1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Cultura

Histórias paulistanas nos cinemas alemães

Filme de Roberto Moreira entrelaça a vida de vários personagens e mostra suas desventuras na cidade grande. Tendo São Paulo como pano de fundo, produção traça retrato delicado das desilusões e desencontros na metrópole.

Com uma produção média de cem filmes por ano, o cinema brasileiro dificilmente chega ao circuito comercial alemão. Por isso a estreia de Quanto dura o amor? – que na Alemanha recebeu o título de Paulista – Geschichten aus São Paulo (Histórias de São Paulo, na tradução do alemão) – é um fato a ser celebrado.

Para o bem ou para o mal, o filme do diretor Roberto Moreira difere das produções brasileiras que costumam ser lançadas no país, geralmente histórias sociais ou de violência urbana que foram destaque em grandes festivais internacionais.

O filme foca em dramas da classe média, mas seu principal tema é a desilusão, tanto no amor como na vida profissional e também com a cidade. "Foi uma vontade de renovação temática. Acho que o cinema brasileiro aborda pouco a classe média, e eu queria fazer um filme que falasse do meu mundo, não do mundo da periferia", disse o diretor em entrevista à DW Brasil.

PAULISTA Film

Maria (Lourenço) e Suzana (Spinelli) dividem um apartamento na Avenida Paulista

Diversos protagonistas

O filme é centrado em personagens que moram no mesmo prédio e nas relações amorosas, sentimentais e profissionais deles. "Eu gosto muito de filmes como os de Robert Altman, que contam várias histórias. Meu primeiro filme, Contra Todos, tem quatro protagonistas, nesse são sete. Mas é difícil alinhar as histórias, sobretudo manter os conflitos emocionais. Cada história tem uma duração própria, e é preciso que todas entrem em sincronia. O processo de montagem foi longo, e eu tive que abrir mão de várias dessas pequenas histórias", explicou o diretor.

Maria (Silvia Lourenço) é uma aspirante a atriz que vai para a cidade grande atrás de uma carreira. Seu deslumbramento com a intensidade da metrópole a leva a mergulhar na noite sedutora da cidade sem calcular os riscos, e ela se envolve com a musa da noite, a cantora Justine (Danni Carlos).

PAULISTA Film

Dramas da classe média dominam o filme

A jovem do interior mora com Suzana (Maria Clara Spinelli), uma discreta advogada que vive uma paixão promissora, mas guarda um segredo. Seu vizinho, o romântico Jay (Fábio Herford), é um escritor esquecido e solitário que se apaixonada pela prostituta Michelle (Leilah Moreno).

O diretor, que já havia trabalhado com Lourenço em seu filme de estreia, teve que enfrentar um longo processo de testes, já que o elenco é fundamental para contar a história desses personagens. "Encontrar a Suzana foi um trabalho muito especial, e a Maria Clara, um verdadeiro achado. Ela criou e deu vida ao seu personagem de modo admirável", elogiou Moreira.    

Sexualidade como veículo

Além do amor, a sexualidade tem um papel importante no filme e é usada, em maior ou em menor grau, como meio para as descobertas e mudanças dos personagens. "A sexualidade é um dado fundamental da vida de qualquer ser humano. Acredito que é uma fronteira, onde novos papéis estão sendo criados e vividos. Acho mesmo fascinante e libertador", disse Moreira.

O filme também aborda a sexualidade de forma plural, abrindo tanto possibilidades para os personagens como surpresas para o público. "Apesar de todo o empenho que tivemos em tratar da questão das escolhas sexuais de uma forma delicada e fiel ao contexto contemporâneo, a verdade é que boa parte do público vai em busca do casal heterossexual protagonista e isso o filme não entrega. É uma pena, porque procuramos tratar a busca do amor como um problema universal. Todos os personagens erram ao escolher seu parceiro, não importa se é uma transexual, uma lésbica ou um heterossexual. Todos vivem o mesmo desengano", explicou o diretor.

PAULISTA Film

"Paulista" mostra histórias de desilusão na metrópole

Vários universos

As vidas desses personagens se entrelaçam não só nas ruas e nos bares, mas principalmente no prédio onde vivem. Nada mais paulistano do que esses microcosmos urbanos, amontoados um ao lado do outro. Um personagem invisível, mas presente em toda a história. "Eu queria um desses imensos prédios modernistas que são 'máquinas de morar'. Nesse sentido, o condomínio é uma utopia urbana que não deu certo. A verdade é que esses sonhos do século 20 criaram cidades muito duras com o indíviduo", disse Moreira.

Outra característica do filme é sutilmente desdobrar os vários universos que compõem São Paulo, partindo do coração da cidade – e do filme –, a Avenida Paulista. O filme ainda passeia pelos fóruns e escritórios do centro da cidade e apresenta o charme quase mágico do Bairro da Liberdade, as dificuldades do mundo do teatro e as armadilhas e ilusões da Rua Augusta, onde jovens de classe média se divertem e prostitutas lutam para ganhar a vida.

Moreira acredita ter feito um filme paulistano, mas com dramas que poderiam ser vividos por pessoas de todo o mundo. "Gosto mais do título internacional do que do brasileiro, que coloca ênfase no amor. Aqueles personagens são bem paulistas, e o ambiente que eles vivem também é, mas São Paulo é uma metrópole internacional, que tem muito em comum com cidades como Berlim", completou.

Outro "personagem" que pontua o filme é a música High and Dry, dos ingleses do Radiohead. "Eu, a produtora Geórgia Costa Araújo, o Lívio Tragtenberg (responsável pela trilha) e a Danni Carlos somos fãs da banda. Foi fácil chegar a um consenso. O que não queríamos era uma trilha brasileira manjada. Sinceramente acho tudo meio chato", disse o diretor. 

Para Moreira está ficando cada vez mais fácil fazer cinema no Brasil, mas Paulista é "um filme de nicho, uma produção média e destinada a um público diferenciado, urbano e jovem." Ele já trabalha em dois novos projetos: o suspense sobrenatural Terapia do Medo e a série cômica de televisão Condomínio Jaqueline, um desdobramento de Paulista, que se passa no mesmo prédio, mas com outros personagens.

PAULISTA Film

Filme passeia por diversos universos da cidade

Leia mais