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Indústria pelo sacrifício dos agricultores

Marcio Weichert, enviado a Ludwigshafen16 de setembro de 2003

Empresários alemães torcem por acordo Mercosul-UE, independente da OMC. Presidente da Câmara de Comércio defende prioridade para pontos fortes de cada economia. Deputado adverte para risco da Alca.

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Plöger: Superávit mostra potencial importador do BrasilFoto: Marcio Weichert

O fracasso da Conferência de Cancún não terá conseqüências imediatas para as subsidiárias da BASF e da DaimlerChrysler na América do Sul, segundo seus principais executivos. "Já havíamos considerado a possibilidade (de fracasso). As dificuldades (de acordo) eram previsíveis. Além disso, a BASF naturalmente planeja seus investimentos e desenvolvimento a longo prazo. Atualmente estamos pensando a empresa no ano 2015 e, neste sentido, não nos deixamos impressionar por pequenos revezes", afirmou à DW-WORLD Rolf-Dieter Acker, presidente do Grupo BASF América do Sul, durante encontro sobre o Mercosul na Câmara de Indústria e Comércio de Ludwigshafen, na segunda-feira.

Para o presidente da DaimlerChrysler do Brasil, a falta de uma nova liberalização do comércio atinge mais o conglomerado automobilístico a nível mundial. Ben van Schaik espera que o impasse de Cancún seja logo superado e revela-se um defensor da causa dos países em desenvolvimentos, não sem contrapartida. "Estou convencido de que se o mundo se dispor a aceitar os produtos agrícolas brasileiros, que possuem boa qualidade e bom preço, o Brasil também estará pronto para abrir suas fronteiras." O executivo lembra que a Alemanha teria muito a ganhar com o fim ou a redução do imposto de importação de automóveis de 30%.

Van Schaik e Acker acreditam que Mercosul e União Européia não precisam esperar pela OMC para acelerar o acerto de um acordo de livre comércio. Mas suas visões não são homogêneas. Enquanto o executivo da BASF vê com igual interesse a perspectiva de criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e um acordo UE-Mercosul, embora seu coração bata um pouco mais nesta direção, o presidente da DaimlerChrysler e da Câmara de Comércio Brasil-Alemanha de São Paulo não esconde sua preferência pela segunda opção.

Entregar a agricultura, para lucrar com a indústria

Ben van Schaik
Van Schaik: Europa não pode ignorar potencial agrícola do BrasilFoto: Marcio Weichert

E vai mais além. "Nós europeus temos de refletir sobre nossos pontos fortes, como os brasileiros estão fazendo. O Brasil tem força impressionante na agricultura. O país possui grandes regiões abençoadas pelo clima, onde se pode colher três vezes por ano. A mecanização avança em ritmo acelerado e a qualidade dos produtos é muito melhor do que em outros países, além do bom preço. Não creio que a Europa poderá continuar a ignorar isto a longo prazo", acrescenta van Schaik, também em conversa com DW-WORLD. Para ele, em benefício de seu potencial industrial, a Europa terá de sacrificar seu setor agrário, que na Alemanha responde por uma parcela relativamente pequena da economia nacional.

O presidente da BASF não comunga – ao menos abertamente – do raciocínio do holandês. "O fracasso de Cancún é com certeza uma decepção para os países industrializados, mas também a médio e longo prazo um desafio para os em desenvolvimento e emergentes", analisa Acker. O executivo do grupo químico defende que estes países não restrinjam o debate da liberalização comercial à questão agrícola e busquem uma solução para todos os produtos.

Em todo caso, "esperamos que a União Européia e o Mercosul encontrem uma solução independente da OMC", observa Acker, que vê no Brasil e seus parceiros de Mercosul uma comunhão de vantagens inexistente em outras áreas do globo: grande mercado interno, estabilidade política, fartos recursos naturais e paz religiosa.

Alertas para potencial do acordo

Co-presidente do Fórum Empresarial Mercosul e União Européia, Ingo Plöger, dá mais uma boa razão para o empresariado alemão pressionar a UE por um acordo com os países do cone sul. O superávit de 20 bilhões de dólares previsto para a balança comercial brasileira este ano mostra o potencial importador que o Brasil representa. Também presente ao evento em Ludwigshafen, o executivo teuto-brasileiro ressaltou que, ao lado dos setores siderúrgico, petroquímico, de papel, bioenergia e informática, o capital alemão tem também na agricultura brasileira uma boa opção de investimento.

Ao fim do debate, o deputado federal Lothar Mark (SPD) advertiu os empresários para não permitir a repetição da história das relações teuto-mexicanas. Após a criação da Nafta (Área de Livre Comércio da América do Norte) em 1996, o comércio entre Alemanha e México recuou mais de 50%, só voltando a crescer lentamente com o acordo de livre comércio UE-México. Para o vice-presidente da comissão parlamentar Brasil-Alemanha, se a UE não resolver o nó da agricultura, "arriscamos perder grande parcela do mercado latino-americano" para os EUA através da Alca.