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Cultura

Jogo de perguntas contra a falta de indagação

Exclusão de uma peça de Peter Handke da programação da Comédie Française levanta a questão de onde se debaterem idéias hoje. Até que ponto a mídia comporta um debate sutil e indagador? E o teatro e a literatura?

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'Por que as pessoas não lêem os meus livros, em vez de me acusar?'

A Comédie Française de Paris cancelou a montagem de uma peça de Peter Handke que deveria estrear em janeiro de 2007. O diretor do teatro, Marcel Bazonnet, justificou sua decisão como protesto contra o comparecimento do escritor austríaco ao enterro do ex-presidente sérvio e réu do Tribunal de Haia Slobodan Milosevic, em março passado.

Um caso de "defesa da democracia e dos direitos humanos", como justifica o diretor do teatro, ou uma "violação do direito à liberdade de expressão e da autonomia da arte", como denunciam os defensores de Handke?

A peça excluída da programação do teatro francês, Jogo de Perguntas ou a Viagem ao País Sonoro, foi publicada em 1989, ou seja, bem antes de eclodir a polêmica em torno do apelo de Handke por justiça à Sérvia. Em 1995, após o esfacelamento da Iugoslávia, o escritor fez uma viagem à república balcânica considerada por unanimidade pelo Ocidente causadora da guerra civil, e publicou um relato de viagem no ano seguinte, desencadeando um agressivo debate que já dura mais de dez anos. E por que, mesmo após o apaziguamento dos Bálcãs, a polêmica ainda continua?

O que se sabe quando só se tem acesso à imagem?

Em Uma Viagem de Inverno aos Rios Danúbio, Save, Morawa e Drina ou Justiça à Sérvia, de 1996, Handke critica a parcialidade da mídia e o silêncio do Ocidente sobre as vítimas sérvias da guerra civil e contrapõe a abstração da realidade por parte do aparato midiático à perspectiva da testemunha ocular.

Com a publicação deste relato, o escritor caiu na mira da opinião pública, sendo acusado de coisas menos drásticas, como "serbofilia", até de coisas mais graves, como a negação do massacre de Srebrenica. Mas será que os participantes desta polêmica interminável realmente leram Peter Handke?

"O quê? Você não vai querer desmerecer a realidade das atrocidades sérvias na Bósnia, na Krajina, na Eslavônia através de uma crítica à mídia que abstrai da realidade primária?", questiona-se o escritor em Viagem de Inverno. "Calma. Paciência. Justiça. O problema, só meu? é mais intrincado, intrincado com diversos graus ou níveis de realidade; e, ao pretender esclarecer isso, estou me remetendo a algo absolutamente real, onde todos os modos de realidade, assim emaranhados, permitiriam entrever uma coesão. Afinal, o que se sabe quando a participação quase se reduz a uma participação meramente (tele)visiva?"

"O que se sabe quando a pessoa – de tanta rede e on-line – só detém a posse de saber, sem aquele verdadeiro saber que só surge através do aprendizado, do olhar e do aprendizado? O que sabe aquele que só tem acesso à imagem e não à coisa, ou, como no noticiário de televisão, só à abreviatura de uma imagem, ou no mundo da rede, uma abreviatura da abreviatura?"

Quem tem olhos para ler?

Desde Viagem de Inverno, Handke se dedicou à mesma questão em diversas outras obras e inúmeras declarações à imprensa européia. Seu relato de viagem inicial foi complementado com outros dois: Pós-Escrito de Verão a uma Viagem de Inverno (1996) e Indagando, em Lágrimas (2000), este último o relato de uma viagem feita à Sérvia em 1999, durante a guerra do Kosovo – uma ocasião em que Handke protestou contra os bombardeios da Otan e quem os endossou, devolvendo à Academia Alemã o Prêmio Büchner, recebido por ele em 1973, e se afastando da Igreja Católica.

Na peça Viagem de Canoa (1999) e no romance A Perda da Imagem (2002, a ser publicado este ano no Brasil, pela Editora Estação Liberdade), o autor retoma literariamente o questionamento da mídia e de uma percepção intermediada da realidade. Em Torno do Grande Tribunal (2003) é um relato sobre o julgamento de Milosevic em Haia, ao qual Handke compareceu como enviado do diário Süddeutsche Zeitung. E em As Tablas de Daimiel (2005), publicado na revista Literaturen, Handke presta um depoimento indireto ao processo de Milosevic, ao qual se recusara a comparecer anteriormente como testemunha de defesa.

Basta a guerra verbal da imprensa?

Se os participantes da polêmica em torno de Handke tivessem lido todas essas obras, provavelmente o debate seria menos polarizado e mais sutil. Afinal, muitas das acusações contra o escritor estão formuladas – muitas vezes como indagação – dentro dessas obras. Mas será que a veiculação desta polêmica pela mídia não esgota o interesse dos leitores pelo assunto? Será que a maioria deles não se contenta com a guerra verbal da imprensa e nem sequer se dá ao trabalho de ler os livros?

"Por que as pessoas não abrem os meus livros, em vez de me acusar?", indagou Handke, declarando-se "repugnado" com a proibição de sua peça pela Comédie Française. Talvez a resposta esteja contida em outra pergunta. Será que uma sutil crítica à mídia e aos abusos da linguagem e da imagem pode ser realmente ouvida num contexto jornalístico, em meio ao achatamento da informação pela maioria dos veículos de comunicação, ou depende de uma atenção maior ou até de uma certa dedicação por parte do leitor, algo mais provável de ocorrer durante a leitura de um livro?

Discutir idéias, onde?

Talvez a mídia realmente não seja o lugar mais apropriado para veiculação de sutilezas. Mas o teatro teria a obrigação de ser. Daí o despropósito da proibição de Jogo de Perguntas pela Comédie Française, uma atitude que se reveste de gesto político, mas apenas fecha os canais de questionamento e indagação, algo fundamental nesta peça escrita antes do engajamento público de Handke pela Sérvia.

A opinião pública na França, Alemanha e Áustria está dividida. Um grupo de artistas e intelectuais, inclusive a diretora de teatro Ariane Mnouchkine e o escritor Gao Xianjian, apóiam a decisão do teatro. Uma outra frente, que inclui escritores como Elfriede Jelinek e Robert Menasse, diretores de teatro como Patrick Besson e Luc Bondy, e muitos outros intelectuais, além do ministro francês da Cultura, Rennaud Donnedieu de Vabres, formou-se em protesto contra a proibição.

"Um Voltaire não se prende": em referência a esta célebre máxima de Charles de Gaulle, o diretor do Berliner Ensemble, Claus Peymann, declarou que "um Handke não se proíbe". Talvez esta afirmação cabal, pouco indagativa, surta mais efeito em meio a uma opinião pública que incita sobretudo a tomar partido, em vez de indagar.

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