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Brasil

Investigadores alemães caçam nazistas no Brasil

Na 14ª visita ao país, peritos da central alemã para investigação de crimes do nacional-socialismo encontram 400 nomes de suspeitos no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro. Dados serão checados na Alemanha.

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O perito Uwe Steinz, encarregado da investigação brasileira: "Onde houver crime, haverá punição"

O diretor Quentin Tarantino levou às telas de cinema justiceiros que marcavam à faca a testa de nazistas com uma suástica em Bastardos Inglórios. Mas, se Hollywood abusou da fantasia para contar a história da caçada aos criminosos durante e após a Segunda Guerra Mundial, na realidade, o trabalho é bem menos glamoroso. E muito mais sério.

Até hoje, policiais alemães passam horas intermináveis mergulhados em arquivos empoeirados mundo afora, na tentativa de descobrir ex-funcionários e colaboradores do Terceiro Reich ainda vivos – e levá-los à Justiça. Somente nesta semana, cerca de 400 nomes, supostos criminosos nazistas, foram garimpados no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, e serão submetidos à checagem na Alemanha.

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O drama das crianças de Auschwitz

Os caça-nazistas existem. O trabalho no Rio é parte de uma missão do Escritório Central de Investigação de Crimes do Nazismo da Alemanha para resolver crimes de assassinato contra a população civil cometidos entre 1939 e 1945.

Até agora, não foi possível identificar nos arquivos nenhum criminoso nazista ainda vivo no Brasil, apenas nomes suspeitos. Durante 11 dias, dois investigadores alemães do Escritório Central, ligados ao Ministério da Justiça, vasculharam, pela 14ª vez, os arquivos de imigrantes alemães no país. As buscas não são específicas.

Eles procuram entre milhares de prontuários, vistos e documentos de viagem, registros de cidadãos alemães nascidos entre 1916 e 1931 e imigrantes alemães chegados ao Brasil entre 1945 e 1955. O objetivo é identificar suspeitos de homicídio para, então, submeter esses nomes à Procuradoria na Alemanha. Caso figurem na lista de "procurados", e os dados sejam confirmados, é, finalmente, aberto um processo legal.

"Encontramos e confirmamos o nome de um homem que viveu muito bem no Paraná, no setor agrícola, até morrer, em 1996. Ele fez parte de um grupo de extermínio que matava milhares de pessoas por dia na Europa Oriental. Não era um cidadão nascido na Alemanha, mas tinha passaporte alemão. Depois da guerra, muitos apátridas de outros países europeus viveram algum tempo na Alemanha e obtiveram o documento. Infelizmente, o processo não pode ser aberto porque ele morreu antes", conta à DW Brasil Uwe Steinz, encarregado da investigação brasileira.

Nazijagd in Riode Janeiro Generalkonsulat der Bundesrepublik Deutschland

As bucas acontecem em meio a milhares de prontuários, vistos e documentos de viagem nos arquivos brasileiros

Tamanho do Brasil é desafio

A identidade do "paranaense" não pode ser revelada para preservar seus descendentes. As buscas são como quebra-cabeças, repletos de obstáculos temporais. Pela lei, as investigações somente serão encerradas quando o último dos possíveis criminosos tiver completado 100 anos de vida. Por isso, é necessária uma corrida contra o tempo – muitos já morreram e outros estão em idade bastante avançada. Desta vez, cerca de 400 nomes suspeitos serão encaminhados à Procuradoria.

"A cooperação do Arquivo Nacional e do Consulado da Alemanha é fantástica. A dificuldade aqui é porque o Brasil é um país muito grande, há muito material. Fazemos buscas por cada estado. Quando encerramos os prontuários de São Paulo, por exemplo, levamos um susto. Achamos que se tratava do estado, mas era apenas a cidade de São Paulo. A maioria dos imigrantes não era composta por criminosos, mas os que eram serão identificados, vivos ou mortos. Esta é nossa tarefa", afirma Steinz.

Os fugitivos nazistas costumavam viajar, muitas vezes, usando documentos da Cruz Vermelha Internacional. E, embora sejam poucos os grandes nomes conhecidos, como o "Anjo da Morte" Josef Mengele, morto no litoral paulista em 1979, e Adolf Eichmann, capturado na Argentina em 1960 e julgado em Israel, muitos outros encontraram abrigo na América do Sul. As investigações no continente começaram em 2009 e já passaram por Uruguai e Chile.

"No Uruguai, foi mais difícil. Tivemos à disposição listas de passageiros, de imigrantes que desembarcaram no país, mas sem dados como local e data de nascimento, o que dificultou o cruzamento de dados. No Chile, como no Brasil, os arquivos são mais completos. Encontramos, em 2008, uma pessoa que matou pelo menos 2 mil judeus. Ele chegou ao país através da Argentina, fez negócios na agricultura, prosperou e morreu muito bem, em 2006. Chegamos com dois anos de atraso", lamenta Steinz, há uma década envolvido nas investigações.

Nazijagd in Riode Janeiro Generalkonsulat der Bundesrepublik Deutschland

Pela lei, as investigações serão encerradas quando o último dos possíveis criminosos tiver completado 100 anos de vida

Lidando com a frustração

Além do Arquivo Nacional, foram visitados, ainda, os arquivos do Itamaraty. E o estado do Paraná se destacou como um dos campeões em número de indícios. Steinz chama a atenção para um fato curioso: não só no Brasil, como nos países do Cone Sul, muitos alemães, mesmo os de ficha suja, acabaram contribuindo significativamente para a economia da região.

"Muitos não cometeram crimes antes ou depois da Segunda Guerra. Chegaram, se estabeleceram, transformaram-se em fazendeiros, homens de negócios e ajudaram o desenvolvimento. Viveram longamente ao apagar o passado da memória, pois não eram capazes de conviver com o peso dos crimes que cometeram", observou.

O Escritório Central funciona desde 1958 na cidade de Ludwigsburg, no estado de Baden-Württemberg, e já teve cerca de 150 funcionários ativos. Hoje, conta com menos de 20 – já que as chances de encontrar ex-criminosos do regime de Adolf Hitler vivos ficam mais remotas com o tempo. Passar tantos anos em busca de personalidades obscuras que, quando descobertas, já estão mortas, poderia ser o trabalho mais frustrante do mundo. Mas não para Steinz. Segundo ele, o importante é ter o dever cumprido.

"Claro que, como investigador, gostaria de ver essas pessoas no banco dos réus, mas não me sinto frustrado. Nosso trabalho é localizá-las e identificá-las. Mesmo que estejam mortas, é importante saber quem eram, onde estavam e dar alguma satisfação às vítimas e suas famílias. O mais importante é deixar claro que sempre haverá Justiça. E que nada disso acontecerá de novo, porque onde houver crime, haverá punição", resume o investigador.

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