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Cultura

Merkel polariza tietes e feministas

A premiê alemã é considerada a mulher mais poderosa do mundo. No entanto, pautas relacionadas à igualdade de gêneros nunca foram o cerne de sua agenda. Será que ela pode servir de modelo para jovens mulheres?

Merkel e estudantes na sede do governo

Merkel e estudantes na sede do governo

"Minhas filhas adoram a Merkel, ela pode fazer o que bem entender", escreveu a jornalista Kathrin Spoerr no jornal alemão Die Welt em 2013. "A Merkel não precisa de roupas bonitas", acrescentou a jornalista, lembrando que a chanceler federal "pode até perder seus horários no cabeleireiro". As crianças, entre elas as filhas de Spoerr, já aspiram se tornar chefes de governo. No entanto, apesar de ser uma líder mundial, nunca houve muito debate para saber se Angela Dorothea Merkel – nascida em 1954, casada, sem filhos – seria ou não uma heroína para as adolescentes e mulheres jovens.

A psicóloga alemã Thekla Morgenroth, de 29 anos, concluiu recentemente seu doutorado na Universidade de Exeter sobre modelos de comportamento e estereótipos de gênero. Para que as pessoas sejam consideradas exemplos a serem seguidos, elas precisam surtir um efeito psicológico positivo nas outras, diz Morgenroth.

Segundo a pesquisadora, elas precisam preencher dois critérios cruciais: "A pessoa em questão tem que representar algo que eu queira alcançar e eu tenho que ser capaz de acreditar que posso ser como aquela pessoa. O sucesso dela precisa ser atingível para mim, ou seja, a similaridade é um fator importante. Isso pode se referir à cor da pele, ao gênero ou à condição social", explica.

Thekla Morgenroth questiona estereótipos

Thekla Morgenroth questiona estereótipos

Rainha da corda bamba

Sucesso atingível? Similaridade? Quando se fala na primeira mulher a ocupar o cargo de chefe de governo da Alemanha – uma mulher que vem guiando (ou pelo menos codirigindo) o destino da Europa por vários anos – isso está além de qualquer expectativa. Apesar disso, ou talvez exatamente por isso, estudantes alemães (homens e mulheres) nomearam Angela Merkel como o maior exemplo a ser seguido, depois de seus pais, amigos e cônjuges. Isso em uma pesquisa realizada em 2014 pela empresa de auditoria e contabilidade Ernst & Young.

Morgenroth diz que especialmente as mulheres jovens podem aprender algumas coisas com Merkel: "Ela aperfeiçoou a arte de aparições assertivas e competentes em público, sem ser, ao mesmo tempo, autoritária ou agressiva. Para muitas mulheres em posição de liderança, esse é um caminho na corda bamba".

A pesquisadora está convencida de que a presença neutra em termos de gênero de Merkel é a razão de seu sucesso. "Para uma mulher que está constantemente exposta ao olhar público, Merkel raramente foi escrutinada em função de sua aparência nos últimos anos", aponta a pesquisadora. "Acredito que isso dê a ela um apelo maior como exemplo a ser seguido do que a muitas outras mulheres que ocupam altos cargos". O fato de Merkel ter conseguido permanecer no cargo por dez anos, completa Morgenroth, "prova também que as mulheres podem alcançar qualquer coisa e que obstáculos como preconceitos e discriminação podem ser vencidos".

O sucesso tem um preço

A escritora e ativista online Anne Wizorek, 34 anos, gostaria de admirar Merkel: "Ela é uma mulher em posição de poder e vem do Leste alemão, onde cresceu. Mas eu, pessoalmente, não a considero um exemplo a ser seguido". Wizorek defende uma abordagem mais moderna do feminismo. Em 2013, ela recebeu o conceituado Prêmio Grimme Online, por ter lançado a campanha #Aufschrei (Grito), endereçada ao assédio e à violência sexuais, movimento que rapidamente se disseminou internacionalmente.

Nora-Vanessa Wohlert (dir.) e Susann Hoffmann (esq.), fundadoras da comunidade Edition F

Nora-Vanessa Wohlert (dir.) e Susann Hoffmann (esq.), fundadoras da comunidade Edition F

Quando se trata de política de gênero, Merkel mantém-se longe de controvérsias – seja o assunto a implementação de uma cota feminina nos altos escalões das empresas alemãs, a abolição de receita obrigatória para a pílula do dia seguinte ou a legalização do casamento homoafetivo. Além disso, seu papel como mulher raramente vem à tona. "Ninguém pergunta à premiê a respeito de seu equilíbrio entre suas vidas profissional e pessoal", diz Wizorek. "As pessoas simplesmente esperam que essas pessoas trabalhem 24 horas por dia, sete dias na semana. Não vamos esquecer que Merkel só está em condições de exercer essa atividade porque não tem preocupações em conciliar o ônus do trabalho com os cuidados de algum membro dependente na família", conclui a escritora.

Embora Wizorek reconheça a importância, para as futuras gerações, do fato de uma mulher exercer o cargo de chefe de governo do país, ela afirma que a própria Merkel não sedimentou nenhum terreno para isso: "Ela acabou nesta posição porque cumpriu com a maioria das exigências neste sistema de poder. Você pode dar a ela o crédito por isso, mas, de um ponto de vista feminista, esse sistema é precisamente o que precisa ser mudado".

Anne Wizorek não vê Merkel como exemplo a ser seguido

Anne Wizorek não vê Merkel como exemplo a ser seguido

Para algumas mulheres, especialmente aquelas que não simpatizam com a conservadora União Democrata Cristã, o partido da premiê, Merkel só demonstrou recentemente qualidades dignas de emulação. "Em minha opinião, a crise dos refugiados foi o primeiro assunto no qual Merkel deu mostras de perseverança", diz Nora-Vanessa Wohlert, de 31 anos, cofundadora da Edition F, uma comunidade profissional online voltada para jovens mulheres. "Esta foi a primeira vez que a considerei um exemplo a ser seguido", fala Wohlert.

Embora nunca tenha votado nos democrata-cristãos ou achado a agenda política de Merkel especialmente clara, Wohlert costumava admirar as habilidades democráticas de Merkel. E aprecia também a mensagem que a longevidade de Merkel no cargo traz para os alemães mais jovens: "Gosto de ver como as crianças pequenas nem conseguem imaginar que um homem poderia ser chefe de governo do país", conclui.

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