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Mundo

Lesbos acolhe refugiados entre carência e solidariedade

Com afluxo diário de milhares de migrantes, ilha grega e seu cemitério estão sobrecarregados. Como contraponto, autoridades locais, ONGs e moradores reúnem esforços em meio à crise.

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Campo de acolhimento na localidade de Moria

Agios Panteleimonas é um santo conhecido da Grécia pelos milagres praticados e pela firmeza de sua fé. Nestes dias, porém, não se presenciam muitos prodígios divinos no cemitério que leva seu nome em Mitilene, capital da ilha de Lesbos.

Lá os túmulos são dispostos em três níveis, começando com os mais nobres até os mais pobres, na parte de trás. Agora existe uma nova categoria, para além das covas dos mais miseráveis: as sepulturas dos refugiados. Num canto bem no fundo da vasta necrópole veem-se montes de terra dispostos num ângulo diferente dos demais túmulos, com pedaços de mármore servindo de lápide.

"Nossos mortos são enterrados com a cabeça para o leste", explica Christos Mavraheilis, da administração do cemitério. "Mas os muçulmanos pediram para os mortos deles ficarem voltados para Meca."

Os túmulos são marcados com um número de série, a data do sepultamento e indicações como "Menor desconhecido" ou "Afegão desconhecido". É o último repouso para os que não conseguiram completar com sucesso a perigosa travessia da Turquia até Lesbos, na Grécia.

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Pedaços de mármore indicam refugiados não identificados no cemitério de Mitilene

"Não estamos ficando lotados, nós já estamos completamente sem lugar", afirma Mavraheilis. Uma organização filantrópica local assume os trâmites dos funerais. Amostras de DNA são retiradas no hospital, na esperança de que um dia se consiga encontrar os parentes.

Diversos corpos identificados aguardam a repatriação, e já há outros na fila para tomar o seu lugar no cemitério. "Não sobrou nem um centímetro de espaço", reforça Mavraheilis, apontando para um túmulo recente.

"Eles nos trouxeram esse corpo outro dia, implorando para o enterrarmos, embora não houvesse espaço. Mas eu não sei o que vamos fazer de agora em diante. Principalmente quando enterramos uma criança, as mães daqui também choram. Somos todos humanos: eles deixaram a terra deles por um amanhã melhor, que nunca chegaram a ver."

Valores humanos inegociáveis

Todos os dias, as embarcações continuam avançando pelo oceano em direção a Lesbos. Até os últimos metros antes de aportarem, o clima é tenso. Então, percebendo que estão finalmente salvos, os passageiros lançam ao mar seus barcos infláveis e começam a bater palmas e dar vivas – para deleite da imprensa que inevitavelmente se concentra na praia.

O porta-voz da prefeitura de Mitilene, Marios Andriotis, conta que na sexta-feira anterior a ilha quebrou o próprio recorde de chegadas: apesar dos ventos fortes e da chuva torrencial, cerca de 9,5 mil pessoas aportaram em mais de 180 barcos de plástico.

Agora foram abertas mais duas centrais de acolhimento na ilha, em Sikaminias e Mandamados. Devido ao volume de recém-chegados, dias antes o acampamento de refugiados de Kara Tepe foi reaberto para o registro das famílias sírias.

Andriotis comenta que as autoridades de Lesbos ficaram felizes ao ver, recentemente, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, repetir algo que eles vinham dizendo há meses em suas propostas para os responsáveis na União Europeia: que "sob nenhuma circunstância" se deveria relegar a gestão da crise para os traficantes de pessoas.

"Porque neste momento é isso que estamos fazendo", condena o porta-voz. "Achamos negativo o fato de o governo turco ficar negociando o que pode obter em troca de coibir esse crime. Consideramos inegociável a segurança de mulheres e crianças que se afogam sob as vistas da Europa. Precisamos abrir canais para essa gente passar, de forma segura e legal."

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Voluntários descansam ao lado de coletes salva-vidas enquanto monitoram chegadas a Sikaminias

Choque de interesses

O número dos refugiados em trânsito por Lesbos em 2015 já ultrapassou a marca do meio milhão. Em Moria, no principal centro de registro da ilha, as condições são deploráveis. Frágeis tendas se alastram em todas as direções, a partir da área cercada. O ar está pesado com a fumaça rançosa das fogueiras feitas com pedaços de madeira e plástico, cujas chamas saltam em proximidade alarmante das barracas.

Quando os portões da central se abrem, há alvoroço para entrar e os ânimos se inflamam. Voluntários estressados tentam conduzir os refugiados em direção às roupas secas. "Não temos mais nada para dar a eles neste momento", justifica-se Susan Penninkhof, da recém-fundada ONG holandesa Live for Lives, enquanto tenta se fazer entender.

Nas praias de Skala Sikaminias, no norte de Lesbos, um estranho microcosmo de voluntários, pessoal de mídia e catadores de lixo se reúne, dia e noite. Eric e Philippa Kempson, um casal inglês que vive no local, descrevem os problemas que têm com fotógrafos agressivos; com grandes ONGs que criaram campanhas de angariação de fundos em cima da crise migratória, sem direcionar as verbas para a ajuda; e com as ONGs menores que vem surgindo, trazendo suas próprias exigências.

"Certos grupos querem controle exclusivo da praia", conta Eric. "Não é assim que funciona. A praia é de todos." O casal encara um dia atrás do outro, repetindo sempre a mesma rotina de se levantar com o nascer do sol e ir resgatar os migrantes dos barcos. "Hoje foi um bom dia, não perdemos ninguém", alegra-se Philippa.

Símbolo da solidariedade grega

Sentada num banco do lado de fora do campo de Sikaminias, está Marissa Mavrapidou, de 83 anos. Uma imagem dela e amigas consolando um bebê refugiado espalhou-se recentemente pelas redes sociais gregas, transformando-as num símbolo de bondade perante a miséria.

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Octogenária Marissa Mavrapidou (esq.): "Não posso fazer muito, mas posso oferecer meu sorriso"

Marissa conta as circunstâncias em que a fotografia foi feita: "A mãe tinha acabado de chegar e estava ensopada. Ela tinha um bebê pequinininho, de umas seis semanas de idade. Com gestos e sinais, nós dissemos a ela para deixá-lo conosco e ir se trocar. O bebê estava irritado, então, explicamos à mãe para ir pegar uma mamadeira de leite quente. Quando ela estava pronta, ele bebeu tudo."

"Nossas mães eram refugiadas da Ásia Menor", prossegue a octogenária. "Elas nos contavam muitas histórias sobre a vida delas, e nós nunca as esquecemos." Essas histórias de família incentivaram as senhoras a ir até o acampamento diariamente e oferecer todo tipo de alento possível. "Não há muito que eu possa fazer, mas posso oferecer um sorriso", admite Marissa.

No último domingo (25/10), a Grécia e a União Europeia fecharam um acordo segundo o qual o país acolherá 30 mil refugiados até o fim do ano, e a ONU proverá outras 20 mil acomodações. É uma tentativa de lidar com esse enorme afluxo humano, que não dá mostras de arrefecer.

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