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Mundo

Liberdade de expressão não é valor absoluto, diz Leonardo Boff

Em entrevista exclusiva à DW-WORLD, o teólogo Leonardo Boff critica sátiras sobre símbolos religiosos. Ele avalia também o diálogo intercultural entre o Ocidente e o mundo muçulmano e o ecumenismo pregado por Bento 16.

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Boff pede diálogo sério entre Ocidente e mundo muçulmano

O teólogo Leonardo Boff, que foi punido pelo Vaticano em 1985 por causa da Teologia da Libertação, negou-se esta semana a fazer um balanço do primeiro ano de pontificado de Bento 16. "É muito cedo para avaliar o papa que me parece de transição", disse apenas. Durante uma conferência sobre "Encontro e Aliança de Civilizações", em Granada, na Espanha, ele falou com a DW-WORLD sobre sátiras envolvendo símbolos religiosos e o diálogo intercultural entre o Ocidente e o mundo muçulmano.

DW-WORLD : Na Alemanha, a emissora MTV pretende transmitir em breve o desenho animado Popetown , uma sátira sobre o papa e o Vaticano. O que o senhor acha desse tipo de sátira sobre religião ou símbolos religiosos?

Leonardo Boff: Nós vivemos num mundo cheio de conflitos e buscamos elementos comuns que permitam à humanidade viver na casa comum que é o planeta Terra. Todos os valores e práticas que apontam para esta meta devem ser incentivados. Tudo o que divide e ridiculariza fontes de valores, que são as religiões, vai a contracorrente dessa busca universal. Existe na sociedade o lugar para a sátira e o humor, mas tudo tem o seu limite, especialmente quando essa sátira afeta valores ou figuras que encarnam o sagrado, como Maomé, o papa ou outro líder religioso.

Qual é o limite tolerável para a liberdade de expressão?

A liberdade de expressão não é um valor absoluto. Ela se situa dentro dos valores da sociedade e tem os seus limites. Considero algo de muito mau gosto fazer sátira, no caso da MTV, sobre o papa e o Vaticano. Primeiro, porque ofende a fé de milhões de católicos; segundo, porque ofende dimensões do sagrado ligado a essas pessoas e instituições. Outra coisa seria fazer a crítica do abuso de poder, do excesso de centralização da Igreja, mas numa linguagem adequada à natureza da religião, que sempre impõe respeito, tolerância e um senso de limite.

Pode ocorrer uma onda de sátiras sobre o Cristianismo e outras religiões, depois da repercussão que teve a briga sobre as caricaturas de Maomé?

A lei fundamental que rege as sociedades atuais é prescrita pelo mercado. Tudo vira mercadoria, do sexo à Santíssima Trindade. Essa mercantilização de todas as instâncias da sociedade pode levar a que se faça negócios em cima de sátiras e expressões que ridicularizam as autoridades. A sociedade tem que fazer uma autocrítica e perguntar quais são os limites. Quando estes são rompidos, estamos próximos do crime e da ruptura da coesão social. A vida e valores que dão sentido à vida e mobilizam milhões de pessoas não podem se transformar em objeto de comercialização. Acho que fenômenos como esses mostram o nível de decadência que a cultura ocidental hoje está atingindo.

Deveria haver censura ou autocensura nesse caso?

Não se trata de censura ou autocensura e, sim, de uma legislação onde uma sociedade define para si o que é permitido e o que não é permitido. Por exemplo, é claro hoje que não podemos fazer nenhuma propaganda nazista ou que incentive o terrorismo, a discriminação dos negros ou dos portadores de HIV. Tudo isso são ações criminosas, que a legislação pune, e com isso protege a sociedade. É importante que haja sempre a autocrítica, mas que a censura se faça no interior da sociedade.

Durante a polêmica das charges de Maomé, o senhor disse que a fé do Islã questiona o Ocidente. Em que sentido?

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O Ocidente entrou num processo acelerado de secularização. Como já disse Nietzsche, Deus morreu; ele não funda mais valores nem cria coesão social. A secularização não eliminou a religião, o sagrado, mas o entregou à subjetividade e à individualidade. Nessa concepção, a liberdade religiosa é a liberdade de não ter religião ou fé.

Já a cultura muçulmana diz que o principal nos seres humanos é que eles se entendam como irmãos e irmãs na grande comunidade humana, fundada na crença de que deus – Alá – é o criador do céu e da terra e nós somos todos irmãos. E que não é possível uma sociedade fraterna sem esse princípio. Quando o Ocidente critica essa referência – no caso Maomé – atinge o coração da compreensão social da cultura muçulmana e ofende um bilhão de pessoas.

Assim como seria terrível para nós, se os muçulmanos dissessem que a dignidade humana não tem valor, que os direitos humanos são uma invenção ocidental burguesa, que as liberdades não têm validade. Tudo isso seria uma agressão às convicções mais fundamentais da cultura ocidental. Ora, nós estamos fazendo algo semelhante com a cultura muçulmana. Daí a necessidade de aceitar e respeitar as diferenças e tentar entender as razões por que os muçulmanos pensam e organizam suas sociedades dessa forma.

Leia o que Leonardo Boff pensa sobre o diálogo Ocidente-Oriente e o ecumenismo pregado por Bento 16.

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