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Mundo

Meu pedaço de terra: a pulseira do amor de Ahmed

Ele rompeu com a própria família, com o clã e com todo o país. Embora não tenha saudades do Iêmen, Ahmed guarda lembranças de uma mulher: seu grande amor. Foi ela quem deu a ele, antes da fuga, uma pulseira de prata.

Milhares de refugiados chegam atualmente à Alemanha. São pessoas que deixaram para trás amigos e família, trabalho e casa – e isso talvez para sempre. Em nossa série de reportagens "Meu pedaço de terra", apresentamos aqui alguns refugiados e suas histórias, sob suas perspectivas: subjetivas e sem julgamentos. E mostramos que eles, apesar de uma fuga perigosa, trouxeram consigo um objeto: o "pedaço de terra" que puderam carregar.

Quando Ahmed acorda de manhã, ele tem quase sempre uma marca no pulso esquerdo. Isso porque nunca tira sua pulseira, nem mesmo para tomar banho ou dormir. A pulseira, uma corrente de pequenas peças de prata, é seu "pedaço de terra". Foi "um presente do meu grande amor", diz ele. "O que tenho de mais precioso", completa. Mas Ahmed não quer citar nem o nome nem o sobrenome da amada. "A família dela a mataria se soubesse", acredita ele.

Tanto Ahmed quanto sua amada fazem parte da etnia dos Hashid, mas suas famílias são inimigas. E ainda tem o agravante da idade: ele tem 26 anos e ela 28. O fato de ela ser mais velha, conta Ahmed, já bastaria no Iêmen como impedimento para um casamento. Ele pouco se importa. "Eu a amo. E não quero nada no mundo além de me casar com ela. Ma sei que isso provavelmente nunca vai acontecer", conclui. Ou seja, um amor como o de Romeu e Julieta no Iêmen.

Os dois se conheceram na Universidade de Sanaa. "Éramos colegas", lembra o iemenita. Ambos estudavam Letras (Inglês). E sonhavam em ganhar uma bolsa de estudos para deixar o país. Ahmed fez ainda uma segunda graduação em TI, a fim de ter melhores chances profissionais fora do Iêmen. "A última vez que eu a vi foi na nossa prova final", lembra. Foi quando ela lhe deu a pulseira de prata. E ele deu a ela uma parecida. Uma espécie de presente de noivado. Agora, já se passaram quase dois anos.

Foi aí que Ahmed precisou fugir, pois não queria lutar nem "matar", como ele próprio diz. O Iêmen vem sendo assolado por uma guerra entre governo e rebeldes hutis – um conflito entendido com frequência como parte de uma guerra maior entre a Arábia Saudita e o Irã. Ahmed não foi vítima apenas deste conflito, mas também de um outro, travado no Iêmen há dois anos entre etnias diversas. "Dois tios meus foram assassinados. A família queria que eu os vingasse", relata ele. "Mas eu não quis. Não quero que essa guerra se perpetue", diz ele.

Ahmed falou de seus planos de fuga somente para o irmão mais velho, que já havia fugido para a Arábia Saudita anos antes. E contou também para sua amada que iria deixar o país. "Eu disse a ela que iria para a Alemanha. E que se ela não ouvisse nada a meu respeito três meses depois, é porque eu provavelmente estaria morto", diz o iemenita.

Ahmed passou um ano e meio em fuga. Para a amada, ele mandava notícias pelo WhatsApp na frequência possível. Desde que ele chegou à Alemanha, eles se comunicam várias vezes ao dia. Ahmed ri quando conta o que escreve: "Como vai? O que você está fazendo? Estou comendo agora. Vou dormir". Ela inclusive está sabendo a respeito da entrevista que ele está concedendo.

Ahmed mora em um alojamento emergencial para refugiados no campo de treinamento de tropas do Exército em Putlos, no estado de Schleswig Holstein. "Os soldados são muito simpáticos", diz ele. "Ao contrário do Iêmen, aqui há leis e regras, não corrupção e vício de vingança", acrescenta. Ahmed já havia se informado sobre a Alemanha quando estava ainda no Iêmen. Ele leu bastante a respeito do país e já consegue entender, hoje, o complexo processo de requerimento de asilo. E tem planos profissionais: com seu bom domínio do inglês e formação, ele pretende trabalhar como especialista em TI. O que ele não sabe é como será possível rever seu grande amor.

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