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Brasil

Julgamento do mensalão pode afetar imagem de Lula, dizem especialistas

Processo pode marcar o fim da impunidade para crimes parlamentares e uma mudança no comportamento da classe política brasileira, avalia analista. Imagem da presidente Dilma não deve ser afetada.

Nesta quinta-feira (02/07), o Supremo Tribunal Federal brasileiro (STF) inicia o julgamento dos 38 réus de um dos maiores esquemas de corrupção da história da política do país, o mensalão. Para especialistas, o início do julgamento e o retorno do tema à mídia poderá desgastar a imagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que deixou o Palácio do Planalto com quase 80% de aprovação da população, e do Partido dos Trabalhadores (PT), partido da presidente Dilma Rousseff.

"Aparentemente Lula está muito preocupado com a imagem dele, tanto que ele fez lobby e pressão em cima de ministros do STF para adiar o julgamento para novembro", ressalta o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília, lembrando que alguns integrantes do suposto esquema já ameaçaram "abrir a boca", soltando mais detalhes que poderiam envolver diretamente o ex-presidente.

"Lula sempre alegou que foi traído, que não sabia de nada, que ficou sabendo de tudo pelos jornais. A população mais ou menos concordou com a afirmação do presidente, tanto que ele foi reeleito em 2006. Agora ele quer preservar sua imagem para a história", avalia o professor.

O cientista político Tim Wegenast, da Universidade de Constança, concorda que a imagem de Lula pode ser arranhada tanto dentro como fora do país, caso o julgamento receba a atenção da mídia internacional. Mas ele acredita que, apesar de Dilma pertencer ao mesmo partido de seu antecessor e da forte ligação dela com Lula, a presidente deve atravessar imune o processo do mensalão.

"O julgamento pode até fortalecer a Dilma dentro do PT, pois tem uma ala do partido que gostaria que Lula voltasse em 2014", afirma Wegenast, que também é pesquisador do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), em Hamburgo. "Ela tem uma imagem muito forte de renovação, de integridade, mais seriedade do que o Lula e o José Dirceu", avalia o especialista. "Claro que a imagem do mensalão está muito associada ao PT. Mas vale lembrar que, se não fosse o mensalão, a Dilma hoje não seria presidente."

Em seu segundo ano de mandato, Dilma vem buscando dar ao seu governo uma imagem de transparência e de combate à corrupção. Em 2010 ela demitiu seis ministros acusados de corrupção – a maioria com alguma ligação com o governo anterior. "Isso aumentou o prestígio dela perante o eleitorado", comenta Fleischer.

Lula da Silva

Lula ao lado do seu então chefe da Casa Civil, José Dirceu

Eleições municipais

Chamado por parte da imprensa brasileira como o "julgamento do século", o processo poderá se estender por até dois meses, alcançando assim o período das eleições municipais (para escolha de vereadores e prefeitos), que acontecem em outubro. Especialistas, no entanto, não acreditam que o julgamento afetará o pleito, que ajuda a desenhar o mapa político para a campanha presidencial em 2014.

Para Wegenast, partidos da oposição podem ganhar votos apenas nos casos em que envolvidos diretamente com o mensalão estejam concorrendo. Como no caso do ex-presidente da Câmarta dos Deputados João Paulo Cunha, hoje candidato a prefeito de Osasco, em São Paulo. Ele é um dos réus do processo no STF.

"As eleições municipais são muito distantes do centro do poder em Brasília, por isso duvido que haja algum impacto", concorda Fleischer.

O caso

Os 38 réus do processo vão responder pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, peculato e formação de quadrilha. "O julgamento vai mostrar que a imunidade parlamentar, que eu chamo de impunidade parlamentar, já caiu por terra, porque demostrou que o STF tem coragem de assumir e processar gente acusada de corrupção. Isso vai fazer com que a classe política tome muito mais cuidado e cautela em suas transações políticas", afirma Fleischer.

Denunciado em 2005 pelo então deputado Roberto Jefferson, o processo do mensalão é aberto sete anos depois do estouro do escândalo, batizado de mensalão por envolver o suposto pagamento mensal a deputados da base aliada do governo Lula.

A previsão é de que os juízes do STF julguem cada réu separadamente, a começar pelo ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, apontado como sendo o chefe do esquema.

De acordo com a denúncia, os subornos aos deputados da base aliada eram financiados a partir da verba de publicidade destinadas a empresas estatais. O dinheiro era distribuído então por empresas publicitárias do empresário Marcos Valério de Souza, um dos acusados.

Entre os réus estão várias figuras importantes da cúpula do PT. Entre os principais envolvidos do grupo político estão o ex-tesoureiro do partido, Delúbio Soares; o ex-secretário geral, Sílvio Pereira; além do ex-presidente da sigla, José Genoino.

O grupo de réus ligados a empresas privadas, bancos e publicitários deverá ser julgado em seguida, entre os quais estão Marcos Valério e Duda Mendonça, ex-publicitário da campanha eleitoral do PT.

Na época, a popularidade de Lula não foi afetada pelo caso. Ele saiu praticamente ileso da crise política instaurada pela descoberta do esquema de corrupção e se fortaleceu após o afastamento de Dirceu. Quando o escândalo veio à tona, o chefe de governo se disse traído e pediu desculpa publicamente, negando ter conhecimento dos subornos.

Ao final de sua gestão, Lula tinha cerca 80% de aprovação pública. Dirceu, então ministro da Casa Civil e considerado o segundo homem na hierarquia do governo, foi substituído no cargo pela então ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff.

Autores: Marcio Damasceno/Mariana Santos
Revisão: Alexandre Schossler

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