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Esporte

Jogadores de futebol alemães se recusam a "sair do armário"

Políticos, celebridades e artistas revelando a homossexualidade não chamam mais a atenção na Alemanha, mas no futebol é diferente: ser gay continua sendo um tabu.

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Por que não fortes, talentosos e gays?

O futebol profissional alemão não conheceu nenhum jogador gay até hoje. Pelo menos não oficialmente. A explicação não é a falta de jogadores homossexuais, mas o fato de eles manterem segredo sobre sua sexualidade, sob o risco de acabarem com suas carreiras caso "saiam do armário".

Essa foi a conclusão de uma matéria de capa feita pela revista alemã de futebol Rund no mês de janeiro: dois jogadores que mantêm suas opções sexuais debaixo dos panos foram entrevistados.

''O futebol ainda é inacreditavelmente atrasado quando o assunto é homossexualidade. Gays no campo ainda são um tabu enorme'', disse Rainer Schäfer, editor chefe da revista. Ele passou dois anos pesquisando essa questão e acabou ganhando a confiança de dois jogadores homossexuais que defendem times da Primeira Divisão da Bundesliga. Ambos concordaram em contar suas histórias, desde que as identidades fossem mantidas em sigilo.

Criando uma imagem

Os dois disseram já ter feito quase tudo para esconder sua sexualidade de clubes, empresários e companheiros de time, mas que, ainda assim, vivem sob a constante ameaça de terem seus segredos descobertos.

Um dos jogadores, que é casado, disse que sua esposa não faz nem idéia de que ele seja gay e que já esteve envolvido em uma relação estável com um amigo de infância. ''O que eu poderia fazer? Revelar minha homossexualidade significaria a morte'', disse o jogador para a revista. O outro jogador entrevistado afirmou estar sempre acompanhado por uma mesma amiga em eventos e festas do clube, dando assim a impressão de ser heterossexual.

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Os clubes também tomam partido se rumores de homossexualidade começarem a rondar um de seus jogadores. É comum a contratação de um profissional de relações públicas para criar uma imagem de heterossexuais para os atletas, o que inclui colocar modelos e crianças contratadas em volta desses jogadores durante eventos de mídia e publicidade. ''Os jogadores pagam um preço muito alto para construir uma identidade falsa e elaborar uma rede de mentiras, e isso não facilita que eles se concentrem em jogar bem", disse Schäfer.

A Alemanha, na verdade, é considerada um país bem liberal no que diz respeito aos direitos homossexuais. Uniões entre pessoas do mesmo sexo são previstas na lei e é comum que as pessoas de vida pública deixem transparecer suas opções sexuais. O prefeito de Berlim, por exemplo, é gay e comparece aos eventos acompanhado de seu parceiro.

Pose de macho

Embora não haja estimativas do número de jogadores gays na Alemanha, Tatjana Eggeling, do Instituto de Antropologia Cultural e Etnologia Européia da Universidade de Göttingen, disse haver em torno de 30 homossexuais na Primeira e na Segunda Divisão do Campeonato Alemão.

Segundo ela, essa aproximação é baseada na estatística que afirma que entre 5% e 10% da população adulta da Alemanha é homossexual. Eggeling afirmou ainda que as atitudes machistas e preconceituosas são as responsáveis pela continuidade do tabu contra o homossexualismo no futebol.

A antropóloga acredita que o esporte é uma das facções mais consevadoras da sociedade. Ele ainda é dominado pelos homens e por valores do século 19, como honra, bravura e virilidade. Sem aceitar diferenças, o esporte e os atletas creditariam feminilidade e fraqueza aos gays – e essa visão é confirmada pelos constantes xingamentos entre os jogadores, como ''bicha'' ou ''mulherzinha'', sempre que um sinal de fraqueza é detectado.

Aprender com a Inglaterra?

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Virilidade e bravura. Futebol é ''coisa de homem''

Além da postura heterossexual dentro dos clubes, alguns dizem que o problema da homofobia – manifestada pelos gritos e pelas músicas de torcidas – nos estádios permanece e não é levado em conta nem pelos clubes nem pela Federação Alemã de Futebol (DFB).

Muitos apontam a Inglaterra como exemplo de país que está anos-luz à frente na solução desse problema. Em 2001 – quatro anos depois do suicídio do único jogador britânico assumidamente gay, Justin Fashanu – a Federação Inglesa de Futebol mudou seu estatuto, impondo punições para atitudes de discriminação sexual. Recentemente, dois torcedores do Norwich City foram presos por não seguirem as novas regras.

Um porta-voz da DFB, que preferiu manter anonimato, afirmou que a penalização por comportamentos sexualmente discriminatórios não é prevista e que ele não vê motivos para que isso mude.

Alguns dizem que essa recusa das autoridades em reconhecerem que o problema existe dificulta que os jogadores gays revelem sua sexualidade. Os jogadores heterossexuais que se recusam a declarar publicamente que têm colegas gays em seus times só tornam tudo mais difícil.

''Seria uma grande ajuda se os jogadores heterossexuais se levantassem e dissessem 'Eu tenho um colega gay na equipe e ele joga futebol muito bem.' '', disse Eggeling. Segundo a antropóloga, não é recomendável que nenhum jogador gay revele sua sexualidade com a situação do jeito que está – seria um risco enorme para a carreira e para a vida pessoal dele.

Corny Littmann

Corny Littmann, única personalidade do futebol alemão declaradamente gay

Corny Littmann, presidente do FC St. Pauli, de Hamburgo, e única personalidade declaradamente homossexual no futebol alemão, disse ano passado à agência alemã de notícias DPA não esperar que um jogador gay se declare publicamente como tal em futuro próximo.

''Se um deles se revelasse gay, seria um frisson na mídia. E eu não sei como um jovem de 20, 25 anos lidaria com isso'', disse Littmann, acrescentado que o jogador se tornaria alvo de ofensas dentro e fora do campo. ''Ser gay assusta as pessoas.''

O futebol aceita todos, até os gays

Até agora, mesmo os inúmeros fã-clubes formados por gays e lésbicas associados à Bundesliga foram incapazes de acabar com o comportamento homofóbico nos estádios.

Gerd Eiserbeck, um dos membros do Hertha Junxx – o primeiro fã-clube da Bundesliga formado por gays e lésbicas – disse que hoje em dia eles já são muito bem aceitos, apesar de no início terem sido levados a alguns ''confrontos verbais'' com fãs ostensivamente heterossexuais do Hertha Berlim.

Até a bandeira colorida como um arco-íris com os dizeres ''Futebol é tudo, até gay'' é tolerada no Estádio Olímpico de Berlim. Ele afirma, porém, que não viajam para assistir aos jogos. Seria muito arriscado, já que eles não sabem como os torcedores adversários reagiriam.

Necessidade de mais discussão

Apesar das divergências, alguns acreditam que trazer o assunto à tona e mantê-lo em voga nas discussões públicas vai, um dia, obrigar a DFB a se posicionar em relação a isso.

Schäfer lembra que o mesmo aconteceu com o racismo. A DFB acabou cedendo às campanhas e impôs punições para comportamentos racistas. ''O mesmo poderia acontecer com a homofobia''.

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