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Mundo

Juiz da Suprema Corte dos EUA quebra silêncio de dez anos

Conhecido por não questionar advogados durante audiências no máximo tribunal americano, Clarence Thomas faz sua primeira pergunta desde fevereiro de 2006 e causa espanto na corte.

"Senhorita Eisenstein, uma pergunta", interferiu o juiz Clarence Thomas, da Suprema Corte dos Estados Unidos, durante uma audiência nesta segunda-feira (29/02). O pronunciamento causou espanto entre os presentes – há dez anos o magistrado não fazia perguntas no tribunal.

Foi a advogada Ilana Eisenstein quem recebeu a honra das raras palavras do juiz. Durante a audiência, ela defendia uma lei federal para proibir a compra de armas de fogo – um direito de cidadãos americanos – para aqueles que foram condenados por violência doméstica.

Eisenstein já havia respondido a uma enxurrada de perguntas dos outros juízes quando Thomas a pegou de surpresa. "Você pode me dar outro exemplo no qual um crime de menor potencial ofensivo suspende um direito constitucional?", indagou o conservador.

Sentado ao lado da cadeira vazia de Antonin Scalia, outro ícone conservador no principal tribunal americano, morto no mês passado, Thomas não se viu satisfeito e fez mais perguntas durante alguns minutos, como se de repente tivesse recuperado a fala.

A última vez que o magistrado havia se pronunciado no tribunal para fazer questionamentos foi em 22 de fevereiro de 2006, num caso relativo à pena de morte no estado da Carolina do Norte. Desde então, quebrou o silêncio apenas uma vez, em janeiro de 2013, mas apenas para fazer um comentário bem humorado durante uma audiência.

Aprendendo em silêncio

O silêncio de Thomas, nomeado pelo então presidente George Bush em 1991 e o único negro entre os juízes da Suprema Corte, tornou-se curiosidade ao longo dos anos.

Em declarações anteriores, ele afirmou que não precisa fazer perguntas no tribunal porque os casos já estão muito bem esclarecidos nos processos por escrito. O juiz disse ainda que seus colegas interrompem demais os advogados, o que "não ajuda" em nada na apresentação dos casos.

Em 2000, porém, Thomas deu uma explicação mais pessoal para sua relutância em falar. Nascido na Geórgia, o magistrado contou que era muito tímido durante a infância por conta da "espécie de dialeto" que aprendeu com os avós. Para evitar gozações de seus colegas, ele se calou.

"Eu comecei a desenvolver o hábito de escutar… Eu não fazia perguntas na escola ou na faculdade de Direito. Eu podia aprender melhor apenas ouvindo", disse Thomas a um grupo de estudantes, há 16 anos. Após o pronunciamento desta segunda, uma mudança de hábito estaria por vir?

EK/afp/ap/rtr

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