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Cultura

Holocausto vira objeto de ficção

Após os sobreviventes do Holocausto terem transformado suas lembranças em literatura, uma nova geração de escritores utiliza a memória das vítimas como material para criar uma ficção de segunda mão sobre a Shoah.

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O químico e escritor italiano Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz

No dia 27 de janeiro de 1945, o italiano Primo Levi foi libertado de Auschwitz pelos russos; 11 de abril de 1945, os americanos libertaram o espanhol Jorge Semprún. Após o retorno, ambos tiveram que seguir o forte impulso de prestar testemunho sobre as monstruosidades que tinham vivido e por sorte sobrevivido nos campos de concentração alemães. Os dois escreveram suas memórias, ainda frescas.

Primo Levi foi o primeiro sobrevivente de Auschwitz a publicar um livro sobre suas experiências. O relato intitulado "Será que é um ser humano?" foi lançado na segunda metade de 1947. Por mais que o testemunho de Levi mal tenha sido levado em consideração na época, ou tenha tido uma recepção indiferente, o seu livro representa até hoje um dos textos básicos da chamada "literatura do Holocausto".

Esquecer, para lembrar

Jorge Semprún também tentou escrever suas vivências logo após a libertação de Buchenwald. Ele se debateu durante seis meses para colocar as lembranças no papel. Mas, ao contrário de Primo Levi, achou impossível chegar a uma forma definitiva. Precisou de anos para poder esquecer, primeiro, antes de poder resgatar suas lembranças. Só em 1960 conseguiu escrever o primeiro de seus inúmeros livros sobre o campo de concentração de Buchenwald: A Grande Viagem.

Nas décadas posteriores, a literatura do Holocausto ganhou cada vez mais títulos, autores e formas de representação. Legitimados por seu testemunho e seu sofrimento, os sobreviventes dedicaram-se à elaboração literária da memória. Alguns exemplos disso são os livros Continuar Vivendo: Uma Juventude, de Ruth Klüger, e Romance de um Sem Destino, de Imre Kertész, e nas obras de Edgar Hilsenrath, Louis Begley, Jerzy Kosinski, Tadeusz Borowski, Cordelia Edvardson, George Tabori, Aleksander Tisma ou Victor Klemperer, apenas para citar os autores mais famosos de memórias e autobiografias.

Passado é criação cultural

De acordo com uma tese de Jan Assmann, o passado só surge quando se pode se remeter a ele. O passado não existe como resultado natural, o passado é uma criação cultural. Como a lembrança funciona como um processo de constante reformulação e reinterpretação do passado e como os pensamentos incluem uma contínua interpretação dos acontecimentos, é tênue o limite entre os autênticos testemunhos dos sobreviventes e a transformação de fontes originais em literatura.

Muitas vezes as testemunhas ficcionalizaram suas lembranças, em vez de simplesmente registrá-las. Toda transformação de fatos em literatura implica uma distância artística. Só com a concessão do Prêmio Nobel de Literatura a Imre Kertész, em 2002, é que esta literatura de memória surgida na segunda metade do século passado oi reconhecida em sua especificidade e homenageada por sua qualidade literária.

Para que a lembrança vivida não se perca e não desapareça da memória coletiva, ela tem que ser resgatada da reminiscência biográfica e transformada em memória cultural. Afinal, é preciso transferir a lembrança pessoal do testemunho de época para a forma duradoura da construção literária.

Lamentar o não-vivido

É por isso que ninguém pode impedir autores de gerações posteriores de recorrer ao arquivo das testemunhas de época e basear seus próprios produtos literários nas lembranças de terceiros. De fato, observamos uma mudança de paradigma na atual literatura do Holocausto. Não são mais as próprias vítimas sobreviventes que narram. Com o iminente desaparecimento das últimas testemunhas, os narradores do Holocausto estão passando a se alimentar da memória alheia. O que se vê cada vez mais é uma literatura a partir de lembranças de segunda mão.

Enquanto a lembrança imediata vai parar no arquivo e a pessoa que se lembra desaparece, estabelece-se uma lembrança mediada pelas gerações posteriores. O Holocausto está se transformando num material livremente comercializável, em objeto de arte e também de comércio. Estamos vivendo uma preocupante transição do factual para o ficcional, de testemunho real para emoção a posteriori. No futuro, o que nos espera é uma ficção do Holocausto, que inclui desde uma literatura alarmista de segunda mão até a obra de arte literária, passando pela comercialização do horror como Shoah-business.

O ideal seria ter uma literatura de qualidade, mas o preço disso parece ser a coexistência de uma literatura comercial. Sobretudo se uma idéia-chave do pensamento judaico, gravada em Yad Vashem, o memorial do Holocausto em Jerusalém, não perder a validade: "O esquecimento prolonga o exílio; a lembrança é o segredo da redenção".

A autora, Sigrid Löffler (1942), crítica literária de ampla atuação na imprensa alemã e austríaca, participou até 2000 do extinto programa literário de TV Literarisches Quartett e fundou a revista Literaturen em 2001.

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