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Mundo

"Mantenha a esperança, mas prepare-se para o pior", diz o Dalai Lama

Líder espiritual fala com exclusividade à DW sobre seu otimismo em relação ao Tibete, a situação no Iraque e na Síria e o aumento no número de budistas tibetanos na China.

O líder espiritual do Tibete, Dalai Lama, afirmou em entrevista à DW que o budismo vem ganhando espaço dentro da comunidade chinesa. "Até mesmo alguns membros do Partido Comunista chinês, funcionários e autoridades de alto escalão, estão mostrando interesse pelo budismo tibetano", disse.

"O presidente Xi Jinping está combatendo a corrupção de maneira séria. E recentemente, durante sua visita à Europa, em Paris, afirmou abertamente que o budismo tem um papel muito importante para a cultura chinesa", disse na entrevista concedida ao jornalista Matthias von Hein durante visita a Hamburgo.

"Para mim isto é algo extremamente fora do comum: um líder comunista elogiando publicamente ou fazendo uma observação positiva sobre o budismo. Então, as coisas estão mudando", afirmou.

DW: Vossa Santidade, a China está se tornando cada vez mais poderosa, tanto econômica como politicamente. Pequim também está usando seu poder para isolá-lo cada vez mais – o rosto da luta pela autonomia do Tibete. Acha, que se a China fosse tão poderosa assim em 1989, teria sido agraciado com o Prêmio Nobel da Paz?

Dalai Lama: Eu me afastei completamente de minhas responsabilidades políticas desde 2011. A razão da sua pergunta é bastante política. Mas como você fez essa pergunta: sim, a República Popular da China está ganhando mais força econômica e militar. Mas, nesse meio tempo, nós podemos ver que um número de chineses apoia muito nossos direitos básicos porque nós não estamos buscando a independência.

Nós decidimos em 1974 que não estamos atrás de independência. Nós só buscamos aqueles direitos que são mencionados na Constituição. Eles deveriam ser implementados. Este é o nosso pedido.

Então, vários intelectuais chineses dão apoio total à nossa causa – incluindo Liu Xiaobo [que recebeu o Nobel da Paz em 2010 e atualmente está preso cumprindo uma sentença de 11 anos].

Durante os últimos quatro anos, vimos cerca de mil artigos em chinês, alguns escritos por chineses dentro da China, alguns fora, que apoiam plenamente nossa abordagem de "caminho do meio". Eles são muito críticos em relação às políticas de seu próprio governo. Portanto, esta não é a nossa crítica. É uma crítica que vem de dentro da comunidade chinesa.

Além disso, há uma grande população budista na China. Há uns três ou quatro anos, uma universidade chinesa fez um levantamento sobre quantos budistas existiam no território chinês. Eles estimaram um número maior que 300 milhões. Muitos desses budistas são pessoas educadas.

E hoje em dia mais e mais chineses budistas mostram interesse pelo budismo tibetano. Até mesmo alguns membros do Partido Comunista chinês, funcionários e autoridades de alto escalão, estão mostrando interesse pelo budismo tibetano.

No nível prático: o governo chinês está muito preocupado com a imagem da China. Apenas os militares e a economia não podem dar uma contribuição construtiva na esfera global. A República Popular da China precisa de autoridade moral, mais respeito, mais confiança do mundo exterior.

E o próprio povo chinês está muito preocupado com a imagem da China, também. Muitos chineses me disseram que, mesmo com seu país tendo mais de 1,3 bilhão de habitantes, ainda faltam autoridade moral e poder moral.

No entanto, agora, o presidente Xi Jinping está combatendo a corrupção de maneira séria. E recentemente, durante sua visita à Europa, em Paris, afirmou abertamente que o budismo tem um papel muito importante para a cultura chinesa. Então os budistas deveriam assumir mais responsabilidade.

Para mim isto é algo extremamente fora do comum: um líder comunista elogiando publicamente ou fazendo uma observação positiva sobre o budismo. Então, as coisas estão mudando.

Mas Vossa Santidade vê alguma melhoria no Tibete?

Deutschland Dalai Lama zu Besuch in Hamburg

Dalai Lama: "No longo prazo, o poder da verdade é muito mais forte"

Nossa luta é a luta entre o poder das armas e o poder da verdade. No curto prazo, o poder da arma é muito mais forte, muito decisivo. Mas no longo prazo, o poder da verdade é muito mais forte. Eu acredito nisso.

Já há alguns sinais de líderes ou intelectuais chineses que questionam se a política existente é realmente útil no longo prazo para os interesses da República Popular da China. Então, as coisas estão mudando.

Até agora, porém, minha impressão é que os líderes chineses ainda pensam que a maneira de lidar com minorias étnicas no Tibete ou em Xinjiang são a repressão e o investimento. Esta é a abordagem dupla deles.

