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Cultura

Morre a agente literária Ray-Güde Mertin

Responsável pela tradução de obras fundamentais da língua portuguesa para o alemão, Mertin deixa uma lacuna na divulgação dos escritores brasileiros no país de Goethe.

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Mertin era agente de João Ubaldo e Luiz Fernando Veríssimo, entre outros

Faleceu no último domingo (14/01), num hospital de Frankfurt, a tradutora e agente literária alemã Ray-Güde Mertin, uma das principais responsáveis pela tradução, crítica e divulgação de obras literárias escritas em português nos países de idioma alemão.

Ray-Güde Mertin nasceu em 1943 em Marburg, às margens do rio Lahn, no Estado de Hessen. Depois de concluir o segundo grau no colégio alemão de Barcelona, estudou Filologia Românica e Germânica na Universidade Livre de Berlim.

Após concluir os estudos, foi durante oito anos (1969 a 1977) leitora do DAAD e professora de Língua e Literatura Alemã nas universidades de São Paulo (USP) e Campinas (Unicamp). Durante a viagem ao Brasil, que durou três semanas em navio cargueiro, leu o clássico Grande Sertão Veredas , de João Guimarães Rosa.

"Na verdade, naquela ocasião eu já queria me especializar em literatura brasileira. Aproveitei o tempo para conhecer o máximo de literatura do país", disse ao site boersenblatt.de, quando recebeu em 2005 o prêmio "Mulher do Livro", concedido pela Associação do Comércio Livreiro Alemão.

A partir de 1977, passou a trabalhar como tradutora autônoma em Nova York para renomadas editoras alemãs, como Suhrkamp, Kiepenheuer & Witsch e Hanser. Em 1978, concluiu tese de doutorado na Universidade de Colônia sobre a obra do dramaturgo, romancista e poeta brasileiro Ariano Suassuna, autor do célebre Auto da Compadecida .

Com o esposo, dois filhos, muita literatura e inúmeras obras de arte popular na bagagem, retornou à Alemanha em 1982, criando a Agência Literária Ray-Güde Mertin em Bad Homburg, próximo a Frankfurt.

Mais de 100 escritores

Jose Saramago

José Saramago: agenciado mundialmente por Ray-Güde Mertin

Desde então, traduziu e representou escritores do Brasil, de Portugal, Espanha e América Latina. Cerca de 100 escritores estão no portfólio da agência, que se tornou conhecida principalmente depois que o escritor português José Saramago (agenciado mundialmente por Mertin desde 1986) foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.

Entre outras obras brasileiras, Mertin traduziu Perto do Coração Selvagem , de Clarice Lispector, Um Brasileiro em Berlim , de João Ubaldo Ribeiro, e Não Verás País Nenhum , de Ignácio de Loyola Brandão, para o alemão.

Além de tradutora e agente, desde 1984 lecionava Literatura Brasileira na Universidade de Frankfurt, onde passou a ser professora honorária a partir de maio de 1996. Ela integrava várias organizações do meio cultural, entre elas, o Centro PEN da Alemanha e a Sociedade Alemã para a Promoção da Literatura da África, Ásia e América Latina. Em 2000, foi condecorada pelo governo brasileiro com a Ordem do Rio Branco.

Clichês atrapalham

Em sua última entrevista à DW-WORLD, em outubro do ano passado ( veja link abaixo ), reclamou que os clichês dificultam a publicação da literatura brasileira na Europa. Nas traduções do português para o alemão, sua agência nunca teve concorrência na Alemanha. Mas a demanda por literatura de língua portuguesa e espanhola no país é relativamente pequena.

Em 2004, por exemplo, foram adaptados para o alemão 1110 romances escritos em inglês e apenas 93 romances do português e do espanhol (1,7% do total de traduções). "No início, pensei que fosse possível ampliar o número de traduções do português. Mas a luta é para ao menos manter este percentual", disse recentemente.

Segundo o jornalista e escritor português Francisco José Viegas, "o que centenas de autores lhe devem, pelo mundo fora, não pode ser contabilizado. Mais do que agente literária, ela era também amiga de quase todos eles, distribuindo o seu afeto por Portugal, Brasil, Argentina, Uruguai ou na África de língua portuguesa, onde quer que estivesse um dos seus autores".

Viegas conta que um dos últimos sonhos de Mertin foi realizado, quando pôde começar a usar a sua casa nos arredores de Fortaleza (CE), que se tornou seu segundo endereço. "Ela conhecia o Brasil muito melhor do que a maioria dos 'seus autores' brasileiros", escreveu Viegas em seu weblog.

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