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Alemanha

Imigrantes muçulmanos e o respeito pela polícia alemã

Lançamento de livro desencadeia debate: os jovens de origem islâmica da Alemanha respeitam menos as policiais femininas? E, em geral, a lei e as autoridades do país? A DW consultou criminologistas e outros peritos.

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Policial greco-alemã Tania Kambouri se sente desrespeitada em sua função

Insultos como "piranha" e similares, ataques a pontapés e empurrões são coisa do dia a dia para a policial Tania Kambouri, da cidade de Bochum, no oeste da Alemanha. Nas numerosas entrevistas que tem dado, desde o lançamento de seu livro Deutschland im Blaulicht – Notruf einer Polizistin ("Alemanha na luz azul – SOS de uma policial", em tradução livre), no início de outubro, ela afirma que, mesmo de uniforme, é muitas vezes ignorada e menosprezada por determinados elementos, quando não é alvo de cusparadas e outras hostilidades.

Ela diagnostica uma dissolução da autoridade do poder estatal e o aumento generalizado da violência contra a polícia. Porém uma das observações mais polêmicas da autora de origem grega é que, na maioria das vezes, a violência partiria de jovens imigrantes muçulmanos.

Tal afirmativa suscita o debate: trata-se das impressões solitárias de uma polícia feminina hipersensível ou de uma tendência preocupante, com alto potencial explosivo para a sociedade?

Longo catálogo de agressões

Em 2012, o Instituto de Pesquisa Criminológica da Baixa Saxônia entrevistou 18.443 agentes, num estudo sobre a violência contra policiais. A maioria, de fato, disse considerar especialmente agressiva uma parcela dos homens jovens de origem islâmica.

Os entrevistados enumeraram, entre outras formas de agressão a que foram expostos: insultos, gritos, esbravejar, se debater, chutar, esfaquear, sacudir ou imobilizar com uso de força. As agentes do sexo feminino seriam menos respeitadas, mas também vítimas menos frequentes de assalto físico. Esses relatos basicamente confirmam as impressões de Tania Kambouri.

Por outro lado, uma pesquisa do Instituto Max Planck de Criminologia, em Freiburg, atesta que, em princípio, os jovens de ascendência turca depositam especial confiança nos agentes alemães, sendo, portanto, raras as confrontações físicas entre eles e a polícia.

"A grande maioria dos muçulmanos alemães é contra a violência", assegura Werner Schiffauer, professor de Antropologia Social na Universidade Europeia Viadrina, em Frankfurt no Oder, e presidente do Conselho de Migração da Alemanha, com base em sua larga experiência profissional.

Projekt RAD der Polizei Duisburg

Boa cooperação: diretor de associação de mesquita Erkan Üstünay ladeado por policiais Jürgen Kiskemper (esq.) e Thomas Nagel

Educação e integração como antídotos

O criminologista Christian Walburg e sua equipe da Universidade de Münster começaram a acompanhar adolescentes de 13 anos de idade da cidade de Duisburg em 2002, examinando eventuais trajetórias criminais até a idade adulta, inclusive seus contatos com a política.

"Na segunda e terceira geração dos trabalhadores imigrados, encontrávamos uma maior disposição à criminalidade e violência, a qual, no entanto, como atestam todas as fontes de informações disponíveis, vai decaindo fortemente", explicou o especialista em conversa com a DW. Embora 20% da juventude de Duisburg seja de origem turca, na pesquisa os muçulmanos não acusaram um comportamento muito fora da média.

Walburg ressalta que os 5% ou 6% de criminosos contumazes entre os jovens de ascendência estrangeira, que também desacatam a autoridade da polícia, também são encontrados entre a população estabelecida alemã.

Outros especialistas em migração confirmam esse dado, embora apontando, entre as famílias de valores tradicionais muito rígidos, a tendência a emergirem problemas quando há carência de contatos sociais e falta de uma relação de trabalho estável. Educação e integração são, portanto, essenciais para que se evitem comportamentos de autoexclusão e de desdém pela sociedade.

Projetos de integração bem sucedidos

A própria polícia alemã também tenta prevenir a formação de sociedades paralelas. Desde 2004, a Renânia do Norte-Vestfália, estado alemão mais populoso, possui agentes de contato em todos os postos policiais. Eles se mantêm em interação constante e estreita com instituições islâmicas como associações culturais, nacionais ou de mesquitas.

Um desses agentes é Jürgen Kiskemper. Juntamente com seu colegaThomas Nagel, ele cuida em tempo integral para que haja diálogo e boas relações entre os agentes da polícia de Duisburg e os muçulmanos. Tanto nessa função como em seus 20 anos de atividade policial nas zonas socialmente problemáticas da cidade, ele conhece bem situações como as descritas no livro de Kambouri.

Mas Kiskemper faz questão de enfatizar que não percebe nenhuma relação direta entre conflitos com a polícia e religião. A maioria das cooperações transcorre bem, afirma. Uma parceria de ordem com a associação de mesquita Genç Osman de Duisburg, que acompanha 100 jovens, é um exemplo de quanto o trabalho policial é respeitado, comenta.

Projekt RAD der Polizei Duisburg

Interação entre agentes da lei e jovens muçulmanos no projeto RAD – respeito, atenção, disciplina

Impossível generalizar

Na opinião do agente de contato de Duisburg, violência física e verbal ocorre com mais frequência quando certos grupos, sem experiências positivas na sociedade, têm a chance de se solidarizar, reforçando-se mutuamente em seus valores e concepções. Aí, as confrontações com a lei podem logo escalar.

"É uma questão de reconhecimento e aceitação, que talvez faltem no dia a dia", contemporiza. "São sempre só determinados grupos que causam problemas." Entre os que mostram desprezo por agentes policiais do sexo feminino, é possível que também se encontrem rapazes de origem muçulmana, admite Kiskemper. No entanto ele se recusa a generalizar, pois isso iria de encontro a sua vivência pessoal.

O policial conta que no passado também presenciou comportamentos desrespeitosos, por exemplo, entre os chamados spätaussiedler (imigrantes de origem alemã vindos das antigas repúblicas comunistas do Leste Europeu), os quais "só compreendiam a intervenção consequente". Ou, mais recentemente, entre libaneses, 40% dos quais nem são islâmicos.

No geral, a opinião dos especialistas consultados pela DW é que as observações da policial e autora Tania Kambouri representam apenas uma parcela da realidade. Considerada como um todo, porém, a situação é tão complexa, variada e estratificada, que não é possível postular nenhuma conclusão definitiva – e muito menos fazer previsões negativas para o futuro.

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