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Feira do Livro de Frankfurt

João Ubaldo Ribeiro: "Sinto um vínculo cultural com a Alemanha"

Destaque da programação brasileira na Feira de Frankfurt, escritor falou de seu livro "Viva o povo brasileiro", da ligação com a Alemanha e da falta de tempo para escrever.

Era impossível entrar ou sair do pavilhão brasileiro durante a leitura de João Ubaldo Ribeiro neste sábado (12/10). Havia gente sentada nas cadeiras, no chão e de pé para escutar o autor e seu colega João Almino. Após a leitura, Ribeiro foi assediado por pedidos de autógrafos – em versões em português e em alemão de Viva o povo brasileiro e Um brasileiro em Berlim.

Baiano nascido em 1941, o autor viveu 15 meses na capital alemã como bolsista do DAAD no início da década de 1990 e, desde então, tem uma ligação especial com o país. Vários de seus livros foram traduzidos para o alemão e para mais de outros 15 idiomas. Viva o povo brasileiro, que faz um retrato do Brasil, é um dos livros mais conhecidos do autor.

Sua carreira jornalística começou em 1957 e a literária, na década seguinte, com a publicação do romance Setembro não tem sentido. Ribeiro conquistou diversos prêmios, incluindo Jabutis e, em 2008, o Prêmio Camões – considerado um dos mais importantes de língua portuguesa. Ele também é membro da Academia Brasileira de Letras desde 1991. Hoje, falta tempo para escrever, disse em entrevista à DW.

DW Brasil: O senhor já viveu e tem uma ligação especial com a Alemanha. Como foi voltar ao país como membro da comitiva de autores a representar o Brasil na Feira de Frankfurt?

João Ubaldo Ribeiro: Não me lembro bem, mas acho que fiz parte da comitiva na última homenagem ao Brasil. Depois do Brasil e de Portugal, o país onde meus livros circulam melhor é a Alemanha. Isso é curioso, porque eu pessoalmente não tinha ligação com o país. Mas hoje tenho uma filha que mora em Munique e agora terei um neto alemão. Meu filho vai ter um filho com uma alemã.

Dou-me muito bem com a Alemanha e não perco nenhuma oportunidade de passar uns dias em Berlim, onde morei 15 meses e que é hoje uma das minhas cidades favoritas. Tentei várias vezes aprender alemão sozinho, pois não gosto de frequentar cursos de língua, mas nunca consegui. Até hoje só falo coisas elementares, como "você tem cerveja?".

Certa vez o senhor disse que acreditava ter sido alemão em outra encarnação. Por quê?

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João Ubaldo lê trechos de seu livro

Tem tantas coisas de que gosto na Alemanha. Meu compositor favorito é de longe Bach, um dos meus autores preferidos é Thomas Mann, enfim, me sinto com uma vinculação cultural com o país – que me é muito simpático e muito próximo sentimentalmente. Então, fiz essa brincadeira numa crônica.

Do período em que o senhor viveu na capital alemã, resultaram as crônicas que foram reunidas no livro Um Brasileiro em Berlim. Nesse livro, o senhor conta sobre alguns choques culturais. Quando o senhor vem hoje para a Alemanha, ainda enfrenta situações como aquelas?

Não, não só porque me acostumei com eles, mas também porque muitas coisas mudaram. Por exemplo, na primeira vez em que estive aqui, aceitar cartão de crédito era sempre feito com muita relutância. Hoje se pode comprar qualquer coisa com cartão. E a Alemanha também se abriu bem mais à imigração. Na verdade, nunca houve realmente choque, mas pequenas estranhezas que caricaturei nas crônicas.

Como o senhor explica a boa recepção de Um brasileiro em Berlim até hoje, não só no Brasil, mas também na Alemanha?

Acho curioso, porque esse livro não era planejado nem para a Alemanha e menos ainda para o Brasil. Ele é resultado de um convite que o jornal Frankfurter Rundschau me fez para colaborar. Eles não estavam esperando crônicas, que é um gênero meio brasileiro. No começo estranharam, mas leitores começaram a escrever dizendo que estavam gostando. Quando fui embora de Berlim, sugeriram que fizesse um livro. Relutei. Mas fizeram o livro do mesmo jeito e foi sucesso aqui na Alemanha.

