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Cultura

Livro "Prisão" revela lado humano do cotidiano carcerário

Joe Bausch tem status de personalidade da mídia na Alemanha. Atuante durante 25 anos como médico penitenciário, ele reuniu suas experiências em livro. Jamais patético, o resultado é revelador e humanamente tocante.

Ao todo, Joe Bausch passou cerca de 12 anos de sua vida atrás de grades. Não como detento, mas como médico de presídio. Hermann-Joseph Bausch-Hölterhoff é diretor-médico do governo na Penitenciária de Werl, onde atua profissionalmente há 25 anos. No entanto, ele é bem mais conhecido na Alemanha por suas aparições na televisão: ele representa o legista Dr. Joseph Roth na série criminal Tatort, de Colônia, além de ser convidado frequente em talk shows.

Com o sumário título Knast (Prisão), acaba de ser lançado na Alemanha, pela editora Ullstein, o livro de Bausch sobre o seu dia a dia profissional. Não se trata de um autobiografia, mas sim de uma documentação abrangente, trazendo pontos de vista e comentários pessoais.

Estreiteza angustiante

"Cada cela tem, mais ou menos, 3,50m de comprimento, 2m de largura e 2,50m de altura. São quatro passos, da porta à janela." Joe Bausch mede com precisão de centímetros o espaço vital dos presidiários, da cama até o sanitário. O aperto é sensível, assim como a impossibilidade de escapar dele.

Joe Bausch

Autor Joe Bausch

Todos os sentidos são afetados. O cheiro de prisão – uma mistura de cera de assoalho, fumaça fria de cigarro, suor masculino, sabão em barra e comida queimada – fica impregnado para sempre na memória de cada detento e de cada guarda penitenciário. Através da precisão distanciada de descrição do autor, fica imediatamente compreensível por que o presídio é um lugar de agressão e depressão. Bausch vivenciou 50 suicídios, em seus 25 anos de serviço.

E as celas individuais ainda são a melhor alternativa. As numerosas celas coletivas significam a perda da possibilidade de se recolher, a perda da privacidade. Aqui entram em choque personalidades, etnias e crenças religiosas contrastantes. "As possibilidades de achicanar um companheiro de cela são numerosas, praticamente não há limites para a imaginação. Para a maioria dos penitenciários, ser colocado numa dessas celas coletivas é a própria definição do inferno na prisão."

Galeria de tipos

O que Bausch descreve ultrapassa todos os clichês. Sua função como médico penitenciário e pessoa de confiança sob juramento de sigilo lhe permite penetrar em processos normalmente ocultos. Ele fica sabendo sobre dependências de drogas, chantagens e estupros. Tudo isso é relatado sem sentimentalidade nem minimização, mas com muita empatia.

Os criminosos permanecem criminosos. Contudo, o médico legista rechaça radicalmente a noção ultrapassada de culpa e expiação, que ainda é muito difundida e nega aos autores de crimes graves todo direito a melhores condições nas penitenciárias. O pessoal também é vítima do sistema das prisões: a supervisão deficiente para os vigilantes é o outro lado da moeda da falta de possibilidades de terapia para os detentos com distúrbios de personalidade.

Com a mesma precisão com que relata o cotidiano presidiário, Bausch descreve a tipologia dos criminosos. Condenados por abuso sexual infantil chamam a atenção no presídio por tentar, a todo custo, não chamar a atenção. Assaltantes e ladrões são cuidadosos e temerosos. Violentadores geralmente têm pouca capacidade de empatia. Já os assassinos são francamente afáveis. Comparativamente, eles são os que suportam a prisão com maior facilidade, por estarem conscientes da gravidade de seu ato e por não se rebelarem contra o próprio destino.

Histórias perturbadoras

Ao lado desse catálogo de tipos humanos, Joe Bausch apresenta um bom volume de estatísticas. Nas prisões da Alemanha há 75 mil delinquentes masculinos, porém apenas 5 mil internas. As mulheres se voltam para o crime com menor frequência e de maneira diferente. Elas são menos cruéis: quando cometem homicídio, o procedimento é mais organizado, decorrente de uma decepção ou em reação a anos de humilhação. Entre as presas, 70% são viciadas em narcóticos.

Buchcover Knast von Joe Bausch

Capa de "Knast"

O médico legista mostra quem se encontra nas prisões e como chegou lá. A maior parte desses insights é apresentado com distância sóbria. Entre eles, Bausch intercala pequenos retratos de detentos que o tocaram em especial. Ele conta sobre campeões de fugas e sobre figuras curiosas como Berti, vigarista charmoso e sedutor de mulheres, para quem a penitenciária se tornou um lar, em mais de 30 anos de pena.

Outras histórias são profundamente perturbadoras. Como a de um jovem que se torna soropositivo atrás das grades, após ser estuprado. Ou a de uma mulher saída de um lar estritamente católico, onde a sexualidade era tema tabu: totalmente desorientada por estar grávida, ela se enchia de comida para esconder seu estado, e matou o bebê logo após o parto. Ou como, após um aparente acesso de epilepsia, um negro africano revela ao médico da prisão seu passado como criança-soldado.

Sede de entender

Cada um tem a sua história individual, que demonstra: "A prisão é a realidade, um espelho da sociedade, como um todo. Quem é lançado aqui, não pertence, de forma alguma, à escória da Alemanha, à classe inferior de uma sociedade globalizada. Aqui ocorre o choque frontal de mundos que, em liberdade, jamais teriam pontos de contato".

Quando, no fim do livro, o autor cita resultados de pesquisas de neurologistas e biólogos moleculares que estudam o comportamento de delinquentes, a impressão é de algo forçado e simplesmente justaposto. Entretanto essa é também uma amostra de que o médico nascido em 1953 não se cansa de tentar entender seus pacientes e a razão última que leva um ser humano a se tornar criminoso. Bausch pleiteia uma prevenção abrangente, que inclua crianças e adolescentes. Segundo sua experiência, a melhor forma de combate ao crime é evitar que ele aconteça.

Em 284 páginas, Joe Bausch consegue penetrar fundo numa instituição cuja vida interna permanece oculta e que raramente atrai para si o interesse público. No processo, não só se aprende muito sobre a história do sistema carcerário do país, como também sobre aspectos fundamentais do desenvolvimento da personalidade e sobre a pluralidade da sociedade contemporânea.

Autoria: Günther Birkenstock (av)
Revisão: Carlos Albuquerque

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