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Mundo

Museu da repressão soviética sob ameaça na Rússia

Memorial que documenta crimes do Gulag não se encaixa na versão da história defendida por Vladimir Putin, sobretudo após a crise na Ucrânia. Principal acusação é de "glorificação de fascistas ucranianos".

A notícia foi ignorada pela imprensa russa: somente através da internet ficou-se sabendo que na segunda-feira (02/03) a ONG Perm-36 anunciou a própria dissolução, após 20 anos de existência. Ela é a fundadora e operadora do Museu da Repressão Política na União Soviética, conhecido popularmente como Museu do Gulag.

Segundo a ONG, fracassaram as negociações com a administração municipal de Perm "pela manutenção desse memorial ímpar", e a organização teve que ser destituída de fato.

Jens Siegert, diretor da sucursal da Fundação Heinrich Böll em Moscou, não se surpreende. "Isso já vinha se anunciando há tempos. Já no ano passado, houve sérias investidas do governo municipal contra o museu."

Em reação, o diretor do Conselho Presidencial para a Sociedade Civil e Direitos Humanos, Mikhail Fedotov, engajou-se pela instituição, e foi criada uma comissão para o assunto. Porém, relata Siegert, nem mesmo essa intervenção de Moscou surtiu efeito.

De colônia penal stalinista a museu

Situado 1.100 quilômetros ao leste da capital russa, o Perm-36 é o único museu do gênero no país. Ele foi fundado em 1992 no terreno da antiga colônia para presos políticos de mesmo nome. Antigos detentos e ativistas dos direitos humanos conseguiram restaurar toda uma área com barracas, torres de vigilância e cercas de arame farpado. Em 1996, ele recebia seus primeiros visitantes.

Josef Stalin

Josef Stalin liderou regime de terror na URSS dos anos 1920 até a morte, em 1953

O Perm-36 tinha uma posição especial dentro do famigerado sistema Gulag de campos penais e de trabalhos forçados da URSS, que fez milhões de vítimas. Sua história começou em 1946, sob o regime de Josef Stalin. Próximo da localidade de Kuchino, a cerca de 120 quilômetros da cidade de Perm, ao pé dos Montes Urais, foi criada uma colônia penal.

No início, ela era destinada a funcionários de diversas repartições estatais caídos em desgraça com o regime soviético, mais tarde vieram também criminosos comuns.

A partir de 1972, prisioneiros políticos passaram a ser internados em Perm-36. Em sua maioria, eram dissidentes das repúblicas soviéticas bálticas da Estônia, Letônia e Lituânia, assim como da Ucrânia. Condenados como os ativistas dos direitos humanos Serguei Kovalyov e Natan Sharansky ficaram conhecidos mundialmente.

Porém o detento mais famoso foi o poeta e tradutor ucraniano Vasyl Stus. Por iniciativa do autor alemão Heinrich Böll, ele foi indicado para o Nobel de Literatura. Porém Stus morreu em 1985 em Perm-36, aos 47 anos de idade. Três anos mais tarde, o líder soviético Mikhail Gorbatchev mandou fechar a colônia e anistiou os presos.

Vítima da crise na Ucrânia

Passadas três décadas, tudo indica que os eventos atuais na Ucrânia selaram o destino do memorial russo. Com a eclosão da crise na península da Crimeia e no leste do país, a imprensa russa acusou o Museu do Gulag de glorificar os "fascistas ucranianos" – como são tachados na Rússia os ativistas pró-Kiev que combatem os separatistas pró-Moscou na Ucrânia Oriental.

Como esbravejou um político local do Partido Comunista de Perm: enquanto na região de Donbas uma "batalha sangrenta" se desenrola e "os fascistas marcham", é inaceitável apoiar uma organização que os exalta. Ex-vigias da colônia penal também reclamaram que o museu recorde "nacionalistas ucranianos" como o poeta Stus.

Mas os problemas com o Perm-36 já começaram antes da guerra da Ucrânia. "A partir de 2012, a atitude da administração municipal em relação ao museu mudou radicalmente", diz o comunicado à imprensa. Esse foi o ano que Vladimir Putin se tornou presidente da Rússia pela terceira vez.

Em 2014, o Estado instaurou uma nova administração para o museu, substituiu a diretoria, destituindo a ONG responsável. Alguns críticos falaram de uma "apropriação hostil".

Gedenkstätte der Geschichte politischer Repressionen Perm-36

Instalações do memorial vêm sendo destruídas

Colisão com Rússia de Putin

Arseni Roginski, diretor da organização moscovita de direitos humanos Memorial, encarregada de relembrar os crimes do stalinismo, detecta um conflito entre o direcionamento da instituição de documentação e o novo clima político na Rússia.

Há anos Putin, chefe do Kremlin e ex-oficial da polícia secreta soviética KGB, procura apresentar a extinta União Soviética como um Estado bem-sucedido, a que ele quer dar seguimento com a Federação Russa. O Museu da Repressão Política na URSS não se encaixa em tal interpretação da história nacional, aponta Roginski.

"Não se trata de um museu sobre o passado glorioso, mas sim sobre os aspectos da história que hoje são lembrados com vergonha. Ele conta sobre gente que se opôs ao poder soviético", afirma.

Gedenkstätte der Geschichte politischer Repressionen Perm-36

Objetos expostos pertencem á ONG Perm-36

Jens Siegert, da Fundação Böll, vê a situação de modo semelhante. Para ele, o Perm-36 é uma vítima da luta do Kremlin pela reinterpretação da história – uma história na qual não podem estar os horrores do Gulag e as repressões da União Soviética. Esses aspectos devem ser agora "expurgados", explica o especialista alemão.

O destino do Perm-36 ainda está indefinido. Até o momento, o terreno e os prédios pertenciam ao Estado, e os objetos em exposição, à ONG. Siegert teme que a instituição seja agora praticamente destruída. Em 2014 houve tentativas de levar embora algumas peças expostas. Partes do antigo campo penal, como o portão de entrada, já foram demolidas.

"Deve-se partir do princípio que isso vai continuar", comenta Jens Siegert. Os fundadores do Museu do Gulag anunciaram a intenção de prosseguir com seu trabalho, o qual, no entanto, terá antes um "caráter acadêmico".

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