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Ciência e Saúde

Japão volta a produzir energia nuclear

Pouco mais de um ano após a tragédia de Fukushima, o Japão reativa um de seus reatores nucleares, e o próximo já está na fila. Comissão independente vê falha humana e diz que catástrofe poderia ter sido evitada.

A reativação do primeiro reator nuclear do Japão, após 15 meses de suspensão das atividades das 50 usinas do país, mostra a situação contraditória da política energética japonesa após a catástrofe de Fukushima, no dia 11 de março do ano passado.

Por um lado, os reatores 3 e 4 da usina de Ohi, na região central do país, foram considerados suficientemente seguros para serem colocados novamente em funcionamento – o reator 3 voltou a gerar energia às 7h (horário local) desta quinta-feira (05/07) e o reator 4 deve ser reativado no próximo dia 18. Por outro lado, porém, novas plantas só poderão receber sinal verde quando a nova agência regulatória nuclear japonesa, não mais ligada ao Ministério da Economia, começar seus trabalhos, daqui a dois meses.

Ao mesmo tempo, um relatório apresentado nesta quinta-feira por uma comissão independente concluiu que a catástrofe de Fukushima poderia ter sido evitada. Apesar da ocorrência de um terremoto e de um tsunami, o documento afirma que "o acidente na usina nuclear de Fukushima Daiichi não pode ser visto como desastre da natureza. Ele foi um grave desastre causado pela mão humana".

O relatório afirma ainda que a catástrofe era "previsível e evitável" e que seria o resultado de um conluio entre o governo, as autoridades regulatórias e a empresa Tepco. Embora todos soubessem dos riscos e estivessem conscientes de que a usina não atendia aos critérios de segurança – e que, portanto, não poderia resistir no caso de terremoto e tsunami de maior proporção – nenhuma medida foi tomada, conclui o documento.

A Tepco é ainda acusada de não ter preparado seus funcionários para o caso de um acidente como esse e de não ter dado informações claras sobre como agir no momento da catástrofe.

Na época, houve um derretimento de três reatores. Mais de 100 mil pessoas até hoje não puderam voltar para casa. Até o acidente, cerca de 30% da demanda energética no Japão era suprida pela geração atômica.

Protestos contra a energia nuclear

Os reatores em Ohi pertencem à companhia Kepco, que fornece energia para a região da grande Osaka. Para garantir o abastecimento energético durantes os críticos meses do verão sem risco de grandes cortes, o governo do primeiro-ministro Yoshihiko Noda permitiu a reativação.

As reações foram imediatas. Críticos da decisão apontam para a falta de infraestrutura adequada no caso de um acidente. Apesar de a zona de evacuação ter passado de 10 para 30 quilômetros de distância das instalações, em quase todas as localidades faltam saídas de emergência, aparelhos para medir radioatividade e equipamentos médicos, segundo reclamações dos governantes das regiões atingidas.

Também aumentam os protestos entre a população. O comentarista Noriyuki Wakisaka, do jornal Asahi Shimbun, afirma que entre 70% e 80% dos japoneses são contra a energia nuclear. No final de junho houve uma grande manifestação contra o funcionamento das usinas, reunindo centenas de pessoas em frente ao prédio do governo onde trabalha o primeiro-ministro, em Tóquio.

"Há cidadãos indignados aqui como há na Alemanha, mas não há um partido que represente essas vozes. Mas a insatisfação cresce, os protestos são organizados por jovens e não têm um caráter ideológico", afirmou Wakisaka para a Deutsche Welle.

Entre 70% e 80% dos japoneses estariam contra a reativação das usinas nucleares

Entre 70% e 80% dos japoneses estariam contra a reativação das usinas nucleares

Três cenários

Wakisaka prefere não fazer prognósticos sobre o futuro da política energética do Japão. Ele diz não ver o atual primeiro-ministro, diferentemente do antecessor Naoto Kan, como alguém comprometido com a mudança na política energética, mas sim como alguém que atende aos interesses dos fornecedores de energia.

O governo deve apresentar três cenários nos próximos meses, com diferentes cotas de fornecimento de energia atômica até 2030: renúncia completa à energia nuclear, 15% de energia nuclear na matriz energética ou ainda uma cota entre 20% e 25%. Para se chegar a uma decisão, um amplo debate público deve ser iniciado.

Isso já seria uma mudança. O especialista Markus Tidten, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP, em alemão), chama a atenção para as palavras escolhidas pelos políticos japoneses. "O governo japonês não fala em abandonar a energia atômica, mas em acabar com a dependência", salienta.

Ele estima que, em médio prazo, a cota de energia nuclear no país cairá para 20%. Antes de Fukushima, era de quase 33%.

Também foram negados os pedidos de abandono da energia nuclear feitos recentemente pelos acionistas das grandes empresas de energia japonesas. Durante os meses de fechamento das quase 50 usinas atômicas no Japão, concluiu-se que um grande volume de dinheiro precisa ser gasto para importar combustíveis fósseis adicionais a fim de sustentar a indústria, afirma Tidten. "Este é um negócio muito caro", avalia.

Prejuízos bilionários

Mas caros são também os prejuízos causados pela catástrofe de Fukushima. Para pagar as indenizações dos 10 mil moradores da região afetada pela radiação, e ao mesmo tempo para salvar a Tepco da falência, o estado tornou-se o maior acionista da empresa. Desde então o equivalente a 25 bilhões de euros de impostos foram despejados no consórcio, cujo nome ficará para sempre ligado à catástrofe de Fukushima.

Tidten vê na estatização de fato da Tepco uma estratégia de política interna. Segundo ele, com a medida se torna mais fácil reativar uma ou outra usina nuclear, pois "os cidadãos sabem que não se trata de um conglomerado qualquer que apenas quer ganhar dinheiro, mas sim do governo".

E a Tepco quer de todas as maneiras reativar seus reatores. Obviamente não em Fukushima, mas no complexo Kashiwakazi-Kariwa, na costa nordeste do país.

Autor: Hans Spross (msb)
Revisão: Alexandre Schossler

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