1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Cultura

Meinhof é mãe ou patrimônio público?

Dramaturga austríaca Elfriede Jelinek toma como protagonista a ativista da RAF Ulrike Meinhof e recebe severas críticas da filha deste ícone da resistência armada de esquerda.

default

Ulrike Meinhof, foto de 'procurada' nos cartazes de busca policial

Até que ponto personalidades da história recente podem ser transformadas em personagens literárias, sem comprometer pessoas ainda vivas ligadas a elas? Esse é o dilema que envolve, no momento, a dramaturga austríaca Elfriede Jelinek, Bettina Röhl, filha da ativista da Facção do Exército Vermelho (RAF) Ulrike Meinhof, e o Thalia Theater, de Hamburgo, que estréia em 28 de outubro próximo a peça Ulrike Maria Stuart.

Bettina Röhl

Bettina Röhl, jornalista

"Jelinek distorce Meinhof como mãe em palco e, com isso, pessoas reais que ainda vivem, como eu e minha irmã. O que Jelinek veicula sobre a mãe Meinhof é histórica e factualmente uma grande bobagem, para expressar da forma mais positiva possível. Meinhof é encarada como patrimônio público e o mesmo se aplica a quem tinha a ver com ela ou pertencia à sua família", reclamou Röhl, em entrevista ao diário Hamburger Abendblatt, após ter assistido a um ensaio da montagem do diretor Nicolas Stemann.

Devolver às mulheres da RAF sua participação na história

Em seu mais recente drama, a Nobel de Literatura Jelinek tomou como referência a peça Maria Stuart, de Friedrich Schiller, decidindo-se até mesmo pela forma em verso. "O que me estimulou foi transferir os mecanismos de poder conhecidos e geralmente atribuídos aos homens para duas mulheres que, cada uma à sua moda, ultrapassam a escala real e não podem nem querem se enquadrar em lugar nenhum."

Jahresrückblick 2004 Oktober Elfriede Jelinek

Nobel da literatura Elfriede Jelinek

"Transferi esses mecanismos de poder para Ulrike Meinhof, como Maria, e Gudrun Ensslin, como Elisabeth, duas mulheres que fizeram história. Muito embora isso tenha sido apenas por um breve tempo que ainda vive hoje como folclore. Devolvi a essas duas mulheres sua participação na história, mesmo que esta participação tenha sido sombria, negativa e opressora", declarou Jelinek ao jornal News, anunciando ao mesmo tempo que não pretende escrever mais peças de teatro nos próximos anos.

Em torno do vazio que a esquerda deixou

Para a filha de Meinhof, a peça – além de violar seus direitos de personalidade – representa um apelo por uma nova RAF, a organização de extrema esquerda responsável por atentados e seqüestros sobretudo nas décadas de 70 e 80. O diretor Nicolas Stemann, por sua vez, explicou ao diário Tageszeitung que a nova peça de Jelinek "desconstrói a esquerda do pós-guerra e decompõe o feminismo, comunismo e terrorismo, ou seja, todos os movimentos libertários e utópicos dos últimos 40, 50 anos".

"Mas nessa peça sempre há momentos em que o presente vem à tona, em que se tenta descrever a situação atual, onde se repreende o capitalismo cada vez mais agressivo que começou a se voltar contra nós. E a grande ironia é que isso vem a acontecer justamente num momento em que acabamos de nos conformar com a falta de qualquer outra alternativa. Ou seja: justo no momento em que se precisa mais da esquerda – ou da RAF –, ela está acabada. É em torno deste vazio que gira a peça."

Entre vida política e privada

Stemann também conta que o duelo das duas mulheres mistura política e assuntos pessoais. E é justamente nesta intersecção que reside o dilema do Thalia Theater, que poderá ter de enfrentar a resistência das herdeiras de Meinhof. "Tenho problemas com pessoas que se consideram especialistas sobre a minha família e pretendem encher os bolsos com o destino dela", declarou Bettina Röhl, que diz contar com o bom senso de Jelinek, Stemann e do Thalia Theater.

Ulrike Meinhof

Ulrike Meinhof, 1972

Ulrike Meinhof foi uma jornalista engajada que entrou para a luta armada de esquerda da RAF. Numa ação espetacular, ela planejou e participou da libertação do ativista Andreas Baader em 1970. Em sua convicção pela luta anticapitalista, que a levou à clandestinidade, ao terrorismo e à prisão, Meinhof também envolveu sua família, chegando a levar suas filhas gêmeas, Regine e Bettina, para um acampamento de treinamento palestino. Condenada a oito anos de prisão em 1974, Meinhof foi encontrada dois anos depois enforcada na prisão de segurança máxima de Stammheim, na periferia de Stuttgart.

Leia mais