Latinos, europeus e futebol: da independência à interdependência | Notícias sobre a América Latina e as relações bilaterais | DW | 25.03.2010
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América Latina

Latinos, europeus e futebol: da independência à interdependência

O futebol chegou à América Latina no final do século 19. Mais de cem anos depois, as relações voltadas ao esporte entre Europa e América Latina movem multidões de torcedores e milhões de euros.

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Vários países disputam entre si a paternidade do esporte mais popular do mundo. Existem indícios de que um jogo semelhante já era praticado há 2 mil anos na China. Longe de lá, muito antes de serem descobertas pelos espanhóis, as culturas maia, misteca e teotihuacan provavelmente já disputavam diferentes competições com bolas no território que hoje compreende o México.

Algumas eram derivadas do ollama, um esporte praticado pela camada nobre da sociedade asteca. Não era bem um jogo, mas um ritual às vezes violento, em que uma bola sólida e compacta era golpeada com os ombros, joelhos e cintura. O objetivo era fazê-la entrar em um aro. Em alguns casos, a derrota implicava a morte.

O ollama era disputado em uma quadra chamada tlachtli, em pedra vulcânica áspera. Inspirado pela prática, o alemão Hermann Heim escreveu o livro homônimo com relatos sobre o ollama.

Do ritual ao esporte

Independentemente de qual tenha sido a origem do futebol, é certo que as primeiras tentativas de estabelecimento de regras para o novo esporte ocorreram na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, em 1843.

O legendário Diego Armando Maradona beija a mão do brasileiro Ronaldinho no Estádio Nacional de Pequim, na China, em agosto de 2008

Reverência de Maradona a Ronaldinho em agosto de 2008

O FC Sheffield é considerado o primeiro clube de futebol moderno, tendo sido fundado em 1857 na cidade inglesa de mesmo nome. A primeira partida entre duas cidades foi realizada, entretanto, apenas em 1866, entre Sheffield e Londres.

No ano seguinte, surgiu o primeiro clube de futebol na América Latina: o Buenos Aires Football Club. Acredita-se que o futebolista inglês Charles Miller tenha sido o responsável por levar o esporte às terras brasileiras, mais especificamente a São Paulo, em 1894. Pouco mais tarde foi fundada em Paris a Federação Internacional de Futebol Associado (Fifa).

Na Alemanha, o Hertha Berlim foi criado em 1892; o Stuttgart, em 1893; o Hannover, em 1896; e o Eintracht Frankfurt, em 1899. Alguns destes clubes alemães não começaram como equipes de futebol. Eles funcionavam como associações de canoagem e outras modalidades.

Refluxos colonialistas

Por volta de 1810, quando os atos independentistas se espalharam pela América Latina, o futebol não existia como o conhecemos hoje. Analisando o contexto histórico, pode-se afirmar que o desenvolvimento do futebol na região está relacionado aos últimos refluxos do colonialismo que sobreviveu às lutas pela independência.

O argentino Lionel Messi, eleito melhor jogador do mundo pela FIFA em 2009

Messi, o melhor jogador de 2009

Também foi um fenômeno derivado da expansão comercial e industrial, pois foram marinheiros, mineradores ou trabalhadores ferroviários britânicos que fundaram os primeiros clubes e popularizaram o esporte na América do Sul e na América Central.

A independência

Hoje em dia, ninguém duvida que a América Latina tenha conquistado a independência futebolística e seu próprio lugar no mundo do esporte. Nove títulos em campeonatos mundiais e figuras históricas como Alfredo di Stefano, Edson Arantes do Nascimento (Pelé) e Diego Armando Maradona são grandes evidências disso.

Nos times classificados para a fase de grupos de 2010 da Liga dos Campeões, o principal torneio mundial de clubes, estão 120 jogadores latino-americanos – dos quais 66 são brasileiros.

Segundo estudos econômicos relacionados ao mercado mundial de futebol feitos pela Universidade de Navarra, na Espanha, três dos dez jogadores mais bem pagos do mundo são latino-americanos. O argentino Lionel Messi é o primeiro da lista; o brasileiro Kaká vem em terceiro, e o também argentino Carlos Tévez é o décimo colocado.

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Ricardo dos Santos Leite, o Kaká, estrela do futebol na Europa

Em 2009, Lionel Messi ganhou o prêmio Bola de Ouro ao ser eleito melhor futebolista da Europa pela revista France Football. Logo depois, o argentino de 22 anos foi reconhecido como o melhor jogador do mundo em votação convocada pela Fifa.

Além disso, "mil jogadores brasileiros saem do seu país a cada ano com destino a todas as regiões do mundo", afirmou à Deutsche Welle Lars-Wilhelm Baumgarten, diretor do Stars and Friends, consórcio internacional com sede na Áustria que representa jogadores como o alemão Simon Rolfes, do Bayer Leverkusen, e o bósnio Vedad Ibisevic, do Hoffenheim.

A interdependência

Apesar das alegrias que o futebol propaga, a realidade do esporte no século 21 é dura. Baumgarten esclarece: "Desde muito cedo, os jogadores latino-americanos têm uma meta: entrar no hemisfério mais rentável do mundo futebolístico, ou seja, emigrar à Ásia ou à Europa". O epicentro da atividade futebolística mundial continua, portanto, nas terras europeias.

Vários dados confirmam Baumgarten. Os dez clubes de maior valor no mercado midiático do mundo são europeus – o alemão Bayern de Munique é o nono da lista. Da mesma forma, encabeçados pelo escocês Sir Alex Ferguson, os dez treinadores mais bem pagos do planeta são europeus.

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Pelé, figura carismática do futebol brasileiro

Outros números demonstram melhor a relação entre Europa e América Latina nesse mercado. No último verão do Hemisfério Norte, clubes europeus adquiriram 125 jogadores com valor acima de 4 milhões de euros. Ao todo, clubes do Velho Mundo investiram 1,4 bilhão de euros na contratação de jogadores profissionais de futebol – muitos deles provenientes de outros continentes.

Ao mesmo tempo, clubes europeus como o Real Madrid e o Bayern de Munique tentam entrar em novos mercados, como as potências emergentes da América Latina e a China, onde o time da Baviera já dispõe de sete fãs-clubes oficiais – dois deles no Brasil.

Esses dados indicam quão atraente é o mercado futebolístico europeu para os latino-americanos que se dedicam profissionalmente ao esporte e àqueles que os representam. Por isso, pode-se dizer que a relação entre os continentes é de uma interdependência marcante.

Será que a tendência globalizadora do comércio internacional também seguirá evidente no futebol? Lars-Wilhelm Baumgarten responde: "Claro que sim. Ambas as regiões estão unidas por uma intenção comum, que é deixar o futebol cada vez melhor. A integração entre os continentes, porém, ainda não deve acontecer pelo menos nos próximos dez anos".

Autor: Enrique López Magallón (eh)

Revisão: Roselaine Wandscheer