1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Brasil

Libreto visual resgata tradição da Poesia Concreta brasileira

A brasileira Simone de Mello, autora do libreto da ópera "O Cristal de Orfeu", falou a DW-WORLD sobre o processo de criação, a realização e a reação do público e dos internautas.

default

Cena de «O Cristal de Orfeu»

O que distingue o libreto de uma ópera concebida para duas mídias – o palco e a internet – do de uma ópera convencional?

O paralelo entre o uso da linguagem verbal na ópera e nas novas mídias é a sua dependência direta de outras linguagens: a visual e/ou cênica, a musical e/ou dramatúrgica. O espectador do teatro musical e o usuário da internet experienciam a palavra de forma necessariamente fragmentária e procuram construir o sentido do (hiper)texto em associação com a imagem e o som. Partindo deste princípio, escrevi um libreto visual, resgatando uma tradição fundamental da literatura brasileira contemporânea, a Poesia Concreta.

Por um lado, os textos visuais colocam o leitor/ouvinte na posição de Orfeu, em busca de Eurídice, em busca do sentido. Os labirintos do Orco se traduzem em estruturas hipertextuais, que podem ser lidas em diversas direções, estruturas que rompem a linearidade, para produzir outras camadas de sentido, apontando para certas possibilidades musicais.

Por outro lado, o libreto também funciona como uma máquina de busca, que associa arbitrariamente diferentes motivos da mitologia por meio de coincidências visuais/simbólicas: o tabu do olhar de Orfeu e o olhar mortal da Medusa; a cobra que matou Eurídice e que levou Tirésias se transformar em mulher; as imagens femininas que se sobrepõem na memória de Orfeu; o argonauta que "ofuscou" a voz das sereias com sua música e foi esquartejado pelas fúrias.

A concepção do libreto parte do pressuposto de que a comunicação – entre Orfeu e Eurídice, entre o observador/espectador e a obra-de-arte – não pode ser dissociada do ruído da mídia. O espectador procura decifrar os fragmentos de linguagem, assim como o Orphée de Cocteau procura sintonizar as mensagens do Orco no rádio do carro. A própria operação da música em relação à palavra também é uma operação arqueológica: através de estruturas microtonais e de uma dramaturgia musical repleta de sutilezas, o compositor Manfred Stahnke descobriu nesses fragmentos órficos outras camadas de sentido, um sentido sinestésico, muitos outros cristais de Orfeu.

Leia mais