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Mundo

Interesses divergentes dificultam êxito de califado proclamado por radicais sunitas

Grupo extremista EIIL proclama Estado islâmico no Iraque e na Síria, mas muitos de seus aliados têm outros objetivos, pondo em risco a coalizão unida só pela oposição a Al-Maliki.

Medidas drásticas marcam o início do

califado

recém-proclamado pelos extremistas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) na Síria e no Iraque. As mulheres devem se cobrir com véus dos pés à cabeça. Aos restaurantes é vedado servir bebidas alcoólicas ou permitir que os clientes fumem cigarros em suas dependências; tampouco podem tocar música ou exibir os jogos da Copa do Mundo nas televisões. Quem desobedecer está sujeito a severas punições corporais.

Muitas pessoas terão que se adaptar à vida sob uma versão mais rígida da lei tradicional islâmica, a sharia. Segundo o porta-voz do EIIL, Abu Mohammed al-Adnani, o califado se estenderá da região de Aleppo, no norte da Síria, até Diyala, no leste do Iraque.

O próprio nome da organização deixa claro que sua pretensão é nada menos do que unir todo o mundo islâmico: a partir de agora, ela passa a se chamar apenas Estado Islâmico, tendo como "califa" o líder do EIIL, Abu Bakr al-Bagdadi. Segundo o porta-voz Al-Adnani, o novo califado seria o "sonho de todo muçulmano" e o "desejo de todo jihadista".

Eliminação das fronteiras impostas

De fato, a visão de um califado atrai fortemente muitos muçulmanos da região, confirma o cientista político Stephan Rosiny, do Instituto de Estudos Globais e Regionais (Giga), de Hamburgo. O caráter religioso que o EIIL se outorga torna o movimento interessante para muitos. "Em resumo, a promessa dos radicais islamistas é que o Islã é a solução para tudo."

Bildergalerie Irak Regionalkonflikt ISIS Kämpfer Januar 2014

Visão de califado transnacional está longe de ser unânime entre aliados do EIIL

E, como os problemas da região são muitos, essa atratividade ultrapassa, em muito, as promessas religiosas abstratas. De início, o grupo apoiou os esforços dos sunitas iraquianos para retomar seu espaço no Estado e na sociedade iraquiana. Após a queda do sunita Saddam Hussein, e principalmente desde a posse do xiita Nuri al-Maliki como primeiro-ministro, os sunitas se sentem política e socialmente marginalizados.

Esse sentimento resultou em revoltas no noroeste do país, das quais o EIIL se aproveitou em interesse próprio. Após se instalar em Mossul e outras cidades, o grupo terrorista sunita anunciou planos ainda mais ambiciosos: ele almeja anular as fronteiras que remontam ao

Acordo Sykes-Picot

.

Firmado entre o Reino Unido e a França em 1916, o acordo resultou no estabelecimento das fronteiras arbitrárias da região, desmembrando os territórios dos árabes e muçulmanos entre diversos Estados. "A promessa de superar esses limites já havia sido feita no século 20 pelos nacionalistas pan-arábicos e, posteriormente, pelos muçulmanos moderados", lembra Rosiny. "Nenhum dos dois grupos a cumpriu. Agora, os radicais islâmicos querem colocá-la em prática."

Porém justamente essa pretensão pode acabar pondo em risco o sucesso do EIIL. Pois o que une essa coalizão de combatentes tribais, partidários de Saddam, fundamentalistas sunitas e jihadistas radicais é a perspectiva de pôr fim ao governo de Al-Maliki – nem todos os grupos que se aliaram ao EIIL simpatizam com a ideia de um califado transnacional.

"Dificilmente o EIIL conseguirá estabelecer ou manter seu califado em territórios maiores, já que suas concepções do Islã diferem muito das de outros sunitas nos territórios recém-conquistados", afirma o cientista político do Giga.

A questão principal, contudo, é como tal califado poderia existir. Nem seu governo nem as fronteiras abolidas unilateralmente são legitimados, sendo improvável, portanto, o seu reconhecimento internacional. Também em termos econômicos e políticos, o futuro do califado seria extremamente difícil: isolado em nível internacional, ele estaria inteiramente entregue à própria sorte.

Longe de ser unanimidade

Nuri al-Maliki Ministerpräsident Irak

Al-Maliki é fator que une a oposição

Por essas razões, o atual passo do EIIL está longe de contar com a concordância de todos os seus aliados. Mesmo alguns grupos jihadistas nada têm a ganhar com a abolição das atuais fronteiras iraquianas. O Ansar al-Sunna, por exemplo, é a favor do estabelecimento de um califado no Iraque, porém restrito às fronteiras atuais. Outros grupos, como a Irmandade Muçulmana iraquiana, almejam uma província independente de Bagdá em termos militares, jurídicos e econômicos, mas sem romper inteiramente com o governo central.

Organizações como o Exército Islâmico no Iraque, por sua vez, se empenham pela manutenção da identidade religiosa e cultural dos sunitas dentro das fronteiras iraquianas. Já os ex-membros do partido Baath só se aliaram ao EIIL com vista a uma eventual retomada do poder. Sendo nacionalistas iraquianos, eles não têm qualquer interesse no califado.

A oposição ao regime de Maliki é o denominador comum da atual aliança. Para vários de seus membros, os êxitos alcançados nos últimos meses podem até já ser demasiados. O EIIL terá que ir em busca de novos aliados, mas sem a menor certeza de encontrá-los. Mesmo assim, muitos iraquianos temem que o grupo seja suficientemente forte para impor, sozinho, seus planos de califado, pelo menos por certo tempo.

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