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Brasil

Moro e Polícia Federal são alçados a heróis em protesto no Rio

Organizadores estimam que entre 750 mil e 1 milhão de pessoas foram à praia de Copacabana, e as duas pistas da Avenida Atlântica ficam interditadas. PM não divulga cálculo de participantes.

A manhã começou com chuva forte. Por volta das 9h30, os primeiros raios de sol sobre a praia de Copacabana serviram como um convite para que os cariocas ocupassem a mais popular área de lazer da cidade. Com os rostos pintados e vestindo camisetas verde e amarelas, milhares de pessoas ouviam atentamente os discursos que pediam, do alto de um trio elétrico, o impeachment da presidente Dilma Rousseff e a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Cada grito de "Fora Dilma", "Fora Lula" e "Fora PT" era recebido com aplausos efusivos. Mas foram outros personagens da Operação Lava Jato o alvo maior do ruído dos manifestantes no Rio de Janeiro: o juiz Sérgio Moro e agentes da Polícia Federal. Qualquer menção tanto ao magistrado quanto à atuação policial despertava uma onda de gritos histéricos, quase uma catarse coletiva. Era como se a multidão buscasse um salvador. E foram esses os grandes heróis da manifestação que reuniu entre 750 mil e 1 milhão de pessoas na orla, segundo os organizadores.

A Polícia Militar (PM) decidiu não divulgar um balanço da estimativa de público. No Rio, o protesto foi convocado pelo Movimento Brasil Livre e pelo Vem Pra Rua. Dois trios elétricos e três carros de som convocavam a população a aderir. Às 10h30, a organização já falava em 200 mil pessoas na rua. Pouco depois, as duas pistas da Avenida Atlântica, completamente tomadas por manifestantes, tiveram de ser totalmente interditadas ao tráfego.

Do alto dos prédios, bandeiras do Brasil tremulavam ao vento. E no asfalto, no meio do burburinho, a imagem do juiz paranaense de 43 anos, responsável pelas investigações da Operação Lava Jato, era onipresente. Seu rosto aparecia em camisetas, cartazes e faixas. Camisetas estampadas com os dizeres como "Somos todos Sérgio Moro", "Morobloco" e "Obrigado, Moro" eram tão comuns como as da seleção brasileira de futebol. Não raro alguém puxava um coro com seu nome e rapidamente a cantoria se espalhava.

Munida de um cartaz agradecendo ao magistrado e ao Ministério Público, a bibliotecária Maria Fernanda Figueiredo do Nascimento, de 57 anos, disse que o juiz está salvando o Brasil. "Se ele falhar, acabou! Estou aqui porque temos que amadurecer politicamente e dar um basta na corrupção. É hora de compreender que os políticos são funcionários do povo. O trabalho do juiz Sérgio Moro está nos lembrando disso. Os políticos não podem legislar em causa própria e enriquecer à custa do povo. Sou a favor do extermínio de qualquer corrupto", disse a bibliotecária.

Brasilien Proteste gegen Dilma Rousseff in Rio de Janeiro

As amigas Monica, Cilene, Adriana e Fátima foram juntas protestar "pela classe média"

Bonecos infláveis de Lula e Dilma a R$ 10

Ambulantes vendiam camisetas com a estampa de Lula presidiário por R$ 20 e, por R$ 10, os mais entusiasmados podiam comprar pequenos bonecos infláveis de Lula e Dilma. Homens, mulheres, idosos e crianças se misturavam à multidão. Na altura do Posto 5, local da concentração, centenas de pessoas faziam fila para assinar uma petição pela aprovação do projeto de emenda constitucional (PEC) 361, para "modernizar a Polícia Federal nos moldes do FBI americano".

Questionados, poucos manifestantes sabiam explicar do que se trata o projeto. "É para fortalecer a Polícia Federal, né? Se isso ajudar a limpar o Brasil da corrupção, tem meu apoio. Isso basta, não?", disse uma jovem, abordada pela DW Brasil, na fila.

