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Alemanha

Julgamento para esclarecer tráfico de tecnologia nuclear

Primeiro julgamento do mundo envolvendo um suposto membro da máfia nuclear global teve início em Mannheim, despertando indesejado interesse pelo papel de empresas alemãs na exportação ilegal de tecnologia nuclear.

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Plutônio armazenado em depósito na Alemanha: exportação lucrativa?

Um mercado negro global de armas atômicas, uma obscura rede de líderes e intermediários, envolvendo continentes e ditadores dispostos a pagar bilhões pela bomba – pode parecer a trama de um filme de ação. Mas trata-se do contexto real de um julgamento aberto nesta sexta-feira (17/03) na cidade alemã de Mannheim, no qual um engenheiro e executivo alemão está sendo acusado de violar leis de controle armamentista e de exportação.

Abdul Qadeer Khan

Abdul Qadeer Khan, fundador do programa nuclear do Paquistão

Gotthard Lerch é o primeiro suposto membro da máfia nuclear global liderada pelo cientista paquistanês desacreditado Abdul Qadeer Khan a ser levado a julgamento. O réu é acusado de fornecer centrífugas, manuais e sistemas de controle para fabricação de bombas atômicas ao líder líbio Muammar Kadafi no ano 2000. De acordo com a Promotoria de Mannheim, Lerch teria recebido 55 milhões de marcos alemães (28 milhões de euros) por serviços prestados, obtendo um lucro de 25 milhões de marcos.

"Wal-Mart do mercado negro da proliferação"

A informação veio à tona pela primeira vez quando um navio alemão com destino à Líbia foi interceptado em outubro de 2003, levando um carregamento de equipamentos nucleares.

Muammar Gaddafi

O líder líbio, Muammar Kadafi

Na época, a delicada situação causada pelo confisco obrigou Kadafi a divulgar os nomes de todos os fornecedores de tecnologia e expertise para o programa nuclear de Trípoli. Isso, por sua vez, escancarou detalhes sobre a rede global de tráfico de armas de Khan e o oferecimento de tecnologia nuclear aos regimes do Irã, da Coréia do Norte e da Líbia.

Khan, também conhecido como o "pai da bomba atômica paquistanesa", teve que se desculpar publicamente ao povo paquistanês no início de 2004, sendo submetido à prisão domiciliar. Desde então, buscas e prisões em diversos países da Ásia e da Europa, além da África do Sul, levaram as autoridades a compreender o que o chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohammad el Baradei, chamou de "um verdadeiro Wal-Mart do mercado negro da proliferação [nuclear]".

Atenção indesejada

Embora a Alemanha seja o único país no qual foi aberto inquérito para investigar as operações da rede nuclear de Khan, não se pode negar que o processo atrai atenção indesejada quanto ao seu envolvimento em um caso de contrabando ilegal de material nuclear.

Através de intermediários e empresas em diversos países europeus, companhias e cidadãos alemães forneceram equipamentos, materiais e conhecimento tecnológico para programas nucleares no Paquistão, na Coréia do Norte e em outras nações aspirantes a potências nucleares desde os anos 80.

Hatf-III erfolgreich getestet

Míssil paquistanês Hatf-III decola com sucesso em 2002

Na década de 80, autoridades alemãs investigaram ostensivamente o envolvimento de Gotthard Lerch na apropriação ilegal da planta de uma unidade conjunta teuto-britânico-holandesa de enriquecimento de urânio na Holanda. Aparentemente, foi quando ele entrou em contato com Abdul Qadeer Kahn. Lerch, no entanto, nunca foi condenado.

Erich Schmidt-Eenboom, escritor e especialista em agências de inteligência, considera dois possíveis motivos que justificariam o envolvimento da Alemanha. "Em primeiro lugar, a Alemanha detém a tecnologia de ponta necessária para o enriquecimento de urânio e, em segundo, é um país voltado à exportação", disse. "Some esse dois fatores e não será surpreendente encontrar empresas envolvidas. Sempre haverá ovelhas negras interessadas apenas nos altos lucros."

Problema é falta de recursos para controle

Ao mesmo tempo, pode ser que o problema não se deva a fracas leis de controle de exportação, mas a uma questão de recursos. Segundo Mark Hibbs, editor de Ásia e Europa da revista Nucleonics Week, a tática empregada por muitas empresas envolvidas no tráfico tira proveito das variadas diretrizes da União Européia para dissimular a origem dos equipamentos.

"No final dos anos 80, o governo alemão assumiu a dianteira na criação de leis de controle à exportação e na coordenação e harmonização dessas leis com as regras da UE", disse Hibbs. "Hoje, o principal problema é que as autoridades de controle não possuem recursos suficientes – e isso inclui logística, dinheiro, pessoal – para detectar operações de contrabando. Países interessados em importar tecnologia para seus programas nucleares se aproveitam disso para lograr o sistema."

Novos detalhes sobre o Irã?

Apesar da indesejada atenção que o caso traz à Alemanha, especialistas concordam que o significado do julgamento dessa sexta-feira não pode ser ignorado. "O processo é de extrema importância, pois chama a atenção da comunidade internacional para o problema da proliferação ilegal", explica Götz Neuneck, da Universidade de Hamburgo.

Iran Atomanlage in Isfahan Uran

Unidade de conversão de urânio no Irã

Segundo ele, o significado do inquérito só cresceu devido ao conflito internacional em torno do programa nuclear iraniano.

"Há inúmeras perguntas não respondidas nos relatórios da AIEA sobre o Irã", avisa, acrescentando que é fato conhecido desde os anos 80 que a máfia de Khan forneceu tecnologia nuclear a Teerã. "Seria excelente para a não-proliferação internacional se o julgamento pudesse divulgar detalhes e ajudar a iluminar cantos escuros."

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