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Cultura

Literatura que volte à matéria-prima do humano

A cultura é a missão de Alexander Kluge. Pensador irriquieto e multitalento, e tendo recebido prêmios de cinema e TV, ele agora conquistou o grande prêmio literário Georg Büchner.

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Alexander Kluge (esq.), com o mecenas Jan P. Reemtsma na entrega do prêmio

Seu passado como um dos pais do novo cinema alemão, na década de 60, e sua atuação como produtor de programas de cultura nos canais comerciais de TV ofusca um pouco o escritor Alexander Kluge. Há três anos veio o sucesso nesse terreno, com a publicação da Crônica dos Sentimentos, obra em dois volumes elogiada pela crítica como uma boa mescla de relato, invenção e reflexão.

O diabo e a brecha

Seu último livro, recém-publicado, Die Lücke, die der Teufel lässt (A brecha que o diabo deixa), também foi coberto de elogios. O curioso é que o incansável Alexander Kluge é autor ainda de textos teóricos. "Para isso eu sempre procuro um co-autor", disse em uma entrevista. Com o sociólogo Oscar Negt, Kluge trabalha há mais de 30 anos, tendo escrito com ele desde seu primeiro livro, Öffentlichkeit und Erfahrung (Opinião Pública e Experiência), de 1973, até Geschichte und Eigensinn (História e Obstinação), publicado em 2001.

Em uma longa entrevista ao semanário Die Zeit, Alexander Kluge expôs como encara a literatura. Perguntado sobre o narrador, que de certa forma desaparece em seus contos, respondeu: "Uma diversidade sem o 'eu'! Um dos capítulos (do último livro) se intitula "O homem sem cabeça". Eu tenho um grande respeito pelos sentimentos e seu anti-realismo. Quando o ser humano se depara com algo que não suporta, fica com uma alergia de pele. Ele é alérgico a desgraças. É preciso reconhecer esse anti-realismo do ser humano. O 'eu', no caso, comporta-se como um espantalho".

Voltar às conversas simples

Alexander Kluge faz a apologia da inteligência emocional. Depois, falando das "brechas", que são comuns a vários contos, diz que o escritor só é responsável pela perspectiva e chama o que faz de antiliteratura. "Se a literatura não está em condição de fazer algo contra o fascismo, disse Adorno, então temos que enriquecê-la. Então temos que voltar à matéria-prima da literatura. E, mais próximos da matéria-prima, construir as novas ruas sob as condições mais simples."

Em outra passagem, explica melhor o que faz: "Hoje algo falta na literatura, e há algo demais dentro dela. Eu quero regressar àquilo sobre o que as pessoas conversam, quando fazem suas experiências e aprendem com isso; voltar à conversa entre a mãe e a criança, à conversa sobre uma relação de amor." Algo simples.

Sua utopia é tornar a unir poesia e ciência, então "poderemos construir novamente a autoconsciência intelectual de que precisamos, a capacidade de inteligência do cidadão comum". As brechas em que situa sua literatura são para alimentar a esperança de que essa nova consciência consiga fazer "outras coalizões de emoção, inteligência e sociabilidade". Sua procura é da "última saída, nesta realidade-prisão, da qual não consigo sair como ser humano".

De arte, Proust e uma arca lotada

A poesia é emoção condensada. E arte é compressão. A questão é contar as histórias, mesmo que repetidas, sob o fluxo da época atual. "Proust escreveu o que precisava ser escrito sobre as relações humanas no século 20. Não é preciso repeti-lo", disse Kluge, lembrando o que Adorno, seu professor, lhe dissera: que não adiantava escrever histórias, porque nunca o faria melhor do que Proust.

De fato, "a literatura é uma arca de Noé, que está totalmente lotada", constata o escritor. Não obstante, reconhece que "o princípio da modernidade é a recriação, a nova construção. Para isso, é preciso dar sentido, contexto. Eu experimento isso como um morcego que percebe o espaço a partir do eco do som emitido nas paredes. Uma história, uma tonalidade, influencia a outra, como numa partitura."

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