Houve, ainda, quem usasse camisetas com o rosto do agente Newton Ishii, chefe do Núcleo de Operações da Polícia Federal em Curitiba. O policial que ganhou nas redes sociais a alcunha de "japonês da Lava Jato" era peça fácil em cartazes e bandeiras.

"Eu vim para elogiar a coragem do juiz Sérgio Moro e da Polícia Federal. Só eles salvam! São as únicas instituições que ainda funcionam no Brasil. Estão matando os brasileiros, mas eles não têm medo. Minha questão não é a Dilma sair ou ficar, é ver todos os corruptos de todos os partidos na cadeia. Votei três vezes no Lula, fui filiada ao PT durante anos e agora não acredito mais nele. Minha decepção não tem tamanho. Sítio, helicóptero, triplex? Tudo pertence a amigos dele? Ora, não somos burros!", argumentou a aposentada Ilene Habib, de 72 anos, que fez questão de levar a neta, Sofia, de apenas 10, ao protesto.

O empresário Carlos Adriano Rodrigues, de 52 anos, saiu no início da madrugada de Friburgo, na região serrana do Rio, para participar do protesto. E também para enaltecer Moro e a polícia. Ele chamava a atenção ao se oferecer para pintar de verde e amarelo os rostos dos manifestantes. Gratuitamente.

"O PT tirou nossa liberdade roubando nosso dinheiro. Chega de ditadura! Vim aqui ajudar os manifestantes a ajudarem quem realmente quer ajudar o Brasil, entende? Estou salvando vidas! Estou aqui por Sérgio Moro, pela Polícia Federal, pela imprensa e pelo Ministério Público. Esses é que defendem o povo. Nós só queremos justiça", disse Rodrigues.

Brasilien Proteste gegen Dilma Rousseff in Rio de Janeiro

Carlos Adriano Rodrigues pintou voluntariamente o rosto de manifestantes no Rio

Agenda variada: de alusão a militares à oração

Se, em comum, havia a insatisfação com a corrupção e a aparente busca por um salvador da pátria, ao longo dos quatro quilômetros da Avenida Atlântica emergiam também agendas variadas. O samba surgia, como num bloco de carnaval e, repentinamente, era substituído pelo Hino Nacional ou por coros como o que dizia "Pé na bunda dela, o Brasil não é a Venezuela". Referências pejorativas, em caráter pessoal, à presidente, porém, acabaram repudiadas pela multidão: houve vaias quando ela foi chamada de "vaca" em um discurso.

Lideranças da manifestação usaram os carros de som para puxar outras vaias, para deputados e senadores do Rio que apoiam o governo, citando seus nomes. Os manifestantes, porém, se queixaram da "partidarização" do ato. E um dos representantes do movimento Vem Pra Rua esclareceu que o grupo defende uma causa e não um partido, mas que era importante "pressionar os políticos a votar a favor do impeachment no Congresso".

Antes de a marcha partir, os organizadores pediram aos manifestantes que rezassem um pai-nosso. E embora alguns não escondessem o desconforto, houve quem se ajoelhasse no asfalto durante a oração. Manifestantes desfilavam com bandeiras pedindo a implementação de um regime parlamentarista, e um jipe decorado com motivos militares, convocando os manifestantes "à luta", dividia as atenções. Mesmo quem achou o adereço exagerado correu para fazer uma selfie diante do veículo. E se justificar:

"Não queremos golpe militar, não! Deus me livre! Não acho que ninguém aqui queira golpe, acho que é só uma maneira bem-humorada de dizer que os brasileiros precisam acordar, lutar por seus direitos e dar outros rumos para o país", disse a estudante de administração Catarina Alves, de 24 anos.

O temor de confrontos com grupos favoráveis ao governo não se concretizou e, segundo a Polícia Militar, não foram registrados incidentes. A oposição aos manifestantes veio do céu. Os tradicionais aviões bimotores que, nos fins de semana, sobrevoam a praia com propagandas, cortaram o céu de Copacabana com uma faixa onde se lia "Não vai ter golpe", assinada pela Frente Brasil Popular. Acabaram vaiados efusivamente.

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