O investimento é bom. Mas, ao mesmo tempo, eles deveriam estar seriamente preocupados com o ambiente. O uso da força é, geralmente, contraproducente, não importa quão sincera seja sua motivação.

Veja a crise no Iraque e o presidente Bush. Eu sei que sua motivação era bastante boa: a democracia no Iraque. Mas o método foi errado. Então, consequências inesperadas aconteceram. Na China há basicamente uma situação semelhante.

Falando sobre o Iraque, isso me leva a uma pergunta que está ocupando muitas pessoas na Alemanha agora. É a questão de como lidar com o "Estado Islâmico". Vossa Santidade é amado e respeitado em todo o mundo por sua abordagem de diálogo e tolerância. Mas agora na Alemanha nós estamos discutindo sobre a possibilidade de o governo fornecer armas para os curdos no norte do Iraque para combater o EI – o que seria uma violação de políticas antigas. O que fazer se o diálogo fracassa ou se o outro não está pronto para o diálogo?

Eu sou um estudante de psicologia budista. E também acredito firmemente na lei da causalidade. Há esses eventos impensáveis e tristes: a morte de seres humanos, sem piedade, incluindo crianças e mulheres. Acredito que isso é o resultado de certas causas.

A crise no Iraque: se as políticas americanas para derrubar Saddam Hussein tivessem sido conduzidas de uma maneira menos violenta, acredito que a situação hoje seria um pouco melhor. Eu acho que essa inacreditável crise no início do século 21 é resultado dos erros cometidos nos séculos anteriores.

Então qual é o seu conselho?

Basicamente, eu digo: é muito melhor e mais seguro não usar a violência. Mas agora a realidade é que muitas pessoas estão sofrendo. Se o mundo permanecer indiferente, isso também seria imoral.

A melhor coisa seria tentar conversar. Se isso fracassar, de acordo com a realidade e com as circunstâncias... É muito difícil julgar.

Voltando ao Tibete, Vossa Santidade pareceu bastante otimista sobre as perspectivas de mudança positiva em relação ao tema por parte do governo chinês. Está otimista para poder visitar o Tibete, ver Lhasa e o Potala?

Observando a China por mais de 60 anos, eu consigo descrever quatro eras: a de Mao Tsé-tung, a de Deng Xiaoping, a de Jiang Zemin e a de Hu Jintao. Entre essas quatro eras, muitas mudanças aconteceram.

A era de Mao Tsé-tung colocou muita ênfase em ideologia. Em seguida veio a era de Deng Xiaoping. Ele acreditava que a economia e o padrão de vida eram mais importantes que apenas a ideologia. Então ele não hesitou em impulsionar uma economia mais orientada para o mercado, ou até mesmo o capitalismo. Depois veio Jiang Zemin.

Ele descobriu que, por causa da nova realidade, o Partido Comunista não era mais apenas um partido da classe operária. Então ele criou o conceito dos "Três Representantes". Pessoas mais ricas e intelectuais foram aceitos no partido.

Na época de Mao Tsé-tung isso seria impensável. Aí veio Hu Jintao. Por causa da crescente lacuna entre ricos e pobres ele enfatizou a promoção da "Sociedade Harmoniosa". Assim o mesmo partido, confrontado com uma nova realidade, teve a habilidade de tomar algumas novas iniciativas, desenvolver uma nova forma de pensar.

Quando Hu Jintao anunciou a "Sociedade Harmoniosa", eu apoiei totalmente. Mas dez anos se passaram e eu acho que em questão de "harmonia" as coisas pioraram.

O objetivo, a motivação foi boa. Mas o método? Eles usaram a força. O orçamento do governo chinês para a segurança interna é maior do que o orçamento da defesa.

Acho que há umas 200 nações neste planeta. Mas não acho que em nenhuma delas o orçamento para segurança interna é maior que o orçamento da defesa.

Mas Xi Jinping, sua política, suas ações, parecem ser mais realistas. Como Deng Xiaoping disse: "Procure a verdade dos fatos". Acho que a nova liderança segue esse conselho, buscar a verdade dos fatos.

O falecido Hu Yaobang [reformista liberal e secretário-geral do Partido Comunista entre 1980 e 1987] seguia essa abordagem. O presidente Xi Jinping também parece ser favorável a essa abordagem.

Quando Hu Yaobang visitou Lhasa no começo dos anos 80, seus discursos públicos e comentários foram bastante realistas. Ao mesmo tempo, todos tiveram muita esperança.

Eu ainda acredito que se Hu Yaobang tivesse ficado mais tempo no poder, a questão do Tibete teria sido resolvida. Xi Jinping parece seguir a mesma abordagem mais realista. Então há alguma esperança. De qualquer maneira, é melhor manter a esperança e, enquanto isso, se preparar para o pior.

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