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Mundo

Intensificar ataques aéreos na Síria não é a solução, afirma especialista

Ocidente está bombardeando o "Estado Islâmico" já faz um ano, e resultados são pouco visíveis, afirma Nick Witney. Para ele, é necessário o apoio de tropas terrestres. Participação europeia pode até ser contraproducente.

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Alemanha quer enviar aviões de reconhecimento do tipo Tornado para a Síria

O envio de aviões de reconhecimento à Síria pela Alemanha, a intensificação dos bombardeios pela França e uma possível participação do Reino Unido nos ataques aéreos ao grupo terrorista "Estado Islâmico" (EI) terão pouca influência sobre a situação em solo, afirma o especialista em política de segurança Nick Witney, em entrevista à DW.

"Já faz cerca de um ano que o Ocidente está bombardeando a Síria, e o êxito é pouco visível. Poder de fogo é o que não falta para a Força Aérea dos EUA na Síria. É difícil acreditar que algumas bombas francesas e britânicas possam fazer uma diferença decisiva", afirmou.

Para ele, o fator decisivo para virar o jogo é o apoio de tropas terrestres. "Isso sim seria uma situação totalmente diferente. Aí os ataques aéreos poderiam até mesmo ser decisivos."

Ele também disse que o "Estado Islâmico" somente será derrotado quando as grandes potências muçulmanas disserem: "Chega, agora é hora de acabar com esse bando de fanáticos assassinos".

Uma maior presença europeia na região pode até mesmo ser contraproducente, pois "só alimenta a lenda jihadista dos cruzados modernos que vêm destruir o califado islâmico". Além disso, eleva o risco de ataques nas ruas europeias.

DW: O governo alemão anunciou que vai enviar à Síria aviões de reconhecimento do tipo Tornado para ajudar seus aliados – especialmente a França – na luta contra o "Estado Islâmico". E também o primeiro-ministro britânico, David Cameron, defendeu ações militares do Reino Unido contra a organização terrorista. Essas medidas trazem algum resultado?

Nick Witney: Em termos práticos, mesmo que britânicos e franceses venham realmente a reforçar seus ataques aéreos, talvez apoiados por aviões de reconhecimento alemães, isso não deve ter nenhuma grande influência sobre a realidade em solo.

Mesmo antes dos atentados de 13 de Novembro em Paris, diversas forças de combate já haviam executado ataques aéreos ao EI. Elas conseguiram atingir os alvos desejados?

Já faz cerca de um ano que o Ocidente está bombardeando a Síria, e o êxito é pouco visível. Poder de fogo é o que não falta para a Força Aérea dos EUA na Síria. É difícil acreditar que algumas bombas francesas e britânicas possam fazer uma diferença decisiva. E, de fato, o próprio Cameron declarou que essa guerra não pode ser vencida do ar.

Ou seja, precisamos de forças terrestres e do apoio de forças terrestres, como foi o caso no Iraque. Isso sim seria uma situação totalmente diferente. Aí os ataques aéreos poderiam até mesmo ser decisivos: foi o que aconteceu quando os combatentes Peshmerga reconquistaram a cidade iraquiana de Sinjar das mãos do EI [em meados de novembro, apoiados pela Força Aérea americana].

O que precisa ser feito?

Nick Witney

Nick Witney: "Problema dos refugiados pode continuar por toda uma geração" sem a estabilização de países africanos

Uma das declarações mais inteligentes sobre o tema veio de Hillary Clinton. Ela certamente não é comedida, mas disse que não cabe a nós ganhar essa guerra. Isso deve ser tarefa de iraquianos e turcos, que devem tomar a iniciativa o mais breve possível.

O que eu temo agora é que o Ocidente, por meio do aumento das forças militares, esteja dando uma desculpa para que as potências regionais – ou seja, Turquia, Arábia Saudita, Irã e todos os que querem, ao menos teoricamente, se livrar do EI – não façam nada, independentemente de esse aumento da presença militar ocidental ser eficaz ou não. Esse problema não será resolvido enquanto as potências regionais – as potências muçulmanas que podem se dirigir à população muçulmana com autoridade – não disserem: "Chega, agora é hora de acabar com esse bando de fanáticos assassinos".

Mas encarando a coisa com um pouco de otimismo: a Conferência sobre a Síria, realizada há duas semanas em Viena, dá a esperança de que esse ponto de vista ao poucos se imponha.

Que resultado poderiam então ter as operações militares europeias na Síria?

Eu considero perigoso, ou até mesmo contraproducente, que um número cada vez maior de potências europeias intervenha na guerra da Síria. Isso só alimenta a lenda jihadista dos cruzados modernos que vêm destruir o califado islâmico: o que fizemos quando Assad jogou bombas de barril sobre os muçulmanos em Aleppo? Mas agora todos nós estamos dispostos a bombardear os "verdadeiros fiéis" em Raqqa. Acho que isso vai aumentar a afluência ao EI, ou seja, justamente aquilo que, no fim das contas, o mantém vivo.

Além disso, eu temo que isso possa aumentar o perigo nas ruas britânicas. Na verdade, eu quase não vejo possibilidade de que isso não aconteça, principalmente após os atentados no Sinai e em Paris. Eles foram claros ataques de retaliação, e estou muito preocupado que isso venha a acontecer também no Reino Unido.

Em última análise, eu posso entender por que nossos governos fazem isso. A França pediu solidariedade, e o apoio militar é uma forma de mostrar solidariedade. Isso é importante, mas eu gostaria que tivéssemos escolhido caminhos mais inteligentes para demonstrar essa solidariedade.

Quando o ministro da Defesa da França pediu ajuda aos países-membros da União Europeia com base no artigo 42.7 do Tratado de Lisboa, ele pediu o apoio na Síria ou em outra missão – na África. Com certeza, a estabilização de países do Sahel na África teria feito mais sentido para todos, já que é de lá que vem metade de todos os refugiados. Mas, no momento, isso não faz parte da agenda política.

A Síria e os atentados em Paris estão desviando nossa atenção de outros problemas na Europa?

É compreensível que estejamos voltados inteiramente para a Síria – é claro que estamos. Mas a crise dos refugiados é imensa, e metade do problema vem da África. E, mesmo que o conflito sírio fosse resolvido amanhã, ainda teríamos uma grande onda de refugiados na Europa. O foco estaria na Alemanha, mas eles continuariam a atravessar o Mediterrâneo rumo à Itália. E isso vai durar ainda uma geração inteira se não nos dedicarmos mais à estabilização da África.

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