1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Cultura

Mostra em Dortmund celebra e questiona o poder da linguagem

Palavras são como ações: o genocídio de Ruanda em 1994, por exemplo, talvez não tivesse acontecido sem a incitação pela rádio RTLM. O poder das palavras ditas é foco da mostra "A voz do dono", no oeste da Alemanha.

Fazer uma promessa. Dizer o nome da pessoa amada. Incitar outros a cometer um crime. Pronunciar uma confissão. Palavras são como ações: nada do que dizemos fica sem consequências.

A ideia de apresentar a linguagem como ato performativo, como uma ação, foi o que orientou Inke Arns na seleção das obras da exposição His Master's Voice – Sobre voz e linguagem, no centro cultural Dortmunder U, instalado numa antiga cervejaria da cidade industrial de Dortmund, no oeste da Alemanha.

"A linguagem não descreve apenas as coisas. Nós também agimos através dela – por exemplo, nos rituais de matrimônio: 'E assim vos declaro marido e mulher'. Ou nos batizados de navios: 'Batizo este navio com o nome de Josef Stalin'", explica a curadora e diretora da associação de arte multimídia Hartware MedienKunstVerein (HMKV).

A mostra em Dortmund, na região do Vale do Rio Ruhr, reúne cerca de 30 obras de arte contemporânea, de 1972 até hoje. Em sua maioria, trata-se de performances e videoinstalações. E todas elas provam que as palavras são tudo, menos efêmeras.

Palavras mudam o mundo

"Pobre de quem subestima o poder da palavra. Cada ato de fala muda o mundo." A instalação de vídeo Interrogation ilustra de forma eloquente essa máxima. O artista Ignas Krunglevicius expõe os autos de um interrogatório policial dos Estados Unidos: Mary Kovic é acusada de matar o marido a tiros e o policial Robert John quer convencê-la a confessar.

His Master's Voice Titelbild

Grande parte das obras expostas no Dortmunder U são audiovisuais

As perguntas de John e as breves, histéricas respostas de Kovic são projetadas em duas telas de vídeo, na velocidade da fala. Assim, logo se tem a impressão de escutar os dois, embora apenas batidas techno e bipes eletrônicos marquem o ritmo das frases mostradas na tela.

"Não podemos mudar o nosso passado. Só podemos controlar o nosso destino a partir deste ponto", diz o policial, pressionando a mulher suspeita. Mas ela sabe que tudo o que disser pode ser usado contra ela. E quando ela formula os acontecimentos em palavras, eles ganham uma realidade toda própria.

Hate Radio

"A língua é uma arma. Mantenham-na afiada." Assim o autor berlinense Kurt Tucholsky é citado na mostra. A declaração adquire um efeito quase imprudente quando, em seguida, o visitante depara com o palco da performance Hate Radio, no centro da sala de exposições.

O genocídio em Ruanda, em 1994, possivelmente não teria acontecido sem as palavras da popular rádio RTLM, que intencionalmente exacerbou o ódio da etnia hutu contra os tutsi.

O diretor e autor suíço Milo Rau criou uma performance teatral na qual atores repetem os discursos de ódio difundidos na época em que cerca de 800 mil tutsi foram mortos por hutus em apenas cem dias. O cenário é uma reprodução do estúdio da RTLM, exata e nos mínimos detalhes – inclui até as garrafas vazias de Coca-Cola.

Quando a fala perde o sentido

Na lenda judaica, HaShem, um dos nomes de Deus em hebraico, é o que insufla a existência ao Golem de Praga, uma figura mítica que ganha vida por um processo mágico. HaShem é um nome que não se deve pronunciar, para que não se abuse dele, pois nomes ganham um poder especial quando são articulados.

His Master's Voice Three Virgins

"Three virgins", instalação do kosovar Jakup Ferri

Por outro lado, as palavras repetidas excessivamente podem perder o sentido e também o poder, como na performance do artista kosovar Jakup Ferri. Ele escuta a canção Two virgins, uma interpretação em que o ex-Beatle John Lennon, morto em 1980, e a esposa Yoko Ono se chamam mutuamente pelo nome, sem cessar.

Esquecidos do mundo, dissolvidos um no outro, toda a ensandecida paixão desse casal está contida nessa gravação, como se para um não houvesse nenhum pensamento senão o nome do outro. Algo irritante para qualquer um dos outros três Beatles.

Ferri se transforma num quinto Beatle, interrompendo os "Yokos" de John e os "Johns" de Yoko com o seu próprio nome, que ele emite por vezes entediado, por vezes de forma violenta, como uma criança repetindo incessantemente uma palavra até ela perder todo e qualquer sentido e se reduzir a um som engraçado. Depois de algum tempo, "John", "Yoko" e "Jakup" perdem o significado. E, com isso, uma parte de seu poder.

Quem fala, quando falamos?

"O que também é negociado na exposição é a questão: quem fala, na verdade, quando nós falamos?" – é assim que Inke Arns explica o conceito que embasa a mostra. "Somos realmente nós que falamos, ou é outra pessoa que fala através de nós? Ou é a própria linguagem falando através de nós?"

His Master's Voice Sieben bis zehn Millionen

"Sete a dez milhões": quem fala, o sujeito ou a voz da publicidade?

Pois quando uma língua se torna autônoma, isso resulta num conflito ético, prossegue a curadora. "Quem deve assumir a responsabilidade pelo poder desenvolvido por aquilo que foi dito?"

Como uma metralhadora, um rapaz dispara um monólogo sobre um problema mais ou menos banal, na videoinstalação Sieben bis zehn Millionen (Sete a dez milhões). Ao que tudo indica, o assunto é a compra de um aparelho elétrico.

Arns confessa que sempre fica "absolutamente horrorizada" diante dessa instalação. "A pessoa se pergunta: o que é que está falando através desse rapaz? Ele não passa de um recipiente através do qual as mensagens da publicidade falam."

Palavras proibidas

Se a fala é poder, então o mutismo torna impotente. Em 1985, o governo turco proibiu 205 palavras, entre as quais "lembrança", "movimento", "sonho" e "teoria". A artista Aslı Çavuşoğlu utilizou 191 dessas palavras na letra de uma canção de rap. Na exposição pode-se ver – e escutar – um dos 100 discos prensados com essa música.

His Master's Voice – Sobre voz e linguagem fica até 7 de julho de 2013 no Dortmunder U. Uma série de performances ao vivo complementa a mostra.

Leia mais