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Cultura

Memorial do Holocausto começa a ser construído

Finalmente foi iniciada em Berlim a construção do Memorial aos Judeus Assassinados na Europa.

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Peter Eisenman diante do modelo do Memorial

Os tratores já começaram a revirar a terra. Aqui e ali vêem-se algumas amostras das estelas cinzas e pretas que cobrirão o terreno arenoso. Das plantas em volta do charco, congelado com a chegada do inverno, só aparecem os tocos. Três anos para drenar o terreno, um ano para construir o memorial, como prevê Peter Eisenman.

O vazio do museu

Assim como o recém-inaugurado Museu Judaico, cujo edifício ficou pronto antes de o acervo ser reunido, é possível que a Casa da Memória de Eisenman - um forçado apêndice ao projeto original - acabe de ser construída antes de se chegar a um consenso sobre o seu conteúdo. O arquiteto norte-americano planeja um espaço interior bastante sacralizado, uma espécie de continuação da superfície de 2700 estelas, com a qual ele quer provocar no visitante uma sensação de desorientação.

Intelectuais alemães, por sua vez, temem que o efeito emocional que Eisenman pretende alcançar com seu memorial comprometa o espaço da informação. Eles defendem uma maior neutralidade e objetividade, criticando os planos de sacralizar a Casa da Memória. A antiga idéia de registrar os nomes de todas as vítimas também está sendo criticada como uma estratégia de encenação que coloca em risco o valor da informação.

O atual debate é apenas um dos indícios de que o processo de discussão em torno da memória do Holocausto não está encerrado. O início da construção do memorial apenas coloca um fim arbitrário numa discussão pública, que promete continuar por muito tempo, mesmo bem depois da inauguração do monumento. O terreno vazio em Berlim-Mitte, que evidenciou por mais de uma década a impossibilidade de encontrar uma representação adequada da memória do Holocausto, funcionava até então como uma espécie de memorial espontâneo e efêmero.

Terreno vazio

Cercado por edifícios residenciais construídos nos últimos anos na Alemanha Oriental, não muito distante do Portão de Brandemburgo ou do Reichstag, com a Potsdamer Platz ao fundo, o terreno na esquina da Behrenstrasse com a Ebertstrasse, paralela ao antigo Muro de Berlim, é uma das últimas lacunas no centro da capital alemã reunificada.

O terreno remete a tudo aquilo que os novos projetos de reconstrução e restauração tentam mascarar: os intervalos de uma paisagem urbana entrecortada, o abismo ainda perceptível entre leste e oeste, a ausência de tudo o que desapareceu durante a guerra ou por meio do planejamento urbanístico tecnocrático do pós-guerra.

Desde sua urbanização, no século 17, o terreno nas imediações do parque Tiergarten parece ter sido sempre um território proibido. Reservado como espaço residencial da nobreza nos anos 30 do século 18, o quarteirão passaria a sediar os mais importantes órgãos estatais da Prússia no século seguinte.

Os Jardins Ministeriais, que interligavam os edifícios, eram um espécie de "cidade proibida", vedada ao acesso público. Desde os bombardeios da Segunda Guerra, a área não foi reconstruída, tendo sido interditada como faixa de segurança ao longo do Muro de Berlim, de 1961 a 1989.

Memória subterrânea

No início da reunificação, quando as tropas de fronteira da antiga Alemanha Oriental começaram a desmontar as torres de vigilância do Muro e remover armamentos e munições, o terreno foi redescoberto como campo minado por indícios da memória histórica. As escavações em torno da antiga Chancelaria do Reich revelaram, em 1990, o bunker dos seguranças de Hitler, decorado com pinturas de oficiais da SS em poses heróicas.

Seis anos depois, encontravam-se os fundamentos da residência de Goebbels e o desconhecido bunker do mentor da propaganda nazista, com restos de uma piscina revestida de mármore, armamentos e esqueletos. Após a documentação, o subterrâneo foi lacrado, sem se impedir, no entanto, que a redondeza virasse um ponto de encontro de skinheads.

Quando o governo alemão concordou em doar este terreno para a construção do memorial, a jornalista Lea Rosh, presidente da Fundação pela Construção do Memorial aos Judeus Assassinados na Europa, lembrou do teor simbólico da escolha, que "eleva as vítimas a uma posição superior a dos criminosos". A imagem da reversão de subsolo e superfície também se aplica ao árduo trabalho de memória coletiva desencadeado pelo processo de concepção do Memorial aos Judeus Assassinados na Europa.