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Futebol

Mostra em São Paulo revela nuances artísticas do futebol

Com videoarte, fotografia e arte sonora, exposição "O jogo só acaba quando termina" apresenta aspectos inexplorados: a geometria das redes, violência em imagens abstratas e a rotina de jogadoras no Afeganistão.

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Recorte de uma das fotos da série "Um a zero", do artista mineiro Pablo Lobato

Distante do espetáculo dos grandes estádios, 12 artistas contemporâneos da América Latina, Europa e África usam som, vídeo e fotografia para mostrar os lados escondidos e periféricos do futebol. De um campo de várzea em uma favela no Rio de Janeiro ao comportamento dos torcedores em um pequeno clube de Berlim, a exposição O jogo só acaba quando termina evidencia a arte oculta presente na modalidade esportiva.

A mostra aberta nesta quinta-feira (10/04) integra a programação do Ano Alemanha+Brasil e fica em cartaz até o dia 29 de junho no Sesc Vila Mariana, na Zona Sul de São Paulo. As obras evidenciam duas forças opostas que influenciam o tempo no futebol: o "acabar" e o "terminar".

"Do ponto de vista estético, seria ideal que o jogo nunca terminasse e que não houvesse nenhum vencedor. A mostra coloca em questão o limite do tempo e apresenta facetas quase que clandestinas do futebol", explica o curador Alfons Hug, diretor do Instituto Goethe no Rio de Janeiro.

A exposição já passou por Brasília, Rio de Janeiro, Montevidéu e Buenos Aires e, neste ano, ainda irá para Berlim, Nurembergue e Wiesbaden, na Alemanha, e outras cidades latino-americanas, como Caracas e Santiago.

A maior parte dos países da América Latina está representada. Violência Abstrata, trabalho de videoarte produzido pelo venezuelano Muu Blanco, é um dos destaques. Cenas brutais ocorridas nos gramados e nas arquibancadas são transformadas em imagens diluídas.

"Ele converte as fotos em uma pintura abstrata no vídeo. E ainda tem o canto dos torcedores. É a obra mais rica do ponto de vista iconográfico", avalia Hug.

Geometria do gol

O artista plástico Pablo Lobato, de Minas Gerais, apagou todas as luzes de um estádio em Belo Horizonte, cobriu de preto as arquibancadas e iluminou apenas a malha do gol. O resultado foi a série fotográfica Um a zero.

"Eu queria apresentar essa malha geométrica de uma perspectiva sensível e até sensual", conta. "É uma geometria flexível que não enxergamos durante um jogo de futebol, porque esse arranjo se desfaz muito rápido. A fotografia mostra exatamente o instante do efeito do gol."

A sequência de cinco fotos já foi exposta em Paris e Nova York. O título, segundo o artista, traduz o contraste entre o preto e o branco e expressa o intervalo entre o repouso geométrico (zero) e a manifestação da força (um).

"O trabalho comenta a própria linguagem da fotografia: a reação da malha ao impacto da bola e a captura da luz da imagem", explica Lobato.

Lela Ahmadzai

Sabera Azizi: "Viajo diariamente quatro horas para poder jogar. Na verdade, gostaria de ser a primeira no campo"

"As primeiras no campo"

Em 2010, a jornalista afegã Lela Ahmadzai, radicada na Alemanha, começou a procurar por mulheres autênticas em Cabul. Garotas tímidas da seleção feminina de futebol do Afeganistão foram as escolhidas para compor uma série de fotografias.

Além de fazer as imagens, a artista multimídia registrou em vídeo o cotidiano de Sabera Azizi, jovem que intercala obrigações domésticas e o respeito pela tradição afegã com a paixão pelo futebol.

O resultado é um filme de oito minutos (com versão para celulares) que mostra os desafios diários enfrentados por essas mulheres. As jogadoras treinam em um campo militar ao lado da embaixada americana – um dos espaços mais vigiados de Cabul. Elas passam por revistas diárias e têm de interromper os jogos quando os helicópteros precisam pousar.

No trabalho, Ahmadzai une vídeo e fotografia. "Com as fotos no decorrer do filme, é possível fazer uma pausa para reflexão. As pessoas têm uma experiência profunda com cada imagem", diz a diretora.

Ahmadzai continua a documentar o cotidiano do time que hoje já treina em um local mais seguro. "As mulheres são muito gratas pela reportagem por terem ficado conhecidas em outros países", conta. "Elas estão ainda mais felizes com a exibição no Brasil. Elas admiram muito os jogadores do país."

Encontro

Convidada a participar da exposição, a artista brasileira Marina Camargo saiu em busca de sua obra em Coney Island, Nova York. "Queria abordar o futebol como um encontro informal em uma paisagem que aparece e desaparece com a névoa. No acaso, encontrei a situação perfeita", conta.

A câmera observa dois amigos discutindo lances de futebol americano em uma praia coberta por neblina. Em vários momentos, a bola desaparece na névoa. O vídeo Together faz parte de uma série maior intitulada Cidade sem sombras.

Marina Camargo

Sequência de imagens de "Together", filme de Marina Camargo

O ponto em comum entre as obras selecionadas é a abordagem sensível e inusitada. A dupla de brasileiros Dias&Riedweg registra uma "pelada noturna" em um campo de várzea numa favela do Rio de Janeiro. O argentino Gabriel Orge mostra donas de casa costurando bolas em um subúrbio de Córdoba, já o austríaco Lukas Ligeti omite elementos visuais e revela um pano de fundo sonoro de estádios do Rio, Salvador, Porto Alegre e Montevidéu.

O curador Alfons Hug acredita que, de todas as modalidades esportivas, o futebol seja a única que possa ser transformada em arte. "O lugar certo do futebol é onde menos se espera, o que também vale para a arte contemporânea."

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