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Alemanha

Historiadores revelam que Adenauer instrumentalizou serviço de espionagem

Logo depois de sua criação, o serviço de inteligência externa da Alemanha, o BND, passou a agir também internamente, coletando informações sobre políticos, a mando do próprio chefe de governo.

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Konrad Adenauer em 1949: chanceler federal alemão mandava espionar adversários e aliados políticos

Os serviços de inteligência agem à surdina, de forma quase imperceptível pelo público. Por esse motivo, as seguintes palavras, anotadas no início dos anos 1960 por Reinhard Gehlen, então chefe do serviço de inteligência externa da Alemanha, não deveriam nunca ter sido lidas por pessoas externas: o político social-democrata Willy Brandt é um "um grande trabalhador, mas um considerável carreirista", escreveu o então chefe do Departamento Federal de Informações (BND, na sigla em alemão), acrescentando que, como prefeito da capital alemã, Brandt seria aceito "pelos berlinenses somente devido ao poder de persuasão dos aliados".

Mas o historiador Klaus-Dietmar Henke leu essas anotações. O especialista de 66 anos é porta-voz da Comissão Independente de Historiadores para a Pesquisa da História do BND (UHK, na sigla em alemão). Com a ajuda de colegas, ele trouxe à tona segredos do BND. Por exemplo, quantos nazistas trabalhavam para o serviço após a Segunda Guerra Mundial. Ou que o levante popular na antiga Alemanha Oriental, em 17 de junho de 1953, surpreendeu os agentes.

Controle do inimigo – e do amigo

O caso mais recente: o uso irregular do BND por parte do governo do ex-chanceler federal Konrad Adenauer. O político democrata-cristão governou a Alemanha entre 1949 e 1963. A Chancelaria Federal é responsável por supervisionar o BND. "A suspeita de abuso do BND por parte do governo se estendeu por toda a era Adenauer", diz Henke. "E vemos agora que a, digamos, 'presença política interna' do BND foi até muito maior do que as pessoas da época imaginavam."

Ávido por poder, Adenauer utilizou o serviço de inteligência para seus propósitos políticos domésticos. Ele permitiu que o BND coletasse informações sobre inimigos e amigos, sobre a oposição e a coalizão – como, por exemplo, sobre Willy Brandt, mas também sobre o seu ministro Franz Josef Strauss.

Segundo Henke, centenas de informantes, que ocupavam cargos em todos os importantes setores da política e da sociedade, repassavam informações ao serviço de inteligência. E o então chefe do BND, Reinhard Gehlen, encaminhava essas informações à Chancelaria Federal. "A maioria delas não era posta no papel. Mas temos alguns memorandos que deixam claro a forma de Adenauer dizer: 'faça isso ou aquilo'."

Assim surgiram ao menos 210 dossiês sobre políticos, cientistas e jornalistas. Recortes de jornal, memorandos de conversas e declarações, alguns resumidos em uma, outros até em 500 páginas. Henke diz que o conteúdo não é realmente surpreendente. O que realmente surpreende é o fato desses dossiês existirem – organizados com o suposto objetivo da contraespionagem.

Jogando pelas próprias regras

Mesmo em países democráticos, instituições que trabalham em segredo, como os serviços de inteligência, tendem a uma interpretação bem flexível das leis. Tarefas a eles reservadas, como a contraespionagem – ou o combate ao terrorismo, no caso do serviço de inteligência americano NSA – tornam-se "legitimações flexíveis da própria atividade", como diz o historiador Bodo Hechelhammer, do próprio BND, que trabalha junto à UHK.

Por esse motivo, revelações como as da comissão de historiadores dão início a debates importantes, como, por exemplo, sobre a influência e o controle dos serviços de inteligência. Ainda hoje o BND é controlado pela Chancelaria Federal em Berlim.

Em entrevista à emissora Deutschlandfunk, o historiador Klaus-Dietmar Henke exige mudanças. Sem os meios adequados, é impossível controlar o serviço, diz Henke. "Um inspetor de controle que não esteja subordinado à Chancelaria Federal, mas ao Parlamento, é a única possibilidade de controlar seriamente um serviço de inteligência", afirma o historiador.

Sob controle?

Também constitucionalistas como Gerhard Robbers, da Universidade de Trier, concordam que abusos deveriam ser evitados. Em sua opinião, os pré-requisitos para um controle mais efetivo já existem. "A Lei Fundamental prevê explicitamente que o Parlamento crie um grêmio parlamentar de controle, que monitore os serviços federais de inteligência."

Este grêmio de controle já existe e, claro, age em segredo. Seus membros se comprometem a manter sigilo até mesmo frente a outros deputados do Bundestag, câmara baixa do Parlamento alemão. Pois as informações a que têm acesso são muito abrangentes. "Este grêmio tem o direito de solicitar todos os registros, de convocar e interrogar todos os funcionários, diretores dos serviços de inteligência e ministros. Existem poucas exceções neste controle tão abrangente", explica Robbers.

No entanto, ele acrescenta: "Provavelmente sempre houve discussões sobre a quantidade de informações fornecidas pelo governo alemão ao grêmio de controle parlamentar". De acordo com Robbers, essa relação de confiança precisa melhorar.

Um mistério permanece

Naturalmente, a comissão parlamentar não pode investigar casos que não são de seu conhecimento. Os dossiês secretos relativos à política interna, provenientes dos primórdios do BND, foram – a mando da Chancelaria Federal – destruídos entre 1969 e 1970. Os historiadores só puderam reconstruir os arquivos através de fontes secundárias.

E a questão se, depois de Adenauer, outros chanceleres federais também utilizaram o BND para seus propósitos, permanece um mistério. Por enquanto, a comissão de historiadores UDK tem autorização apenas para pesquisar os primeiros anos de atividades do serviço de inteligência externa, entre 1945 e 1968.

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