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Brasil

Lula, fome e Fidel

Combate à desigualdade social e presença de Fidel são destaque na cobertura alemã da posse de Lula. Correspondente debocha da fome como prioridade e do rol de chefes de Estado estrangeiros que prestigiaram a cerimônia.

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Lula (à dir.) sobe a rampa do Palácio do Planalto com o vice-presidente José Alencar

Salvo raras exceções, a imprensa alemã acompanhou a posse do primeiro presidente de esquerda do Brasil sem dar grande destaque. Em parte, devido ao fuso horário e ao horário de fechamento dos jornais. Mas até mesmo os principais telejornais da Alemanha limitaram-se a noticiar na noite do dia 1º com imagens, mas sem dedicar muito tempo.

Editorial – A edição do dia 2 do prestigiado Frankfurter Allgemeine Zeitung, por exemplo, não fala da troca de poder em Brasília, mas dedicou um pequeno editorial aos desafios de Luiz Inácio Lula da Silva, sem mostrar confiança no novo mandatário.

"Agora, no início de seu governo, uma onda de curiosa benevolência ou pelo menos de curiosidade benevolente o acompanha. Mas logo lhe baterão ventos ásperos no rosto. Mesmo com genialidade política sobre-humana e maioria ampla e estável no parlamento (o que lhe falta), Lula não poderá evitar decepções e sacolejos como conseqüência. Pois o eleitorado lhe deu um mandato contraditório – manter a economia de mercado, mas com maior justiça social. E Lula prometeu tudo a todos. É de se duvidar que disciplina financeira – indispensável para os credores e investidores estrangeiros – e melhores serviços sociais e salários mais altos serão possíveis de ser conciliados a curto prazo", escreveu o FAZ, de Frankfurt.

A opção de Lula por priorizar o combate à fome em seu governo, a presença do presidente cubano à posse e o clima de festa – "comparável à conquista da Copa do Mundo" – em Brasília foram os principais destaques dos artigos. A cobertura da revista Stern, de linha progressista, na internet ganhou até mesmo a manchete "Posse sob aplauso de Fidel Castro".

Deboche – Enquanto a grande maioria limitou-se a utilizar informações de agências, o diário regional Nürnberger Nachrichten foi dos poucos a publicar artigo de correspondente. Em seu relato, Carl D. Goerdeler mistura compreensão e deboche com o momento histórico brasileiro: "Do exterior, compareceram à festa poucos convidados proeminentes, tais como Fidel Castro (Cuba), Hugo Chávez (Venezuela) e Eduardo Duhalde (Argentina), que não conseguem incondicionalmente convites em outros lugares".

Em sua reportagem Um legítimo proletário vira presidente, o jornalista radicado no Brasil diz que, após o momento de "Gata Borralheira" do novo líder da nação, ainda resta de Lula "um homem autêntico". Mais adiante, Goerdeler ridiculariza o ambiente emocional dos últimos meses no Brasil. "Desde a entorpecente vitória eleitoral, os meios de comunicação trazem todos os dias um novo capítulo da telenovela Do Proletariado à Presidência; de alguma forma é comovente ver Lula se rompendo em lágrimas em sua diplomação como chefe de Estado, seu segundo diploma depois do certificado de formação como metalúrgico."

Prioridade questionada – A dramática situação de miséria de grande parte da população brasileira é ressaltada em quase todas as matérias. Entretanto, não na do Nürnberger Nachrichten. "A primeira meta do governo, extinguir a fome, é naturalmente simbólica. Primeiro porque o Brasil não é a Etiópia, nem Afeganistão; segundo porque o gigante tropical dispõe de recursos e instrumentos suficientes para encher as bocas", escreveu Goerdeler, para lembrar em seguida que a desigualdade social brasileira também era reconhecida pelo antecessor de Lula, "o professor poliglota Fernando Henrique Cardoso", que mesmo assim "pouco pôde mudar" neste aspecto.

Ao abordar dificuldades que o presidente petista terá pela frente em seu mandato, o enviado usou novamente palavras fortes: "Por exemplo, os servidores públicos, cujas aposentadorias saqueiam o Estado. Ou a moral tributária, inexistente no Brasil". Goerdeler considera que a equipe de Lula "faz boa figura", mas, ao referir-se a Gilberto Gil, duvida da longevidade de um artista no governo.

Gafes alemãs – "Se a aventura do incômodo bardo vai dar certo à mesa de gabinete, ninguém sabe. Também o deus do futebol Pelé já foi ministro – por apenas poucos meses", concluiu erradamente o correspondente do diário bávaro. Pelé exerceu o cargo por quase todos os quatros anos do primeiro governo FHC.

Não foi o único escorregão da cobertura alemã. O próprio correspondente do regional Nürnberger Nachrichten equivocou-se ao dizer que Lula foi diplomado pelo "tribunal constitucional" (no caso brasileiro, o STF), quando na verdade a diplomação cabe ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Já o Süddeustche Zeitung disse que os EUA vêem o Brasil "como importante aliado para a criação da Zona de Livre Comércio do Atlântico Norte", em vez de das Américas.

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