Imprensa marrom não é exclusividade dos ingleses | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 10.07.2011
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Mundo

Imprensa marrom não é exclusividade dos ingleses

Telefones grampeados, propina para policiais: uma reportagem a qualquer preço. O escândalo jornalístico do "News of the World" chocou os ingleses. Mas, e na Alemanha, até onde os jornalistas vão por uma "boa" história?

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Palavras 'Obrigado e adeus' última edição do tabloide britânico

Há tempos os jornalistas do tabloide britânico News of the World não conheciam limites. Auxiliados por detetives particulares, eles invadiam as caixas de mensagens de celebridades, ou de uma menina sequestrada – e posteriormente assassinada –, prejudicando a investigação da polícia. Mesmo os celulares de familiares de soldados mortos e de parentes de vítimas do terrorismo foram grampeados pelos repórteres.

Rupert Murdoch

Magnata Rupert Murdoch

A última edição do News of the world foi às bancas neste domingo, (10/07), com a manchete "Obrigado e adeus". O jornal – da editora News Corp, do magnata Rupert Murdoch, e que contava 7,5 milhões de leitores – foi fechado em consequência do escândalo de espionagem e invasão de privacidade. Mas, apesar da indignação pública, muitos britânicos devem comprar a última edição do jornal para guardar de recordação: por isso a tiragem foi duplicada para 5 milhões de cópias.

Entretanto, os casos de sensacionalismo extremo na mídia não são exclusividade dos britânicos. A própria Alemanha teve nos últimos anos seus escândalos jornalísticos. A conceituada revista Stern, por exemplo, publicou em 1983, com grande estardalhaço, os supostos diários de Adolf Hitler. A editora Gruner + Jahr pagou cerca de 9 milhões de marcos alemães (4,6 milhões de euros) pelos mais de 60 volumes.

Pouco tempo depois, descobriu-se que os jornalistas haviam sido enganados por um falsário. Mais tarde, o caso envolvendo o repórter da Stern Gerd Heidemann e o falsário Konrad Kujau virou até filme.

Escândalo de Gladbeck

A guerra pela audiência levou ao escândalo sobre o drama dos reféns da cidade de Gladbeck, no oeste alemão. No dia 16 de agosto de 1988, a dupla de criminosos Dieter Degowski e Hans-Jürgen Rösner invadiu uma filial do Deutsche Bank na cidade.

Deutschland Geschichte Kultur Presse Gladbecker Geiseldrama

Repórteres alemães entrevistaram ladrões no drama de Gladbeck

Em sua fuga, que durou dois dias, os criminosos tomaram vários reféns. Em um ônibus, Degowski atirou e matou um menino de 15 anos, e durante a ação policial, morreu a jovem Silke Bischoff. Em alguns momentos o evento foi transmitido ao vivo pela televisão.

No centro de Colônia, jornalistas cercaram o veículo e entrevistaram os ladrões. Alguns deles chegaram a sentar no carro junto com os criminosos. O comportamento da mídia provocou um debate sobre a responsabilidade e os limites da cobertura.

Mas um caso como o do Reino Unido, em que os jornalistas intencionalmente violaram a lei, nunca aconteceu na imprensa alemã. Ella Wassink, porta-voz do Conselho de Imprensa da Alemanha, classifica como "improvável" o desenvolvimento desse tipo de jornalismo: "Não temos nenhuma razão ou evidência para acreditar que na Alemanha as coisas tomem esse rumo", avalia.

Autocontrole eficiente

Cover der Zeitschrift Stern Hitler-Tagebücher 1983

Polêmica edição da revista 'Stern', de 25 de abril 1983

O Conselho de Imprensa alemão é um órgão de autorregulação voluntária, e também a central para reclamações sobre o trabalho da mídia e dos jornalistas. De acordo com Ella Wassink, nos últimos anos houve apenas algumas poucas queixas sobre os métodos de apuração dos jornalistas. Ela lembra que o escândalo na Inglaterra mostra a tabloidização dos jornais britânicos. Aparentemente "o público gosta desse tipo de jornalismo".

Os políticos britânicos, sejam de direita, sejam de esquerda, buscam se aproximar de Rupert Murdoch, cujos jornais dominam a imprensa no país. Sua posição de "todo-poderoso" é um dos principais motivos para o modo como o jornalismo é feito no Reino Unido, diz Michael Haller, diretor científico do Instituto de Pesquisa para a Prática do Jornalismo, de Leipzig. "Essa condição dá às redações a impressão de que podem tudo. E isso, em minha opinião, é o verdadeiro mal."

Na Alemanha, diz o pesquisador, não existe, até agora, nenhum grupo de mídia com tamanho poder. "Temos uma lei anti-cartel muito mais restritiva e rigorosa", destaca Haller. Com essa lei, o Escritório Federal de Cartéis proibiu em 2006 a aquisição do grupo de televisão privado Pro SiebenSat1 pelo Grupo Springer, que edita o tabloide Bild, jornal de maior tiragem da Alemanha.

Autor: Nils Naumann (ff)
Revisão: Augusto Valente

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