Quando voltei para o Brasil, quiseram fazer o livro lá e fui contra, achando que não interessaria aos brasileiros. Mas foi um sucesso. Depois, na Copa do Mundo da Alemanha, fizeram uma edição especial para os brasileiros que viriam a Berlim e fiz um texto adicional explicando o uso universal da palavra "bitte" [risos]. E o livro até hoje continua sendo publicado. Com muitas ressalvas, eu poderia dizer que sou um escritor popular na Alemanha. Sempre que venho para leituras, aparece muita gente – brasileiros e alemães.

Outros livros seus foram traduzidos para o alemão, entre eles Viva o povo brasileiro, que também saiu em espanhol, francês e italiano. Por que há interesse fora do país por esse livro que faz um retrato da história e da sociedade brasileira?

O Viva o povo brasileiro é visto por muita gente como uma espécie de retrato do Brasil. Não sei. Mas por causa disso, esse livro é indicado para universitários e é leitura recomendada para os alemães do serviço diplomático que vão servir no Brasil. Quanto aos outros lugares, não sei.

Na Holanda, faço alguma ideia, que é quase uma brincadeira. No livro existe um personagem, um caboclo, que come holandeses, criados como gado. No começo, comia os portugueses e espanhóis e, quando apareceram os holandeses, ele achou que a carne era tão superior, tão mais delicada que a carne ibérica. E aí começou a preferir aqueles bichos louros, altos [risos]. Não sei se por isso, na Holanda o livro é editado praticamente todo ano. É popularíssimo.

Por que o título Viva o Povo Brasileiro?

João Ubaldo Ribeiro revela que o que gosta mesmo de fazer é sentar na frente do teclado e escrever. Mas é o que menos faço ultimamente

João Ubaldo Ribeiro revela que o que gosta mesmo de fazer é "sentar na frente do teclado e escrever. Mas é o que menos faço ultimamente"

Não sei. Só consigo escrever, qualquer coisa que seja, dando o título primeiro. E pertenço à família de romancistas que não planeja o livro. Botei lá "Viva o povo brasileiro" e fui escrevendo. No que ia dar, devia estar no meu inconsciente. O livro começa em torno de 1820 e depois volta no tempo. Muita gente tem a impressão que escrevi na ordem normal e depois troquei as datas para fazer essa alternância entre passado e presente. Não foi assim, o livro está ali como saiu da máquina de escrever.

O senhor começou a carreira jornalística na década de 1950 e publicou o primeiro livro na década seguinte. Depois de tantos anos, falta motivação para continuar escrevendo?

Não, me falta tempo. Antigamente o escritor aparecia pouco, não era parte do processo de marketing do livro. Hoje os escritores são solicitados o tempo todo. É uma palestra para cá, uma leitura para lá, uma feira para acolá. Recebo uma chuva de e-mails com convites, e até para recusar preciso de um tempo enorme.

No ano passado tive que sair pelo mundo por ocasião do centenário de Jorge Amado, que era meu grande amigo. E eu não podia recusar convites. As interrupções são tão frequentes, que vários projetos de livro, pelo menos uns quatro, foram abortados. Quando tão interrompido, o romance desanda, se desarruma e você não consegue voltar a ele. Há muito tempo tenho esse problema.

E o senhor sente falta da presença da literatura na sua vida?

Sinto. Sou escritor, quero escrever. Não sou falador, orador, palestrante. Costumo brincar que minha obra futura será constituída de e-mails, são dezenas por dia. A minha coisa é sentar na frente do teclado e escrever. Mas é o que menos faço ultimamente.

Por outro lado, o fato de ser tão solicitado, é um sinal de reconhecimento...

É verdade. Poderiam me dizer: "você queria ser esquecido?". Não, é melhor ser lembrado. A vida é cheia de paradoxos...

Se tivesse tempo, escreveria mais um Viva o povo brasileiro?

Não, isso não se faz todo dia [risos].

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