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Mundo

Igreja é vítima, protetora e intermediária no conflito colombiano

Atuando de forma quase sigilosa e com o aval do presidente, representantes eclesiásticos estão entre os principais artífices das negociações de paz entre governo e as Farc, retomadas nesta semana em Havana.

Destruída e empoeirada, a estátua da Virgem Maria da igreja de Bojayá, cidade no noroeste colombiano, é uma visão estranha. Faltam-lhe os braços, e o manto azul de gesso está se esmigalhando. Há 11 anos, em 2 de maio de 2002, a imagem foi derrubada violentamente do pedestal. Um cilindro de gás cheio de estilhaços caiu sobre ela, pondo a igreja em ruínas e provocando a morte de 78 pessoas.

O massacre de Bojayá se tornou símbolo da escalada de violência do conflito colombiano, que assola o país há cinco décadas. Em 2002, cerca de 300 moradores do vilarejo procuraram abrigo na igreja para se proteger dos combates entre as Forças Revolucionárias da Colômbia (Farc) e grupos contrarrevolucionários paramilitares. O projétil disparado pelas Farc caiu sobre o teto da igreja, que virou um cenário de guerra.

A Igreja desempenha um importante papel na guerra civil colombiana. Ela é, ao mesmo tempo, protetora e vítima; ela intermedeia entre as partes em conflito, realiza trabalhos de paz e direitos humanos e mantém relações discretas com as Farc e o Exército de Libertação Nacional (ELN). Bispos, padres e freiras não são vistos somente como negociadores neutros. Eles próprios são vítimas de sequestro, morte e roubo. Nos últimos 20 anos, 60 religiosos foram assasinados devido ao seu compromisso com a paz.

Demonstration gegen FARC Kolumbien Bogota

Protesto em Bogotá: Manifestantes exigem que Farc libertem reféns

Apesar do balanço amargo, a Igreja é a força motriz por trás das negociações de paz entre o governo colombiano e as Farc, que foram retomadas nesta terça-feira (11/06) em Havana.

"A Igreja é a única instituição neste país que, com seu trabalho pastoral, alcança todo o território nacional", disse à DW Brasil o cientista político colombiano Jaime Zuluaga Nieto, que assessora o instituto de pesquisas da paz Indepaz em Bogotá. "No interior do país, ela está em contato direto com os rebeldes."

Atrás dos bastidores

Segundo relatos da imprensa colombiana, a linha direta com os combatentes fez com que os representantes eclesiásticos tenham prestado uma contribuição decisiva para as negociações preparatórias, que levaram finalmente à retomada das negociações de paz, em outubro do ano passado.

"O fato de a Igreja não estar sentada à mesa de negociação não significa que ela não esteja participando delas", declarou o bispo de Tunja, Luis Augusto Castro Quiroga, à agência de notícias Agenzia Fides.

O secretário da Comissão de Conciliação Nacional da Conferência Episcopal da Colômbia, padre Dario Echeverri, confirmou a observação. As aproximações antes do diálogo real em Cuba já teriam começado muito mais cedo do que o relatado pela mídia, afirmou Echeverri em entrevista à Fundação Konrad Adenauer em Bogotá.

"O presidente Santos apelou à Igreja Católica para executar com cuidado o diálogo pastoral – essas aproximações que a Igreja mantém com os grupos armados", disse.

Juan Manuel Santos

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos: aval à participação da Igreja

As ligações discretas entre religiosos e a guerrilha têm uma longa tradição. Já em 2003, as Farc pediram ao bispo Luis Augusto Castro Quiroga que participasse das negociações secretas com vista à prestação de cuidados médicos a reféns.

Até mesmo o teólogo da libertação colombiano Camilo Torres Restrepo lutou nas fileiras do ELN, grupo marcado pela ideologia marxista-leninista. Em 2003, essas relações históricas ajudaram uma delegação da Igreja Católica a libertar um grupo de estrangeiros, que havia sido raptado.

Audiência no Vaticano

Em 2001, o então bispo da diocese de Chiquinquira, Hector Cutierrez Pobon, chegou até mesmo a propor um pacto de paz com o ELN. Ele disse que estaria disposto a submeter-se ao jugo do Exército de Libertação Nacional, caso isso viesse a servir à paz. Quinze comunidades apoiaram a incomum oferta de paz do bispo, hoje à frente da diocese de Engativá

Um ano antes, os combatentes das Farc haviam pedido pessoalmente a bênção ao Vaticano. Para apoiar o processo de paz colombiano, a Secretaria de Estado da Santa Sé aceitou, sob o sigilo em fevereiro de 2000, uma audiência com representantes das Farc e o governo colombiano.

Para o então número dois da guerrilha, Raúl Reyes, o tão esperado sonho de reconhecimento político se tornou realidade com a viagem a Roma. "Nós queremos que o Santo Padre nos abençoe e nos ilumine, para que possamos alcançar uma verdadeira reconciliação", explicou na época Reyes, morto oito anos depois numa incursão do Exército colombiano no Equador.

Depois de muitas tentativas frustradas, o destino político das Farc será discutido mais uma vez nesta semana em Havana. Para muitos observadores, este é o ponto mais sensível de todas as negociações de paz.

"É preciso encontrar uma solução de compromisso sobre quando e como os agressores serão responsabilizados criminalmente?", declarou Hubert Gehring, diretor do escritório da Fundação Konrad Adenauer em Bogotá. "Até onde deve ir a anistia para os comandantes das Farc?"

FARC Rebellen in Kolumbien

Tropas das Farc vigiam local onde presidente Pestrana se encontrou com chefe rebelde Marulanda em 2001

De acordo com estimativas das organizações humanitárias eclesiásticas Adveniat e Misereor, o papel da Igreja se tornará decisivo caso se chegue a uma resolução de paz.

"A Igreja é requisitada quando se trata de reconciliação", afirma Susanne Breuer, responsável pela Colômbia da organização Misereor. Para ele, na ponderação entre a verdade e a justiça, vítimas e agressores têm de se aproximar um dos outros.

Enquanto em Cuba tem início a segunda rodada de negociações de paz, prossegue na Colômbia a luta entre rebeldes, tropas do governo, paramilitares e narcotraficantes. Em Bojayá, a irmã Maria del Carmen Garzón, sobrevivente do massacre há 11 anos, ainda luta por uma compensação para as vítimas. A cruzada colombiana parece não ter fim.

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