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Alemanha

Mídia européia disseca Merkel e sua "grande coalizão"

Quer partindo do campo conservador, quer da esquerda, a palavra "difícil" foi uma constante na análise da imprensa européia dos novos (velhos) caminhos políticos da Alemanha.

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Angela Merkel (dir.) e seu provável ministro da Economia, Edmund Stoiber

O jornal alemão Frankfurter Allgemeine critica a divisão de pastas dentro da inesperada coalizão entre cristão- e social-democratas: "O posto de Angela Merkel como chefe de governo sai caro para a aliança CDU/CSU. No toma-lá-dá-cá do poder, esta renuncia justamente aos ministérios em que se decide o futuro econômico do país. As grandes tarefas reformistas continuam nas mãos daqueles que fracassaram durante os últimos sete anos. [...] Merkel se arvora em chanceler de uma 'coalizão das novas possibilidades'. Isso são palavras vazias. É preciso que ela seja a chefe de um governo federal capaz de mostrar resultados imediatos no mercado de trabalho e na redução do déficit público".

O liberal austríaco Standard também questiona o otimismo de Merkel: "A experiência das democracias da Europa ocidental mostra que grandes coalizões com maiorias parlamentares fortes tendem a reforçar as margens. Caso esta 'coalizão das grandes possibilidades' fracasse, não se excluem os paralelos com os anos 60: manifestações de massa contra um 'governo das oportunidades desperdiçadas' e instabilidade política no centro da Europa".

Uma mulher como Maggie

Alguns periódicos enfatizaram a condição feminina da provável futura chefe de governo alemã, não poupando paralelos com a famigerada "Dama de Ferro" que liderou a Inglaterra na década de 80.

Para o francês Libération: "Antes de 'Angie' só houve uma como ela, e foi Maggie Thatcher. Pois, embora a causa feminina haja alcançado progressos inimagináveis no século 20, elas continuam sendo mulheres, mesmo nos países onde mais avançaram, para além das posições-chave na política. Será mero acaso o fato de Merkel – assim como Thatcher – encontrar-se mais para a direita no panorama de seu país? [...] Embora a ânsia de conciliar os opostos seja grande, não existe uma vara de condão para resolver as contradições levantadas [pelo resultado das eleições]. A grande coalizão será uma luta".

O belga Het Laatste Nieuws comentou: "A Alemanha conta cinco milhões de desempregados e Merkel nunca escondeu ser – assim como Margaret Thatcher – uma adepta de moderação nos acordos salariais, redução dos custos trabalhistas e simplicidade e rapidez na demissão de empregados. [...] Contudo, onde Thatcher contava com uma grande maioria e o apoio de seu partido, Merkel terá maiores dificuldades. Aqui e ali já se ouvem críticas de que ela haveria sacrificado excessivamente sua agenda política, em troca do posto de premier".

O conservador italiano Corriere della Sera é bem mais positivo: "É uma decisão histórica o fato de uma mulher da Alemanha Oriental assumir a liderança, e justamente num dos mais complicados e difíceis momentos da história recente. Cabe um hino de louvor à classe política do país. Após uma das campanhas mais impiedosas do pós-guerra ela fez jus a um resultado sem vencedores ou vencidos. Pondo de lado o conflito e os sentimentos de vingança pessoal, escolheu a estratégia de colaboração entre os grandes blocos partidários, como já ocorrera há 40 anos, quando a nação igualmente se encontrava numa difícil encruzilhada".

Sangrando pelo poder

Segundo o periódico francês de economia La Tribune, agora começa a parte mais difícil para a líder democrata-cristã: "Angela Merkel realizou com sucesso um duplo golpe. Ela entra para a Chancelaria Federal e afasta seu velho oponente Gerhard Schröder. [...] Esta foi a parte mais fácil. Seus correligionários e parceiros não se podem permitir um trabalho de recortes e retalhos, pois isto os recolocará inevitavelmente diante dos eleitores, dentro de seis meses ou um ano".

O suíço Basler Zeitung confirma essa visão: "O jogo de pôquer está longe do fim: Angela Merkel continuará tendo que sangrar em nome do poder. Uma chanceler debilitada à frente de uma Alemanha necessitada de reformas: não foi definitivamente isso o que os eleitores esperavam do pleito de setembro".

E a Tribune de Genève reforça: "As eleições de 18 de setembro só deixaram para os que lideram a Alemanha a escolha entre duas más soluções. A 'grande coalizão' a ser encabeçada por Merkel não é capaz de solver as dificuldades. Ela traz em si o cheiro característico desse tipo de aliança forçada pelas circunstâncias. Ela será instável, frágil e sem dúvida de curta duração. [...] Essa é a lei da coalizão: ela barra para Angela Merkel a 'virada liberal' que prometera".

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