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Futurando!

Maior captação em áreas remotas pode ampliar rede de transplantes do Brasil

Atualmente, 26.760 pessoas estão na fila à espera de um órgão. Na Semana Nacional de Doação de Órgãos, ABTO ressalta importância de investir em capacitação para ampliar sistema nacional.

Uma doença com nome complicado e de difícil diagnóstico colocou o contador Carlos Roberto Cabral aos 42 anos de idade na fila de transplantes à espera de um fígado, que ele só conseguiu aos 44. Ele tinha Colangite Esclerosante Primária (CEP), uma doença hepática crônica autoimune que pode evoluir para a cirrose hepática. Aos 35, o contador começou a sentir os primeiros sintomas e só depois de quase uma década conseguiu descobrir o que realmente o deixava incapacitado. Quando os sintomas surgiam, ele precisava ser internado às pressas. "Logo depois que recebi o diagnóstico me informaram do transplante. A notícia foi um choque. Pensei: como vai ser tirar um órgão de dentro de mim e colocar outro? Eu fiz terapia para enfrentar isso", recorda, 16 anos depois.

Hoje ele é presidente da Associação dos Doentes e Transplantados Hepáticos do Estado do Rio de Janeiro, a Dohe Fígado, que ajudou a fundar em 1999, enquanto ainda fazia tratamento. O carioca agora serve como exemplo para outros pacientes que precisam de um transplante de fígado. A espera pode ser longa e, para alguns, não chega a ter fim.

No total, 26.760 pessoas aguardam por um órgão na fila de transplantes do Brasil. Destes, 1.387 são pacientes que precisam de um fígado. A maioria, 19.913, aguarda por um rim, e outros 5.960 necessitam de uma córnea. O trabalho na área colocou o Brasil em primeiro lugar no ranking dos países que mais realizam transplantes pelo sistema público de saúde no mundo. Apenas 5% são realizados pela rede particular. Mas o índice ainda pode ser melhor, se alguns obstáculos forem superados.

Foco na captação

De acordo com os dados do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), alguns estados não realizam esse tipo de operação. A justificativa do vice-presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) Lucio Pacheco é que, em certas regiões, a demanda não atinge a média mínima de 25 procedimentos por ano para abrir um centro de transplantes.

Ainda assim, esses estados podem ter um papel mais relevante no sistema nacional se forem incluídos na captação de órgãos. Para o representante da ABTO, é necessário viabilizar os transplantes no interior do país, capacitar equipes "tanto para identificar casos de morte encefálica [situação em que é autorizada a retirada dos órgãos, desde que haja o consentimento da família], quanto para extrair o órgão e enviá-lo ao centro de transplantes. Isso pode ser o embrião para desenvolver o transplante em áreas mais distantes do país", considera Pacheco.

No primeiro semestre de 2013, foram realizados 3.799 transplantes no país

No primeiro semestre de 2013, foram realizados 3.799 transplantes no país

Ele, que já trabalhou na França, comenta que a dimensão continental do Brasil oferece maiores dificuldades. "A França, por exemplo, é do tamanho de Minas Gerais. O órgão de um doador em Marseille será levado a um paciente em Paris [775 Km de distância]. Isso é muito diferente de quando o doador está no Acre, e o receptor, em São Paulo [3.500 Km de distância]. É outra logística", argumenta.

Conforme o RBT, no primeiro semestre de 2013, a taxa de efetivação de transplantes no país ficou em 30% – menor do que a esperada pela entidade. Dos 4.222 potenciais doadores, apenas 1.220 efetivaram a doação, dos quais 828 doaram múltiplos órgãos. Com isso foram realizados 3.799 procedimentos entre janeiro e junho de 2013, sendo 725 possibilitados graças a doadores vivos.

Apoio na fila de espera

Carlos Roberto Cabral contou os dias de espera na fila do transplante. Foram quase 600 dias, pouco menos de dois anos, esperando por um novo fígado. Enquanto aguardava, passou por três tentativas malsucedidas de transplante, com doadores compatíveis. Na quarta tentativa, recebeu o fígado de um jovem de 19 anos que morreu em um acidente de trânsito. "Antes do transplante, fui internado 28 vezes. A maior internação durou 36 dias", relembra o contador, que é pai de dois filhos e terá o primeiro neto em breve.

Hoje, ele toma imunossupressores a cada 12 horas, mas tem vida normal: pratica exercícios físicos, dirige, trabalha e tenta auxiliar pacientes que passam pelo mesmo drama que ele já viveu. "As pessoas têm muito medo. Nós trabalhamos com hospital público, e a maioria das pessoas não tem muito acesso a informação. A gente tenta orientar desde a legislação até como será o processo de cirurgia. A minha durou 13 horas", comenta.

Brasil é o país com maior número de transplantes pelo sistema público de saúde: 95% são feitos pelo SUS

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Ampliar doadores por milhão de habitantes

Assim como França e Inglaterra, o Brasil faz a maioria dos transplantes pelo Sistema Único de Saúde (SUS). "Em números absolutos de transplantes, o Brasil vai muito bem. Fica atrás só dos Estados Unidos, que faz este procedimento pela rede particular", comenta Pacheco, da ABTO.

O médico especialista em transplante de fígado explica que o Brasil deixa de ser referência quando o tema é transplante por milhão de habitantes. "O país melhorou muito nos últimos cinco anos: subiu de 6 para 13,3 pessoas por milhão de habitantes. Mas ainda tem muito o que crescer", pontua.

Para se ter uma ideia, em países como Espanha e Portugal, este índice chega a cerca de 30 pessoas por milhão. Nos Estados Unidos, o índice é de aproximadamente 20. Alguns estados brasileiros já conseguiram alcançar esta taxa no primeiro semestre de 2013, como Distrito Federal, Santa Catarina, Paraná, Ceará e São Paulo. A meta da ABTO é que todo o país atinja 20 pessoas por millhão de habitantes em 2017.