlia Dias Carneiro
Revisão: Alexandre Schossler

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